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Blog da Lúcia Helena

Três lições preciosas de quem trabalha em UTI para a gente levar para 2021

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

31/12/2020 04h00


Quem é João? O que é importante para o seu José? Com quem Maria mora? Dona Irene tem alguma crença? Do que Francisco realmente gosta?

Lá no início da pandemia, mal começou a ver a UTI do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, se encher de pacientes intubados, a psicóloga e paliativista Juliana Batista sentiu que era preciso fazer algo a mais. Telefonar para as famílias para dar notícias não bastaria, já pressentia. Isso ela e seus colegas faziam de rotina, procurando oferecer suporte para as más notícias ou renovar as forças de quem dia após dia ouvia que a pessoa querida estava na mesma.

Pois este, aliás, é um sadismo dos quadros severos da covid-19: há um patamar cruel em que o organismo parece não reagir, mesmo quando se tenta de tudo e mais um pouco. Por um longo período, ninguém sabe dizer se aquele indivíduo, sedado e respirando com a ajuda de uma máquina, seguirá para a morte ou seguirá com vida.

O jogo de paciência é dificílimo para quem ama a criatura hospitalizada e não menos difícil para os profissionais de saúde que passam por uma pessoa assim na UTI, daí dão alguns passos e topam com um segundo paciente no mesmo estado — no final, dezenas, um atrás de outro.

Naquele mês de abril, quando eu conheci a psicóloga em uma entrevista, ela estava animada com um projeto. Tinha começado a ligar para os parentes dos internados graves — "justamente daqueles que não podiam falar". Fazia todas essas perguntas e tantas quantas viessem à cabeça. Na sequência, escrevia a biografia de cada um dos intubados para pendurá-la na parede do box onde ficava o seu leito, muitas vezes ao lado de fotografias coladas de filhos, netos, momentos importantes, amigos, time do coração ...

As imagens serviriam para apaziguar quando o indivíduo voltasse da sedação. "Todos costumam ficar desorientados e inquietos, sem entender o que está acontecendo", observa a paliativista que, nessas horas, se duvidar até deixa a música favorita do paciente tocando baixinho.

E qual o sentido da biografia então? Ela explicou que esse texto era para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, os próprios psicólogos. Que passando de leito em leito então poderiam descobrir que ...

João esperava ansioso o primeiro neto. Seu José? Ninguém o chamava assim. Para todos, era seu Zezinho. Dona Maria vivia com o marido e seus cachorros. Irene gostava de ir à missa. E Francisco adorava tomar Coca-Cola.

"Ao passar as informações e as fotos, a família se sente participando e não só ouvindo boletins passivamente", avalia Juliana, depois de todos esses meses. "E, no caso da equipe da UTI, além de não faltar assunto quando o paciente é extubado, é criado um vínculo fundamental para o seu próprio bem-estar. Porque essa pandemia também bate na nossa porta, a dos profissionais de saúde. Muitos de nós perdemos colegas, internamos familiares ou tememos que tudo isso aconteça. Portanto, nos identificamos com quem está ali, em tratamento."

Um outro projeto da equipe de psicólogos do Sírio Libanês, segundo Juliana, é o das visitas virtuais que, diga-se, se tornaram rotina na maioria dos hospitais. O cuidado foi tentar encaixar visitas extras, além daquelas com horários agendados, para que os familiares pudessem dar uma força em momentos delicados, como a primeira vez em que a pessoa se sentou em uma cadeira depois de semanas na cama sedada.

"Em situações assim, os pacientes precisariam estar juntinhos dos seus e, no entanto, eles estão completamente afastados de todas as pessoas de sua intimidade", nota Juliana. E quais reflexões extraídas dessas histórias poderiam ajudar quem, por sorte, não está vivendo essa situação? O que as UTIs lotadas de covid-19 podem ensinar ao mundo fora delas? Aqui vão três lições.

Lição número 1: pequenos gestos de cuidado já fazem enorme diferença

"Andamos com medo", diz Juliana. "Não apenas o medo de adoecer, morrer ou passar a doença e perder pessoas próximas. Pode ser um temor pelo emprego ou de não arrumar outro, no caso de quem ficou desempregado", exemplifica. "E o ser humano tende a não querer ficar sozinho quando experimenta esse sentimento. Ele sempre busca alguém que possa ajudá-lo a dar conta." Busca, mas nem sempre encontra. Ainda mais em tempos de isolamento.

O ponto de partida, de acordo com a psicóloga, é se ouvir — pensar sobre os próprios medos primeiro para poder também compartilhá-los, quem sabe. E então, como um segundo passo, ouvir o outro, que pode ser até mesmo aquele que mora sob o mesmo teto, mas com quem você não converse tanto sobre o assunto pandemia.

Fica a dica: não pergunte o que ele está achando desse mundo infectado pelo novo coronavírus, política, se teremos ou não vacina, o que lê nos jornais e coisa e tal, mas o que está sentindo calado, lá no fundo, após tantos meses. É de emoção que se trata. Ela, a emoção, é que precisa dos nossos ouvidos.

No caso de quem não vive com você, algumas atitudes caem muito bem. "Pode ser uma ligação rápida ou até perguntar se essa pessoa tem comida em casa, se estiver sozinha", sugere Juliana. "Não é só quem está no hospital ou com parente hospitalizado que precisa ser cuidado em uma situação como a que enfrentamos", lembra.

Muita gente imagina ser algo extremamente complicado oferecer esse tipo de atenção. "Nada disso, pequenas atitudes já têm uma potência enorme para o outro se sentir melhor", garante a psicóloga. Sim, como a foto ao lado do leito ou a enfermeira que se aproxima chamando o paciente pelo seu apelido. "O cuidado de uns com os outros é o único caminho possível para não sairmos estraçalhados de vez dessa experiência", assegura Juliana.

Lição número 2: pense sobre como você preenche o seu tempo

Se há uma lição óbvia é esta: a da vulnerabilidade da vida. "De tanto ver notícias sobre a covid, só de pensar na possibilidade de pegá-la e morrer dá um frio na espinha de qualquer um", diz Juliana. "Que isso sirva de lembrete para uma boa reflexão para o ano novo: como preencho a minha vida? Que relações realmente me importam? De quem ou do que eu sinto falta?" Temos a oportunidade de dar uma virada não só de ano — mas uma virada na vida.

Lição número 3: a urgência da empatia.

Dizem por aí que empatia é se colocar no lugar do outro. Juliana discorda um pouco: "Cá entre nós, nem sempre a gente consegue", assume. Mas então o que seria? "É reconhecer que o outro tem um lugar diferente do meu e respeitar mesmo assim que ele está sofrendo", define.

Vamos trazer esse conceito para o dia a dia: já deve ter acontecido de você falar com alguém que está com pânico de ser infectado. E você, que não está com um medo tão descontrolado, diz que não há razão para ficar assim, que a vacina vem aí ou algo do gênero na melhor das intenções. Para Juliana, a verdadeira empatia seria validar o que o outro sente. A vacina virá e você não está em pânico — mas o outro está. Acolha.

Lembre-se também que existem outros lutos, por diferentes perdas, sejam simbólicas ou concretas — as perdas financeiras, de saúde, de papéis, entre outras. "Não minimize isso só porque essa pessoa não perdeu alguém de fato para morte ou porque os seus valores são outros. Para ela, é uma dor sofrida. Portanto, o seu lugar é diferente. Para você, talvez, imaginar isso não parece ser algo tão doloroso quanto ver um alguém partir. Mas respeite o que o outro está sentindo", diz Juliana, em nova demonstração de legítima empatia.

E aqui vai um exemplo meu, por minha conta e risco: é sobre quem sai sem máscara. Não vou entrar no mérito de que isso é arriscar a vida de todos ao redor. Se a questão da transmissão do vírus não entra na cabeça e se a pessoa diz não ter medo da covid, que pelo menos ela respeite o medo alheio e use o bendito pedaço de pano no rosto nem que seja só para evitar mais desconforto ao seu próximo.

Para 2021

Preciso dizer que os nomes dos pacientes no início deste texto saíram da imaginação porque a minha entrevistada preservou a identidade de todos. Mas as histórias são reais. Inclusive a do netinho do seu "João", que nasceu bem no dia em que ele foi extubado. Desses mistérios da vida. Na primeira oportunidade, o vovô assistiu em seu leito da UTI o filme do parto.

Talvez seja esquisito terminar um texto assim, mas a vida real é feita de lugares-comuns. Assim, se você me permite, desejo que em 2021 a gente se lembre que cada um dos 193.940 brasileiros que perdemos (somente até ontem, dia 30) tinha um nome, um apelido, um time, um santo de devoção, um sonho, uma música preferida. Nunca foi um número. Números não têm nada disso.

Que venha 2021. Espero que estejamos mais sábios. Quem sabe, como diz Juliana Batista citando o filósofo alemão Martin Heidegger, "habitando poeticamente o mundo". Tomara.