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Drogas de longa duração vão revolucionar a prevenção e o tratamento do HIV

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Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

16/10/2020 04h00

Em 1987, apenas seis anos depois do primeiro caso descrito de Aids no mundo, foi licenciado nos Estados Unidos o primeiro medicamento para tratamento da infecção por HIV. De lá para cá, mais de 30 outras drogas foram desenvolvidas, mas a meta agora é facilitar ainda mais e acabar com a necessidade da tomada diária de comprimidos.

A primeira de todas as drogas antirretrovirais se chamava Zidovudina, que ficou mais conhecida como AZT. Ela precisava ser tomada de 12 em 12 horas, num total de 12 comprimidos por dia. E, apesar da potência mediana contra o HIV, os efeitos colaterais apresentados por quem a tomava faziam com que o seu uso prolongado fosse praticamente impossível.

Essa realidade foi retratada no premiado longa-metragem Clube de Compras Dallas, de 2013. O filme conta a história de uma rede clandestina de contrabando de AZT para pessoas doentes com Aids em estágio avançado, ilustrando com precisão a dificuldade existente na época para se tolerar as drogas usadas contra o HIV.

Hoje, felizmente, essa é uma realidade que já ficou para trás. Os medicamentos utilizados agora para o tratamento do HIV são bem mais potentes contra o vírus e não têm praticamente nenhum efeito colateral para a maior parte das pessoas. Mas, ainda que o número de comprimidos tenha se reduzido drasticamente, as opções terapêuticas aprovadas e disponíveis ainda dependem fundamentalmente da tomada diária de comprimidos.

No Brasil, a enorme maioria das quase 1 milhão de pessoas que vivem com HIV toma atualmente esquemas antirretrovirais que utilizam 1 ou 2 comprimidos por dia. Esse número pode parecer pouco quando comparado com as dezenas do passado, mas, para algumas pessoas, a exigência a longo prazo da tomada diária de comprimidos pode se transformar em fadiga, má adesão e até abandono do tratamento.

Pensando nisso e nas pessoas que têm dificuldades para aderirem corretamente ao seu tratamento, nos últimos anos os antirretrovirais de longa duração se tornaram objeto de intensa pesquisa.

Primeiro foi a vez dos antirretrovirais injetáveis, como o Cabotegravir e a Rilpivirina, que administrados bimestralmente por via intramuscular, tiveram um excelente desempenho nos ensaios clínicos que os avaliaram tanto no tratamento como na prevenção (PrEP) do HIV.

Nenhum dos dois usos foi ainda liberado pelas agências reguladoras de medicamentos no Brasil, o que deve acontecer nos Estados Unidos nos próximos meses. No entanto, a dor no local da injeção, principal efeito colateral relatado pelos usuários destes medicamentos, e a persistência da droga detectável no sangue de um indivíduo por até 1 ano após a interrupção das injeções, podem fazer com que o seu uso mais disseminado no contexto de vida real seja limitado.

Mais recentemente, um novo antirretroviral denominado Islatravir ganhou atenção devido à sua alta potência contra o HIV e perfil favorável de efeitos colaterais, absorção e eliminação da droga, ideais para um candidato a medicamento de ação prolongada.

Em estudos realizados em macacos, o Islatravir mostrou bons resultados em esquema de comprimidos tomados uma vez por semana, seja para tratamento do HIV ou como Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Agora, encontram-se em andamento os ensaios clínicos para avaliar o desempenho da droga na prevenção e tratamento do HIV em seres humanos.

Na semana passada, durante a Conferência Anual de Antirretrovirais de Glasgow, na Escócia, a possibilidade de um dia lidar com o HIV sem a utilização de comprimidos ganhou fôlego. Foram apresentados os resultados iniciais em humanos de uma nova droga chamada de MK-8507, que, de forma semelhante ao Islatravir, tem ação prolongada e bom perfil de efeitos colaterais.

Se tudo correr bem a partir de agora nos ensaios clínicos com essa nova droga, ela poderá ser testada em associação com o Islatravir para o tratamento do HIV na forma de implantes subcutâneos trocados uma vez ao ano, da mesma forma que os implantes de anticoncepcionais.

Um implante de antirretrovirais capaz de tratar ou prevenir o HIV de forma eficaz e segura será transformador também no enfrentamento diário da sorofobia existente no mundo. Isso porque sempre que uma pessoa tiver um desses implantes aplicado em seu braço, saber se ela vive ou não com HIV deixa de ter importância, pois saberemos que para ela o HIV não será um problema.

Quase 40 anos depois do primeiro caso de Aids, a ciência continua dando os seus passos rumo a um mundo em que todas as pessoas possam encontrar uma forma de prevenção ou tratamento do HIV que caiba no seu contexto de vida.

Não fique de fora disso.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, o registro da coformulação Cabotegravir e Rilpivirina já tinha sido aprovado por um país (Canadá), em março deste ano. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL