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Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Conheça como será a PrEP do futuro

Injetável, em comprimidos, em implante subcutâneo: quanto mais opções tivermos de PrEP no futuro, mais fácil será a adesão por pessoas de todos os diferentes contextos de vida - iStock
Injetável, em comprimidos, em implante subcutâneo: quanto mais opções tivermos de PrEP no futuro, mais fácil será a adesão por pessoas de todos os diferentes contextos de vida Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Com 1 milhão de usuários em todo o mundo, a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), estratégia de prevenção que consiste no uso contínuo de antirretrovirais por pessoas negativas para HIV, com o objetivo de protegê-las dessa infecção, tem sido a maior das apostas na atualidade para conter a disseminação dessa pandemia que completa 40 anos em 2021.

A PrEP surgiu em 2010, com a utilização dos medicamentos Tenofovir e Entricitabina, coformulados em um único comprimido que, se tomado diariamente, reduz em mais de 99% o risco de uma pessoa se infectar com o HIV.

Uma pessoa mais otimista e empolgada poderia pensar, há 10 anos, que a PrEP, na forma de comprimidos diários, era a solução de todos os problemas na prevenção do HIV, e que hoje já não teríamos mais casos registrados dessa infecção no planeta.

O tempo passou e o otimismo empolgado se frustrou. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (UNAIDS), somente em 2019 ainda tivemos globalmente 1,7 milhão de novos casos de infecção por HIV. Mas o que aconteceu para que a PrEP não cumprisse o seu papel de bala de prata contra o HIV? São dois os principais motivos: o acesso restrito e desigual à PrEP e a necessidade de ainda mais opções de métodos de prevenção.

O acesso à PrEP no Brasil e no mundo é completamente heterogêneo, sendo infelizmente facilitado ou dificultado a depender da vontade dos gestores de saúde e da sua aceitação pela comunidade. Já em relação às alternativas de prevenção, simplesmente não podemos cair no mesmo erro que cometemos com a camisinha nas últimas décadas e achar que todas as pessoas do mundo vão querer e conseguir tomar comprimidos diariamente para se prevenirem do HIV.

Para tentar resolver o segundo problema, a ciência da prevenção tem desenvolvido nos últimos anos ensaios clínicos para validar novas formas de PrEP, utilizando novos medicamentos com diferentes posologias e vias de administração. Aumentando as alternativas de PrEP, ficará mais fácil de se garantir que mais pessoas consigam aderir de forma correta a um método de prevenção eficaz.

Nessa onda, recentemente a PrEP na forma de anéis vaginais impregnados com o antirretroviral Dapivirina trocados mensalmente passou a ser recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e a aprovação do uso da PrEP injetável de longa duração com o antirretroviral Cabotegravir, aplicado por via intramuscular a cada 2 meses, deve ocorrer em breve.

Será que com PrEP em comprimidos diários ou sob demanda, em anéis vaginais e em injeções intramusculares, além da camisinha, teremos solucionado a questão da prevenção do HIV? Os estudiosos do assunto acreditam que não, afinal quem sabe qual a melhor forma de prevenção para cada indivíduo é ele próprio. E quanto mais opções de prevenção existirem, mais fácil será de se contemplar todos os diferentes contextos de vida.

Com isso na cabeça, os pesquisadores da prevenção do HIV apostam que no futuro a PrEP que terá a melhor aceitação e adesão será aquela que não depender de um comprometimento diário de adesão e que não interfira na vida das pessoas, por exemplo com efeitos colaterais. Nesse cenário, foram lançadas duas apostas: o implante subcutâneo com o antirretroviral Islatravir trocado anualmente e a aplicação subcutânea semestral do antirretroviral Lenacapavir.

O Islatravir ainda se encontra nas fases iniciais dos ensaios clínicos, que avaliam a segurança e viabilidade do uso do implante em seres humanos, e cujos resultados preliminares apresentados na última semana na CROI, a conferência mundial de HIV apontaram um bom perfil de efeitos colaterais e capacidade de manter os níveis protetores da droga no sangue dos participantes. Já o Lenacapavir está em uma etapa mais avançada dos estudos e já começa em 2021 os seus primeiros ensaios clínicos de fase 3, a última antes da aprovação para o seu uso.

Gostando você ou não da PrEP, ela veio para ficar. É ela que está virando o jogo na prevenção contra o HIV em todo o mundo e obtendo os melhores resultados na redução da incidência dessa infecção nas localidades em que foi implementada. É com otimismo, empolgação e conhecimento científico, e não com preconceito e discriminação, que poderemos muito em breve controlar a epidemia de HIV em todo o mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL