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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A esperança de estarmos um passo mais próximos da cura do HIV

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

26/11/2021 04h00

Dos quase 260 milhões de casos confirmados até agora de covid-19 em todo o mundo, cerca de 255 milhões de pessoas já se curaram. Já para o HIV, depois de mais de 40 anos de pandemia, o 4º caso de cura foi divulgado na última semana. O anúncio agitou a comunidade científica internacional. E com razão.

Dos outros três casos anteriores de cura, dois ocorreram de forma semelhante. Eram pacientes saudáveis que tinham a infecção por HIV em tratamento adequado, quando diagnosticaram um câncer hematológico. Como tratamento do câncer, realizaram um TMO (transplante de medula óssea) conseguindo com isso eliminar dos seus corpos tanto as células neoplásicas quanto as infectadas com o HIV.

A partir de 2010, ano de divulgação do primeiro desses casos de cura, houve um momento de euforia e esperança por uma cura factível. O TMO, no entanto, é sabidamente um procedimento caro, complexo e com a possibilidade de causar danos graves à saúde e a morte do paciente. E infelizmente, depois de dezenas de transplantes com o objetivo de eliminação do HIV, apenas 2 pacientes foram de fato curados.

O terceiro caso de cura, divulgado em 2020, envolveu um processo completamente diferente. Tratava-se de uma paciente norte-americana que era uma controladora de elite, situação rara em que a própria imunidade da pessoa contra o HIV é tão eficiente que o mantém o vírus sob controle e indetectável mesmo sem o uso de tratamento antirretroviral.

O mecanismo com que os controladores de elite fazem esse controle viral já é há décadas objeto de pesquisa científica, mas até o ano passado nenhum deles tinha conseguido eliminar por completo qualquer resquício funcional de HIV e se curar espontaneamente.

O quarto caso também ocorreu em uma paciente controladora de elite, mas dessa vez da argentina. Ela teve sua infecção por HIV diagnosticada em 2013 e nunca havia usado tratamento antirretroviral. No artigo publicado na semana passada, os pesquisadores reportaram que depois de realizar uma busca exaustiva pelo DNA proviral intacto do HIV em células da paciente, inclusive na sua placenta depois de um parto que teve em 2020, foram encontradas apenas evidências de que o vírus havia estado por lá, mas já não estava mais presente de forma viável.

O caso traz esperança à comunidade científica por comprovar mais uma vez que a cura esterilizante, aquela em que o vírus é eliminado do organismo, assim como fazemos com o coronavírus, não só é possível como pode acontecer espontaneamente em indivíduos específicos.

Uma série de estudos encontram-se em andamento para tentar melhorar a imunidade de pessoas comuns que vivem com HIV, para torná-las semelhantes aos controladores de elite. Paralelamente, os pesquisadores procuram entender o que essas duas controladoras de elite têm de especial para conseguirem sozinhas eliminar o HIV dos seus corpos e se curar.

A paciente argentina não teve sua identidade revelada, por isso está sendo chamada de Paciente de Esperanza, fazendo referência à pequena cidade onde mora. Ela não é a certeza de que em breve teremos uma cura disponível e factível do HIV, mas com certeza é um sinal de que estamos um passo mais próximo disso e é um sopro de esperança de que um dia teremos para essa pandemia a mesma proporção de curados que temos para a covid-19.

Só precisamos dar o tempo e o financiamento que a ciência precisa para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL