PUBLICIDADE

Topo

Paulo Chaccur

Marca-passo: posso viajar, praticar esportes, ir ao banco, fazer exames?

iStock
Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

06/12/2020 04h00

Dá para imaginar ter os batimentos do seu coração regulados por uma máquina a manivela e fora do seu corpo? Isso parece cena de filme antigo! E podemos dizer que é. O marca-passo não é nenhuma novidade na medicina.

O aparelho, criado em 1932 nos Estados Unidos, surgiu como um gerador de pulsos externo movido a manivela, que funcionava através de um mecanismo composto por molas e agulha para fornecer a estimulação cardíaca.

Algumas décadas depois, em 1958, um cirurgião sueco implantou o primeiro marca-passo no corpo humano. De lá para cá, o aparelho seguiu evoluindo, tanto na segurança quanto na eficiência. Nele, foram incorporadas funções capazes de devolver ao paciente uma condição de vida muito semelhante a de um indivíduo com o coração normal. Atualmente, existem diversos modelos, desenvolvidos para diferentes tipos de problema.

No entanto, mais de 60 anos depois deste marco, muitas dúvidas a respeito de seu uso ainda permanecem. E hoje, temos um número significativo de pessoas que precisam do aparelho: estima-se que atualmente mais de 300 mil brasileiros vivem com um marca-passo. A cada ano, cerca de 49 mil dispositivos são implantados pelo SUS, convênios ou na rede particular.

O que é um marca-passo?

O marca-passo é hoje uma espécie de microcomputador ligado ao coração. Trata-se de um pequeno dispositivo implantável, capaz de observar e corrigir defeitos no ritmo cardíaco. Podemos dizer, como o próprio nome diz, que se o coração perder seu ritmo, o aparelho age para trazê-lo de volta ao passo regular. Desta forma, definimos como sua principal função manter a frequência cardíaca dentro dos limites de normalidade.

Para entender o que isso significa: em condições normais de saúde e sem estímulos externos, a frequência ideal varia de 60 a 80 batimentos por minuto. Entre as crianças este número é de 120 a 140 por minuto, isso devido às suas necessidades fisiológicas de desenvolvimento (este número vai caindo com o passar dos anos). No entanto, para se ter ideia, em certas pessoas que têm alguma cardiopatia o coração chega a bater menos de 40 vezes por minuto.

Assim, uma vez que o marca-passo detecta uma arritmia, ou seja, uma frequência caracterizada por batimentos lentos, acelerados ou com falhas, gera impulsos elétricos para estimular o músculo do coração. Seu objetivo é, portanto, regularizar o ritmo para evitar eventos graves, como uma síncope ou até uma parada cardíaca.

Como funciona o aparelho?

Existem muitos modelos diferentes de marca-passo aplicáveis para cada tipo de paciente. De modo geral, eles atuam no sistema elétrico do coração por meio de estimulação com eletrodos —fios metálicos revestidos por uma fina camada de silicone.

O aparelho é projetado para imitar o marca-passo natural do coração. Os eletrodos têm assim dupla função: conduzir impulsos elétricos e funcionar como uma espécie de sensor de funcionamento do órgão.

Em resumo, a maioria dos aparelhos utilizados capta o impulso atrial do coração e estimula o ventrículo, ou estimula ambos, átrio e ventrículo, sequencialmente.

Em situações de disfunção da musculatura do coração, alguns marca-passos, conhecidos como ressincronizadores, atuam para a contração simultânea dos dois ventrículos, direito e esquerdo. Há ainda os CDIs (desfibriladores), que realizam a correção de arritmias graves com choques internos para reversão ao ritmo cardíaco normal.

Como é colocado?

O implante do marca-passo é realizado por uma pequena incisão na parte superior do tórax, com paciente sob anestesia. Durante a cirurgia, são implantados eletrodos, levados até o coração através da veia subclávia. Esses eletrodos são posicionados em locais pré-definidos e guiados por equipamento de raio-X. O número de eletrodos implantados depende de cada caso e é definido pelo médico.

O marca-passo é então conectado aos eletrodos já implantados e testados, ficando sob a pele, geralmente na região subclavicular direita ou esquerda. A pequena abertura na pele é fechada por pontos e a cicatriz é quase invisível. Ao fim do implante, o paciente é levado ao quarto, não sendo necessário acompanhamento na UTI.

Na prática, para quem é indicado?

A indicação mais comum para o implante de marca-passo definitivo é para pacientes que apresentam bloqueio na transmissão dos impulsos elétricos ou disfunção no sistema de automatismo do coração, com consequente redução no número de batimentos, as chamadas bradicardias. Em geral, as bradicardias são causadas pelo envelhecimento do coração, doenças isquêmicas devido a doença arterial coronária e a doença de Chagas.

Os ressincronizadores são usados em casos de insuficiência cardíaca, em decorrência do enfraquecimento da musculatura do coração. Já o CDI é implantado em pacientes que apresentam taquicardias ventriculares, pessoas com alto risco de morte súbita.

Vale reforçar que vários exames são necessários para a conclusão de que o paciente se beneficiará do implante do dispositivo. A indicação do uso do marca-passo deve ser criteriosa e depende de uma variedade de fatores, como a gravidade, sintomas, expectativa de vida, riscos de disfunções e infecções associadas, bem como a coexistência de outras doenças.

Uso em todas as idades

E você se engana ao pensar que o uso destes equipamentos é feito apenas em adultos ou pessoas já com mais idade. Crianças e jovens também podem necessitar do aparelho. Recentemente, inclusive, pesquisadores do Hospital Infantil do Colorado (EUA) realizaram um procedimento inédito: um bebê, de 36 semanas de gestação, recebeu um marca-passo temporário enquanto ainda estava ligado à mãe pelo cordão umbilical.

O caso, publicado pelo Sciencedaily, é de uma criança que sofria de bloqueio atrioventricular completo e disfunção cardíaca, o que eleva o risco de morte antes mesmo do parto. O marca-passo foi introduzido então para estabilizar a frequência cardíaca, que era baixa e irregular, e assegurar fluxo sanguíneo suficiente do coração para o resto do corpo. A iniciativa ajudou o bebê a se estabilizar até ser possível a colocação de um marca-passo definitivo, após o nascimento.

Com o que preciso me preocupar depois do implante?

Geralmente, a recomendação é, por um mês, não dirigir, evitar esforços físicos (como carregar peso) e não mexer no local onde fica o marca-passo, embaixo da pele. No decorrer das avaliações, o paciente é então orientado a voltar a ter uma vida normal, porém, sob supervisão médica.

Esse acompanhamento é extremamente importante para verificar a possibilidade de rejeição (embora haja poucos registros, pode acontecer), checar alguma necessidade de reprogramação, confirmar níveis de bateria e o funcionamento perfeito do aparelho.

Normalmente, a avaliação acontece entre 30 e 60 dias após a cirurgia do implante. Dependendo do resultado, as consultas seguintes são marcadas num intervalo de aproximadamente quatro ou seis meses.

Bateria e durabilidade

A duração da bateria depende de algumas condições, como o tipo de aparelho, a doença, o quadro clínico e a frequência de estimulação. Assim como outros dispositivos eletrônicos, quanto mais você usa, mais rápido a bateria pode acabar.

No entanto, a bateria de um marca-passo tem duração média de 7 a 12 anos. Durante as avaliações periódicas, o médico checa o dispositivo e avalia o quanto resta de carga, fazendo ajustes se necessário.

Quando é preciso a troca, a cirurgia é simples: um pequeno corte igual ao do implante é feito e os eletrodos são desaparafusados. O gerador inteiro é trocado por um novo. Ah! E não é preciso preocupação, o marca-passo não vai desligar de uma hora para a outra como um celular no meio de uma chamada. Mas para isso é fundamental o acompanhamento médico regular.

Posso praticar esporte? Devo mudar alguma coisa na minha vida sexual?

O marca-passo é feito para aumentar a qualidade de vida e não subtrair. Portanto, quem é portador do dispositivo não tem restrições quanto à atividade sexual.

No caso de exercícios físicos, a avaliação deve ser individual e depende da indicação do marca-passo e do problema. No geral, os pacientes podem voltar a prática de esportes normalmente —até porque sabemos que atividades físicas têm papel fundamental na promoção de saúde e prevenção de doenças cardiovasculares.

Em alguns casos, é possível refinar a programação com teste ergométrico ou cardiopulmonar. O importante é ter em mente que se trata de um aparelho, portanto, é recomendável evitar atividades que coloquem o marca-passo e os fios em risco de impacto direto (a chance de danificar um eletrodo é de cerca de 10% em 10 anos).

Quem tem marca-passo pode viajar?

Grande parte das pessoas pode viajar, a não ser que haja alguma restrição por problemas de saúde subjacentes. É importante levar a carteirinha do marca-passo ou CDI e se informar sobre o sistema de atendimento de emergência do local de destino.

No caso de viagens longas, a indicação de um especialista na região é prudente. O ideal é planejar a viagem com antecedência e conversar com o seu médico sobre isso.

Eletrodomésticos, porta de bancos e detectores de metal podem interferir no funcionamento? E no caso de exames, como ressonância magnética?

Alguns exames como raio-X, tomografia ou ultrassom podem ser feitos sem restrições. No entanto, nem todos os tipos de marca-passo permitem a realização de ressonância magnética (principalmente dispositivos mais antigos).

Na dúvida, consulte seu médico. Alguns modelos precisam ser programados para isso, antes e depois do exame.

Portas de banco têm um pequeno campo magnético, que muito raramente poderia interferir no marca-passo. Na dúvida, porém, é melhor usar a porta ao lado. Já a geladeira e o micro-ondas não alteram em nada a funcionalidade do dispositivo.

No caso de equipamentos mais potentes, como geradores de alta tensão, eles só interferem se o indivíduo ficar exatamente embaixo da torre. Para aparelhos com movimentos repetitivos, como britadeiras ou serras elétricas, os movimentos podem ser sentidos pelo marca-passo e acelerar ou desacelerar temporariamente o ritmo do coração.

Acesso ao dispositivo: qualquer um consegue realizar o implante?

O uso do aparelho é tão importante que foi criada até uma data comemorativa para chamar a atenção para o assunto: dia 23 de setembro comemora-se o Dia do Portador do Marca-Passo.

A proposta é conscientizar a população acerca dos dispositivos cardíacos, incentivar que mais médicos se especializem neste tipo de procedimento (esta é uma área carente de profissionais), além de alertar a opinião pública sobre a necessidade de melhorar o acesso a pacientes que precisam dos aparelhos, principalmente no SUS, uma vez que atualmente muitas pessoas morrem na fila de espera por um implante —hoje não há uma política pública específica para o atendimento de pacientes que precisam do marca-passo.

Por fim, para aqueles que já vivem com o dispositivo, fica a ressalva: é imprescindível realizar periodicamente a avaliação do marca-passo, revisá-lo para checar se está tudo funcionando bem. O exame é simples, rápido e necessário.

A frequência vai variar de acordo com o caso de cada paciente e tipo de aparelho. É recomendável ainda manter todos os exames do coração em dia, além de uma rotina saudável, com exercícios regulares, alimentação equilibrada e controle de fatores de risco para doenças cardiovasculares.