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"Precisaremos de muitas vacinas ao mesmo tempo", diz presidente da SBIm

Juarez Cunha, presidente da SBIm - Divulgação
Juarez Cunha, presidente da SBIm Imagem: Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

23/10/2020 04h00

O Brasil vai precisar de vários tipos de vacinas seguras e eficazes para conseguir imunizar a população de forma mais célere contra a covid-19. A opinião é de Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), que classifica como "absurdo" um debate sobre a origem de uma vacina, em vez de pensar em um plano nacional de imunização.

"A gente deveria estar discutindo como vai ser o esquema que a gente vai ter quando uma vacina estiver disponível. Temos muita coisa para decidir: quem é o público-alvo? Quem vai tomar primeiro? Qual a resposta da vacina para cada público, como os idosos?", questiona.

Em entrevista a VivaBem, Cunha defendeu que o governo brasileiro abandone imediatamente os ataques a vacina chinesa testada no Brasil e entenda que a escolha da vacina a ser usada no país deve seguir critérios técnicos, não políticos.

"Nenhum laboratório do mundo vai produzir para o planeta todo, inclusive para o Brasil. Os pesquisadores, as sociedades científicas esperam que cinco, 10 vacinas consigam chegar a esse nível de segurança e eficácia", afirma.

Ele ainda avalia que o debate encampado pelo presidente Jair Bolsonaro pode custar caro à saúde pública nacional. "Essa polarização, esse embate, debate, esse questionamento não só pode passar negativamente com qualquer vacina de covid liberada no país, independente da origem, mas também pode impactar em vacinas consagradas que a gente usa há décadas, e que as pessoas podem ser contaminadas por todo esse questionamento que acaba acontecendo", pontua. Leia a entrevista na íntegra:

Como o senhor avalia esse debate que politizou a vacina e usa a origem como referência para aquisição no país?

Nós, como sociedade científica, temos uma posição de que, independe da origem da vacina, desde que ela seja comprovadamente segura e eficaz, e só assim vai ser usada em grande escala na nossa população, só assim vai ser liberada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) independente de onde for produzida. O importante é ter várias vacinas com essas características: segurança e eficácia.

Mas esse debate para criar barreiras por conta do país de origem da tecnologia tem algum sentido?

Acho que é um debate desnecessário e que só atrapalha. Essa polarização, esse embate, debate, esse questionamento não só pode passar negativamente com qualquer vacina de covid liberada no país, independente da origem, mas também pode impactar em vacinas consagradas que a gente usa há décadas, e que as pessoas podem ser contaminadas por todo esse questionamento que acaba acontecendo.

O Brasil é um produtor de vacinas. A gente não gostaria que outros países vissem as nossas vacinas produzidas aqui com esse viés. O Brasil é o principal produtor de vacina contra febre amarela do mundo. Imagina se tivesse esse questionamento, já que a gente exporta para vários países...

A CoronaVac é chinesa, mas terá produção no Brasil. Isso a torna uma vacina também brasileira?

São coisas diferentes que temos de avaliar. Primeiro temos contrato do governo federal com a Universidade de Oxford de transferência de tecnologia. A maioria das das vacinas na nossa rede pública é produzida no Brasil. Mas, antes, todas passaram por esse mesmo processo. O Brasil só incorpora no seu programa nacional com a cláusula de transferência de tecnologia —o que é muito interessante porque dá autonomia e expertise à indústria de pesquisa, científica, farmacêutica para gente produzir nosso produtos aqui, e inclusive ter autonomia da produção.

É importante esse tipo de contrato. mas isso não significa que para vacinas de covid vai ser uma forma completamente diferente que tivemos, tudo sendo mais rápido, inclusive a produção da vacina: elas já estão sendo produzidas em grande escala mesmo antes mesmo de ter o resultado das pesquisas. Claro, só serão utilizadas se as pesquisas confirmarem segurança e eficácia. O que a gente quer como sociedade é que várias vacinas alcancem isso.

Usaríamos todas ao mesmo tempo?

O que a gente deve ter é vacinas com plataforma diferentes, com tecnologias diferentes e respostas diferentes. Podemos ter então vacinas diferentes: a gente vê que pode ter uma vacina de 50% de proteção, outra com 80%, outra com 100%, ou posso ter uma que foi 100% para o desfecho mais grave, que é morte. São perfis diferentes que ainda não conhecemos, que só vamos saber com as pesquisas.

Nenhum laboratório do mundo vai produzir para o planeta todo, inclusive para o Brasil. Os pesquisadores, as sociedades científicas esperam que um número de cinco, 10 vacinas consiga chegar nesse nível de segurança e eficácia. Assim teremos vários produzindo. E só depois de ter a liberação da Anvisa, independente do país produtor, é que ela vai poder ser utilizada, mesmo a de Oxford. As duas que estão mais à frente não têm diferença em termos de cronograma, estão iguais. Dentro dessas vacinas, nem sempre está negociada a transferência de tecnologia, mas se fizer, é muito interessante.

As vacinas já estão em produção no país para atender a população em caso de eficácia comprovada. Isso é correto pela urgência?

Várias dessas vacinas que estão em fase 3 já estão em produção independente dos locais onde estão sendo testadas. O Brasil tem um parque industrial de produzir: Butantan e Fiocruz, por exemplo, têm capacidade de produzir. Todas as notícias que se têm é que a produção acontece em paralelo com as pesquisas. É uma aposta que está sendo feito pela indústria, pelos governos, que estão apostando que aquilo vai dar certo para antecipar possibilidades de uso. Se for esperar o resultado, para daí montar um fábrica e daí começar a produzir, não teria vacina antes de um, dois anos.

Muitos dos insumos e produtos que usamos hoje para vacinas vêm da China. Tem algum sentido analisar a qualidade por isso?

É tão difícil a gente ficar jogando isso como um produto. Temos várias vacinas que usamos da Índia, da Coreia, do Brasil, e os insumos muitas vezes vêm de outros países. Não tem sentido essa discussão de onde vem o produto. Desde que seja um produto de qualidade, seguro e eficaz, é uma discussão que não cabe. Somos parceiros comercias de todos esses países, não podemos colocar em dúvida até pela parceria de décadas. É uma discussão que não tem necessidade.

O presidente Jair Bolsonaro falou que o Brasil não seria cobaia da vacina chinesa. Tem algum fundamento?

É muito estranha essa declaração. Todas as vacinas que estão em pesquisa têm pessoas que são voluntárias, e essa funciona exatamente assim. Não tem diferença de Oxford para Coronavac para a vacina da Jonhson. Tudo é pesquisa. As pessoas estão sendo testadas para ver como respondem, se ela é segura. Sempre vai ser assim: inicia com fase de pesquisa em animais e depois passa para humanos e aumenta o número de humanos que participam. Não existe diferença nessa fase de pesquisa, independe do produto.

No caso em questão, a Anvisa não acaba sendo colocada em xeque já que ela tem a expertise questionada para avaliar as drogas no mercado brasileiro?

Ela é uma referência para tudo que a gente usa. Não tem um remédio que seja liberado no Brasil que a Anvisa não avalie antes. Não se usa sem essa liberação, e as vacinas são a mesma coisa. Para você ter ideia, as vacinas compradas de outros países precisam ser licenciadas pela OMS [Organização Mundial de Saúde], mas tem de ter o licenciamento local.

Que desfecho o senhor espera desse debate?

Primeira coisa: o desfecho desse debate não pode ser político. Não é uma discussão política, é técnico-científica. Mas infelizmente [o debate político] é o que está acontecendo. Nós temos pessoas muito capacitadas na ciência, inclusive dentro da Anvisa, que vão nos guiar em termos de utilização. São discussões científicas. Infelizmente estamos perdendo isso de vista com questionamentos, embates e disputas que não contribuem em nada para ninguém.

Nós temos que estimular que as pessoas coloquem as vacinas em dia. Não podemos ter volta de doenças, como como o sarampo há três anos. Não podemos impactar ainda mais a rede de saúde por doenças que podem ser evitadas, mesmo durante a pandemia.

O que precisamos fazer para reverter isso?

Está muito difícil de fazer qualquer campanha porque tudo é questionado. Mesmo que você tenha todo o embasamento científico, você é questionado. A gente deveria estar discutindo como vai ser o esquema que a gente vai ter quando uma vacina estiver disponível. Temos muita coisa para decidir: quem é o público-alvo? Quem vai tomar primeiro? Qual a resposta da vacina para cada público, como os idosos?

E o debate da obrigatoriedade ou não da vacina?

Por lei, [a vacinação] é obrigatória, mas nunca se precisou utilizar disso. O PNI [Programa Nacional de Imunizações] é reconhecido internacionalmente exatamente por isso: por manter boas coberturas nos seus quase 50 anos. Esses questionamentos e essas falas acabam atropelando o que a ciência mostra, e isso atrapalha absolutamente tudo, inclusive na campanha do Ministério da Saúde para colocar as vacinas em dia —que estão muito atrasadas por conta da covid.

Ou seja, enquanto a gente está estimulando a vacinação, vem um questionamento de origem de produto. Isso não é argumento científico. Se ele tivesse discutindo coisas específicas como a qualidade do produto, critérios epidemiológicos para definir grupos, mas não, é uma discussão que leva ao descrédito, não só da vacina contra a covid-19, mas do próprio PNI. Nosso país já tem uma estrutura enorme, uma logística pronta para vacinar pessoas. Não podemos colocar isso por água abaixo por ordem política.

Está difícil fazer ciência no país hoje?

Já estava difícil há alguns anos para se trabalhar. Uma das coisas importante nesse processo é a desinformação. O setor da saúde é o que mais sofre com fake news, e não é só de vacina. Basta ver a quantidade de fakes da covid. No caso da vacina, chegou-se ao absurdo de dizer que vão introduzir um nanochip para a pessoa ser controlada.

Acontece de tudo e, infelizmente, estamos em um momento em que essas notícias proliferam com muita facilidade, as pessoas não vão atrás de fonte segura para ver que aquilo é um total absurdo. Estamos tentando reverter todos esses motivos que justificam a baixa cobertura: a hesitação —que é quando tem a vacina disponível, recomendada, e mesmo assim não é aplicada—, a confiança nas vacinas —as pessoas precisam ser confiantes nelas.

A confiança nas vacinas no Brasil, saiu no Lancet, diminuiu de 75% para 63%. Isso é consequência da desinformação. E o que dá mais medo é que as pessoas acreditam em coisas absurdas, que a gente não consegue nem fazer ideia de como um pessoa pode acreditar naquilo ali e compartilha. Essa fala do presidente, por exemplo, ele falou exatamente o que está sendo feito com a vacina de Oxford: estão as duas na fase 3, com voluntários aqui no Brasil e que chegaram ao mesmo ponto. Uma fala dessas atrapalha absolutamente tudo em termos de credibilidade.

Esse debate deve abalar ainda mais a confiança da população?

É uma discussão que não tem sentido, não tem lógica. O que todo mundo quer, que qualquer país do mundo está esperando, é que chegue a vacina para alcançarmos a imunidade de rebanho. Se for de forma natural, vai demorar muito tempo, precisa ter 70% da população afetada.

No Brasil talvez tenhamos 10%, estamos muito longe. Se tivermos vacinas, independe de origem, que aumentem a proteção, serão bem-vindas. Quanto maior o número de vacinas, maior a chance de proteger pessoas.

Não adianta só ter só um produtor que vai produzir 30 milhões de doses, se só no Brasil eu tenho 210 milhões [de pessoas]. Precisa de várias vacinas seguras e eficazes.

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