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Pessoas que pagam por sexo também devem ser prioridade na prevenção do HIV

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Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

25/09/2020 04h00

Diz o dito popular que a prostituição é a profissão mais antiga do planeta e não parece que ela vai deixar de existir tão cedo.

No entanto, hoje o termo sexo transacional é preferido para a situação em que uma pessoa recebe dinheiro, objetos de valor, drogas, moradia ou serviços em troca de sexo. Esse é um conceito mais abrangente, que pretende incluir todas as pessoas que, por conta desse contexto de vida sexual, compartilham uma vulnerabilidade aumentada ao HIV e outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis).

A vulnerabilidade ao HIV é facilmente percebida quando analisamos a sua prevalência nessas populações. No Brasil, por exemplo, enquanto cerca de 0,5% da população geral vive com HIV, um estudo publicado em 2018, que entrevistou 4.245 mulheres cisgênero trabalhadoras do sexo, encontrou nelas uma prevalência de 5,3%, mais de 10 vezes mais alta. Entre as mulheres trans, que devido à marginalização e discriminação muitas vezes têm o sexo transacional como única fonte de renda, essa prevalência no país já passa de 30%.

Os fatores que elevam a vulnerabilidade dessas pessoas ao HIV podem ser inúmeros e variam a depender do seu gênero, da localidade onde vivem e trabalham, do número de parcerias sexuais que têm e do contexto de vida que as leva a se engajar no sexo transacional. Se o trabalho sexual é considerado um crime em um país, por exemplo, automaticamente as pessoas que o exercem estarão mais vulnerabilizadas ao HIV.

Além das questões sociais, são frequentes os relatos de sexo sem preservativo por conta de violência ou dificuldade de negociar o seu uso com os clientes, de abuso de álcool e outras drogas, de vulnerabilidade social com alimentação e moradia precárias, da presença de outras ISTs e do menor acesso aos serviços de saúde devido à vivência que têm lá de estigma e discriminação.

Nos últimos anos, por mais que a prática do sexo transacional tenha sido incluída no Brasil como uma das indicações para uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV), oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a procura pela estratégia de prevenção ainda é pequena nessa população. Para piorar, com o avanço do conservadorismo dos últimos anos deixamos de ter no Brasil campanhas de prevenção de HIV direcionadas para trabalhadoras e trabalhadores do sexo.

Um elemento importante dessa equação, que até hoje não tinha recebido muita atenção, passou agora a ser objeto de estudo. Pensem comigo, mulheres trabalhadoras do sexo cis ou transgênero não se infectam com o HIV tendo relações sexuais entre si. Elas se infectam com os seus parceiros, homens que pagam por sexo.

Por muitos anos esses homens foram um grupo desconhecido pela ciência da prevenção do HIV, se diluindo no meio do enorme grupo de homens da população geral. O tabu que existe em torno do sexo transacional funciona como barreira para que homens que pagam por sexo sejam acessados e estudados, fazendo com que a prevalência de infecção por HIV entre eles não seja bem conhecida.

No entanto, nos últimos anos, trabalhos isolados começaram a ser desenvolvidos ao redor do mundo procurando avaliar os homens que pagam por sexo, abordando-os em centros de testagem de ISTs e nos locais onde costumavam procurar por sexo transacional. E agora, no início de setembro, foi publicado o primeiro grande estudo que se propôs a compilar os dados sobre o assunto produzidos até hoje.

Ao todo, foram incluídos 44 estudos individuais que, juntos, avaliaram quase 48 mil homens que pagavam por sexo em 21 países. A prevalência média de infecção por HIV encontrada nesse grupo foi de 5%, 10 vezes maior que a da população geral brasileira, e os estudos que os compararam com os homens da população geral, mostraram que o fato de pagarem por sexo praticamente dobrou as chances desses homens virem a se infectar com HIV ao longo das suas vidas.

Os dados inéditos apontam para a heterogeneidade existente entre os homens heterossexuais quando falamos de vulnerabilidade ao HIV e outras ISTs, e para a importância de se incluir todos os vulneráveis nas ações de saúde pública de prevenção.

O preconceito e o moralismo não podem impedir que uma pessoa tenha acesso à prevenção de qualidade contra o HIV. Assim como não é possível controlar a disseminação desse vírus olhando apenas para parte dos envolvidos. Afinal, para doenças transmissíveis, a saúde de um indivíduo depende da saúde dos outros, e de acordo com a constituição, todos têm direito à saúde. Até mesmo aqueles que compram ou vendem sexo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL