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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Vacinados continuam transmitindo o Sars-CoV-2, só que por um período menor

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

07/12/2021 04h00

Dois dias a menos transmitindo o vírus. Sim, dois dias a menos. Sob o ponto de vista de pegar o coronavírus e passá-lo ao primeiro infeliz que cruzar o seu caminho, essa seria a grande diferença entre vacinados e não vacinados, de acordo com um estudo que acaba de sair, realizado por pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Segundo os cientistas, ainda que sem adoecer, quem está com o esquema vacinal completo é capaz de ficar, em média, cinco dias e meio transmitindo o vírus da covid-19 aos outros. Esse é o tempo que o Sars-CoV 2 permaneceria confortavelmente instalado nas vias aéreas superiores — leia, no nariz e na garganta — até ser eliminado pelos anticorpos induzidos graças à vacinação.

Já em quem não tomou a vacina esse mesmo período inicial de infecção, quando ela se torna extremamente contagiosa, costuma durar sete dias e meio. É o que lhe disse: dois dias de diferença.

Após esse intervalo, no caso de quem não foi imunizado, o perigo é o vírus pegar a rota dos pulmões e do restante do corpo, ampliando o seu território e provocando as mais terríveis manifestações da doença. Que, aí, podem ir muito além de um espirro ou de um nariz escorrendo, de uma garganta arranhando ou de uma tosse chata.

Mas o importante é reconhecer que, no começo, somos todos iguais. Sentindo algo ou não, vacinados ou não, passamos a batata-quente adiante.

O trabalho saiu no New England Journal of Medicine um dia antes de a variante ômicron ser anunciada e virar o assunto da vez, praticamente ofuscando todo o resto. Por isso, talvez, não tenha chamado a merecida atenção.

Dois dias cruciais

Não podemos diminuir o valor da vacinação. Ela cumpre lindamente o seu papel de, ao nos conferir anticorpos para deter o avanço do coronavírus no organismo, evitar que ele nos mande para o hospital ou, bem pior, que nos mate. Sempre se soube, porém, que nenhuma vacina é esterilizante, isto é, capaz de impedir a transmissão do Sars-CoV 2.

Aliás, o trabalho americano só confirma o que, cá entre nós, já se especulava — que ao menos, então, as vacinas seriam capazes de diminuir a disseminação da covid-19. Fique bem claro, esses dois dias estão longe de ser mixurucas.

"Eles são uma redução importante. Imagine para quantas outras pessoas o vírus não poderia ser transmitido se tivesse esses dois dias a mais", pondera a infectologista Raquel Stucchi, que é professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Os pesquisadores de Harvard também mostraram que, nos primeiros dias de infecção, não há uma carga viral menor nos vacinados, se a gente os compara com os indivíduos não vacinados. Desmontam, assim, uma aposta feita por trabalhos anteriores — a de que a vacinação ajudaria a conter a transmissão do Sars-CoV 2 por diminuir sua quantidade no organismo que, por azar, se infectasse.

Eles chegaram à conclusão de que isso não aconteceria examinando, entre novembro de 2020 e agosto deste ano, perto de 20 mil amostras de coronavírus de 173 jogadores e colaboradores da NBA, a célebre associação de basquete americana. E olha que, entre elas, encontraram diversas variantes do Sars-CoV 2.

Mas nenhuma cepa, nem mesmo a super transmissível delta — agora aparentemente desbancada por ômicron —, pareceu provocar cargas maiores do que outra. Assim como não houve diferenças consideráveis entre a carga viral de vacinados e a de não vacinados. "Portanto, segundo esse estudo, a vacina ajudaria a conter a transmissão só pelo fato de o vírus ser eliminado mais depressa", resume a professora Raquel.

No entanto, ainda que essa eliminação seja rápida o suficiente para o indivíduo não adoecer, ela não é ligeira a ponto de evitar que os outros, ao seu redor, adoeçam.

Cadê a máscara?!

Quando você faz a pergunta a alguém que sai por aí com o acessório nas mãos em vez de no rosto ou que anda com ele totalmente abaixado como se respirasse pelo queixo, é capaz de ouvir da pessoa que está tudo certo, afinal ela já foi vacinada.

Alguns acham, de tanto eu bater na tecla de sempre, que adoro esse pedaço de tecido. Nada disso. Como muitos, eu o acho chato pra dedéu e, se pudesse, o queimaria com a mesma fúria com que minhas antepassadas lançaram ao fogo os seus sutiãs. Mas não posso fazer isso, nem quero. Já os outros, penso, podem até querer abandonar a máscara, mas será que deveriam?

Ao ar livre, por exemplo, será que agora já dá para a gente se livrar dela? Raquel Stucchi responde: "Acho engraçada toda essa discussão recente porque, em tese, ao ar livre e — atenção! — sem aglomeração, sempre poderia ter sido assim . Sabemos que, nessas condições, o risco é baixo. O problema é a gente perceber o que seria uma aglomeração", diz ela, que logo dá exemplos. "Pessoas no ponto de ônibus ou na porta de um restaurante ou, ainda, em calçadas lotadas nas ruas de comércio."

Como não dá para ficar no veste-e-tira, nem confiar na percepção pessoal de cada um, para a infectologista não é o momento de liberar a máscara em espaços abertos."Ainda mais diante de ômicron e com a certeza, que já tínhamos, de que as pessoas vacinadas também transmitem o vírus", opina.

Aliás, mostrar a carteirinha de vacinação na entrada da balada ou da festa serve como um alívio imediato. Ora, se todo mundo está com o esquema vacinal em dia, provavelmente ninguém ali irá manifestar a doença, certo? Certo. No entanto, se vai levar o vírus para casa ou para a firma, é outra história.

"O perigo é essa pessoa pegar o vírus de alguém que também está vacinado e, depois, cruzar com quem é idoso, imunossuprimido ou com crianças e adolescentes abaixo de 12 anos, que ainda não tomaram a vacina", lembra a professora. Esses podem ficar doentes. Talvez muito doentes.

O "novo" esquema vacinal completo

"Por mais que a gente fique feliz ao ver que 64% da população do país já está vacinada, temos de refletir: isso significa que praticamente quatro em cada dez brasileiros continuam sem proteção", afirma a médica.

Além disso, na opinião da infectologista, o conceito de esquema vacinal completo precisa ser revisto. "Não basta ter recebido a primeira e a segunda dose. Hoje, falar que alguém está com a vacinação em dia é afirmar que essa pessoa tomou a sua última dose há menos de seis ou nove meses. Porque, após um prazo maior do que esse, talvez a imunização de antes já não adiante tanto."

Vacinados que não se cuidam podem se transformar em vetores da covid-19 para toda essa gente também — os que ainda aguardam a injeção e os que, olhando para o calendário, se vêem muitos próximos da necessidade de um reforço. Quem tomou vacina transmite a covid-19 por menos tempo? Fato. Ainda assim, são infinitos cinco dias e meio.