PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Estudo mostra 229 casos de falha da PrEP e não é preciso desespero; entenda

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

06/08/2021 04h00

Na conferência mundial da Associação Internacional de Aids (International Aids Society - IAS), realizada de forma virtual no final de maio, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ao HIV foi um dos assuntos mais abordados quando o assunto era prevenção do HIV.

Nos últimos anos, a PrEP passou a ser distribuída amplamente na África Subsaariana como resultado do empenho dos gestores de saúde em implementar um plano de saúde pública para reduzir as novas infecções por HIV no continente.

A África sempre concentrou o maior número de casos de HIV/Aids do planeta. Hoje, seguramente é o local em que mais pessoas estão usando PrEP. A experiência de rápida expansão do uso da PrEP proporcionou a realização de uma série de estudos e tem nos ajudado a aprender ainda mais sobre esse método de prevenção.

Até 2021, tanto os ensaios clínicos quanto as experiências de implementação da PrEP em vida real mostraram uma eficácia na prevenção do HIV superior a 99% entre indivíduos que tinham boa adesão aos comprimidos.

Eis que, na semana passada, durante a conferência da IAS, foram apresentados os resultados de um trabalho que causou agitação entre os expectadores e, como esperado, nas redes sociais.

Trata-se de um estudo que acompanhou a expansão da distribuição da PrEP na África Subsaariana, com o foco nos casos de falha de PrEP, situação em que uma pessoa se infecta com HIV apesar da PrEP.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de diversas universidades norte-americanas e sul-africanas, e acompanhou mais de 104 mil pessoas que iniciaram PrEP entre 2017 e 2021 em quatro países africanos (África do Sul, Quênia, Zimbábue e Suazilândia).

Durante esse período, foram encontrados 229 soroconversões para HIV após o início da PrEP. A maioria dos casos aconteceu entre mulheres cisgênero (75%) e em adolescentes ou adultos jovens (42%).

Depois do teste positivo, os pesquisadores conseguiram coletar amostras de 208 deles para a realização de genotipagem (em busca de mutações de resistência aos antirretrovirais) e dosagem da concentração dos medicamentos no sangue (para avaliação objetiva da adesão aos comprimidos da PrEP).

As genotipagens mostraram que apenas 23% dos vírus testados tinham alguma mutação que conferia resistência à PrEP e, entre esses participantes, 78% tinham dosagem de antirretroviral que indicava boa adesão aos comprimidos.

Num primeiro momento esses resultados poderiam até parecer algo surpreendente e inesperado, já que a literatura médica produzida até agora dizia que os poucos casos de falha de PrEP entre pessoas com boa adesão ocorriam por vírus resistentes aos antirretrovirais da PrEP.

Segundo a Urvi Parikh, pesquisadora da Universidade de Pittsburgh (EUA) que fez a apresentação na conferência, os resultados encontrados podem ser explicados porque a dosagem dos antirretrovirais pode ter sido feita depois que os participantes já tinham iniciado o tratamento do HIV, e não no momento da soroconversão, como recomendado.

Além disso, mesmo se considerássemos que todos os 27 soroconversores com altos níveis de antirretroviral detectados no sangue tinham de fato boa adesão à PrEP quando se infectaram, num universo de mais de 104 mil pessoas em acompanhamento por 4 anos, esse número continuaria garantindo uma eficácia protetora da PrEP de mais de 99%.

Uma proteção de 99,97%, para ser mais preciso.

Entre o restante dos usuários de PrEP com má adesão aos comprimidos, as soroconversões são muito mais frequentes e esperadas, já que não se poderia contar com o efeito protetor do medicamento. Da mesma foram que a camisinha, a PrEP só é capaz de proteger do HIV aqueles que a usam corretamente.

Para as pessoas que têm exposição sexual vaginal ao HIV, como a maioria das mulheres cisgênero e homens trans, sabemos que é preciso ter uma adesão ainda melhor aos comprimidos da PrEP para se garantir uma proteção máxima contra o HIV. Por causa disso, as pesquisas clínicas buscam novas formas de PrEP, como a injetável de longa duração ou o anel vaginal, que se adaptem melhor à vida dessas pessoas.

Encontre, dentro do cardápio de prevenção, os métodos que melhor se adaptam à sua vida e se teste periodicamente para as ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), pois dessa maneira estará fazendo o que há de mais moderno e eficaz para a sua promover sua saúde sexual.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL