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Blog da Sophie Deram

Emulsificantes dos alimentos podem provocar inflamação intestinal

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

11/11/2020 04h00

As moléculas e nutrientes presentes nos alimentos podem conversar com nosso corpo, atuar nos nossos genes e também interagir com trilhões de micro-organismos que habitam o nosso intestino, que conhecemos como microbiota intestinal.

A microbiota intestinal desempenha várias funções importantes e desejáveis para a saúde, como uma boa digestão, imunidade e produção de nutrientes como a vitamina K.

No entanto, acredita-se que a ação da alimentação sobre as bactérias que vivem no intestino também pode ter alguns impactos prejudiciais, como o desencadeamento de inflamação intestinal, levando ao desenvolvimento de doenças inflamatórias.

É o que um estudo publicado na revista Cell Reports e desenvolvido por um grupo de pesquisadores de instituições francesas e americanas têm mostrado ao analisar o efeito de emulsificantes alimentares em ratos.

Se você tem o hábito de ler o rótulo dos alimentos, talvez tenha familiaridade com nome como "lecitina" ou "polisorbato". Eles são exemplos de emulsificantes, ou seja, aditivos alimentares amplamente utilizados em alimentos industrializados, como margarinas, salsichas, sorvetes e alimentos instantâneos. Servem para misturar dois líquidos imiscíveis, proporcionando melhor textura e melhorando a conservação dos alimentos.

Pesquisas anteriores sobre o efeito dos emulsificantes

Na verdade, a pesquisa é mais uma de uma série de outras que vêm sendo realizadas há muitos anos pela equipe do pesquisador Benoit Chassing. O intuito é entender o papel da alimentação e de aditivos alimentares na microbiota intestinal.

Em estudos anteriores, os pesquisadores já haviam observado que emulsificantes sintéticos como o carboximetilcelulose (CMC) e polissorbato 80 (P80), podem ter impacto sobre certas bactérias da microbiota intestinal, promovendo inflamações intestinais. E também perceberam que na microbiota de ratos composta por uma baixa diversidade de microrganismos, os animais ficavam protegidos contra os efeitos negativos desses emulsificantes.

Isso levou à hipótese de que esse tipo de aditivo alimentar afetaria apenas certas bactérias, que em tese são inofensivas, mas que na presença de emulsificantes poderiam ser capazes de desenvolver inflamações intestinais crônicas, como doença de Crohn e retecolite ulcerativa.

Último estudo sobre Emulsificantes e as doenças inflamatórias intestinais

As doenças inflamatórias intestinais também são influenciadas por fatores genéticos e ambientais e vêm aumentando desde o século XX, atingindo mais de 20 milhões de pessoas no mundo todo.

Diante da importância dessas doenças e dos resultados das pesquisas anteriores, a equipe de Benoit Chassaing deu continuidade aos estudos sobre os efeitos dos emulsificantes trabalhando com dois modelos de ratos: um deles sem microbiota intestinal e o outro com uma microbiota formada por apenas oito espécies de bactérias.

Nos ratos de ambos os modelos, os pesquisadores inocularam bactérias Escherichia coli de uma cepa associada ao desenvolvimento de doença de Crohn. Em seguida, a equipe acrescentou os dois tipos de emulsificantes: carobimetilcelulose (CMC) e polissorbato-80 (P80) à alimentação habitual dos animais.

Os resultados mostraram que apenas os ratos que consumiram emulsificantes e receberam a cepa de E. coli desenvolveram inflamação crônica intestinal. Ou seja, por si sós, os emulsificantes não provocaram inflamação.

Essa cepa de E. coli é bastante aderente e invasiva e faz parte do que se conhece como "patobiontes". Trata-se de bactérias que geralmente são inofensivas na presença de uma microbiota normal, mas que em certas condições podem se tornar patológicas.

Os pesquisadores concluíram que a presença de E. coli é suficiente para gerar os impactos prejudiciais dos emulsificantes CMC e P80, mas não apresentam conclusões definitivas sobre como isso acontece. Um mecanismo plausível é que os emulsificantes induzem diretamente a expressão de um gene de virulência da E. coli in vitro.

E in vivo, ou seja, nos modelos animais, acreditam que as moléculas de CMC e P80 que não são absorvidas interagem com a bactéria E. coli aumentando a expressão de genes que permitem sua penetração na camada de muco intestinal e aumenta a aderência nas células que revestem o intestino, ativando a inflamação.

microbiota intestinal; intestino - iStock - iStock
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É importante reduzir o consumo de industrializados, mas não veja os emulsificantes como vilões

Embora os resultados de ensaios com seres humanos sobre o efeito dos emulsificantes não estejam disponíveis, os pesquisadores acreditam na possibilidade de formular recomendações personalizadas com base na composição da microbiota de cada pessoa.

Ou seja, além de identificar aqueles emulsificantes que não apresentam efeitos nocivos, seria possível aconselhar ou desaconselhar certos alimentos, dependendo das bactérias que habitam o intestino e do risco de inflamação, e assim, prevenir doenças inflamatórias intestinais.

No entanto, também precisamos ter em mente que eliminar os emulsificantes da alimentação pode não ser uma medida tão eficaz, pois eles estão muito presentes nos alimentos industrializados, que hoje, fazem parte do nosso dia a dia.

Além disso, a ideia de retirar determinados alimentos que contenham emulsificantes podem gerar a ideia de que são vilões da nossa saúde. E isso não é verdade.

Sem dúvidas, os alimentos que contêm muitos aditivos alimentares, como os ultraprocessados, não devem ser a base da nossa alimentação, mas também não precisam ser proibidos.

Também precisamos entender que nem todo mundo que apresenta E. coli em sua microbiota e que consome emulsificantes irão desenvolver uma doença inflamatória intestinal, uma vez que diversos fatores genéticos e ambientais estão envolvidos no desencadeamento desses problemas de saúde.

Em vez de olharmos para os industrializados com maus olhos, acredito que o melhor a se fazer seja consumir mais alimentos in natura e cozinhar mais, o que consequentemente nos levará a diminuir o consumo de industrializados e aditivos.

Além disso, também considero imprescindível perceber que as escolhas alimentares não são apenas uma responsabilidade individual, pois existem diversas questões culturais, sociais e políticas envolvidas.

Por exemplo, pare um pouco para pensar porque, hoje em dia, come-se tantos alimentos ultraprocessados. Atualmente é inviável ter uma vida em que plantamos e colhemos todo o alimento que necessitamos. Em vez disso, basta ir a um mercado para ter acesso a uma grande disponibilidade de comida, o que é fantástico do ponto de vista da sobrevivência e da praticidade.

Por outro lado, esse modo como a sociedade funciona também traz consequências desagradáveis, como a grande oferta e consumo de alimentos de baixa qualidade.

Com isso, quero dizer que a indústria alimentícia também tem um grande papel nas nossas escolhas e por isso, devemos exigir dela que nos forneçam alimentos de melhor qualidade.

Por exemplo, quanto aos emulsificantes, aqueles que têm relação comprovada com a inflamação crônica, poderiam ser substituídos por outros que não apresentam esse feito. E porque usar tantos aditivos na produção de alimentos? Muitos são utilizados apenas para tornar o alimento mais atraente pela cor e pelo sabor e mesmo aqueles que contribuem para prolongar a vida útil do alimento podem ser utilizados em menores quantidades.

Por fim, é comer bem e em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL