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Blog da Lúcia Helena

Festas, almoços de família e até o Natal da pandemia: o que dá para fazer?

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

20/10/2020 04h00

Nos supermercados, os panetones já chegaram. Não duvido, não vai demorar e veremos as luzinhas. Então, mal elas comecem a piscar, iniciará o debate sobre a onipresença da uva passa. E se essa antecedência toda, em anos anteriores, parecia roubar um pouco do sabor das festas, agora ela pode ser recebida com certo gosto de alívio, porque todos querem virar a folhinha de 2020 —que ano!

Mas logo bate a angústia, que faz a gente desejar que a Terra, ao contrário, rode em marcha lenta. Pois, quem sabe, dará tempo de resolver a situação armada pelo novo coronavírus antes de o peru entrar no forno. Afinal, como vai ser o Natal da pandemia? E, antes mesmo de pensar nas festas de fim de ano, como ficam outras comemorações, aniversários, reuniões de família, agora que tudo parece estar se flexibilizando? É o que muita gente se pergunta.

"Ou, ao menos, é a pergunta de uns 70%, 80% das pessoas, a parcela que, calculamos, sempre procurou orientação, aceitou os fatos apresentados pela ciência e comprou a ideia de que teríamos de encontrar novas maneiras de convivência por um bom tempo", observa Estêvão Urbano, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia. "Sobre o Natal, precisamos entender que 2020 é um ano atípico", sentencia ele, que também coordena a infectologia do Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte.

Mas está difícil. Até mesmo essas pessoas que sempre agiram de maneira mais consciente já se sentem desgastadas. Compreensível. Existe o mundo ideal, só que, nessa altura do campeonato, poucos indivíduos estão em condições de habitá-lo —sem transitar ou quase sem transitar pelos lugares enquanto aguardam a vacina em segurança.

Sim, isso seria o correto, pensando exclusivamente no aspecto técnico de como diminuir o risco de contrair e, pior, transmitir o novo coronavírus. A hashtag pedindo para todo mundo ficar em casa a rigor não deveria ter sido apagada dos posts.

"Mas o mundo real é diferente, ele tem suas fragilidades. Nele, as pessoas sentem falta de gente, de meios para ganhar o seu dinheiro, de uma porção de coisas. Esgotadas, não suportam mais algumas atitudes que tomavam sem titubear alguns meses atrás", observa Estêvão Urbano.

Segundo ele, nesse contexto, por mais contraditório que pareça, pequenos encontros familiares e alguma dose de celebração podem ser importantes para que esses indivíduos recuperem as forças. Até mesmo para, em alguns casos, se o bom senso apontar nessa direção, abrir mão de festividades maiores, como as natalinas.

"É muito razoável a gente pensar que vai ter uma vacina no primeiro semestre do ano que vem", acredita o médico. "Por isso, para alguns vale a pena puxar lá do fundo uma última dose energia para insistir um pouco mais no distanciamento social e não desperdiçar todo o esforço que foi feito até agora nos 45 minutos do segundo tempo", opina. "Se der para agir assim, será ótimo."

A duração das reuniões familiares conta

Depois de tantos meses entre nós, o modo de transmissão do Sars-CoV-2 já é bem conhecido. Ele gosta de contato próximo e prolongado. Por proximidade, você já sabe: significa ficar a menos de 1,5 metro, 2 metros de outras pessoas. "Mas, hoje sabemos, o período em que estão elas juntas também conta bastante", diz o professor Urbano.

Estudos apontam que, em um contrato próximo — isto é, permanecendo a menos do que aquele 1,5 metro de distância—, um período de 15 a 30 minutos é o suficiente para, se um estiver contaminado, infectar o outro.

"Lógico que, a partir dessa meia hora, o risco de transmissão aumenta a cada minuto e que a probabilidade parece ser ainda maior se alguém apresentar sintomas", diz o médico.

É que, até que a ciência prove o contrário, já que as evidências nesse sentido ainda são fracas, tudo indica que o assintomático precise de um pouco mais de tempo ficando perto de outras pessoas para passar o vírus adiante. Quer dizer, em tese. Na prática, pode dar na mesma.

O perigo também é maior — e disso não há um pingo de dúvida — em ambientes fechados, porque eles acabam concentrando mais partículas virais no ar. E aqui podemos imaginar aquela aconchegante sala de jantar com a mesa posta ou o lugar onde fica a poltrona predileta do vovô. Sem contar que a falta de ventilação favorece que as partículas de aerossóis repletas de vírus pairem pelo ar até pousarem na superfície de móveis.

"Justamente por causa de todos esses fatores, existem diversos relatos médicos de reuniões familiares que acabaram provocando vários casos de covid-19 entre os presentes", afirma o professor. Ele mesmo se recorda de um episódio que acompanhou mais de perto: o de uma família da capital mineira que tinha a tradição de, todo ano, fazer um encontro para uma oração seguido de almoço.

"Foi logo no início da pandemia no Brasil e o número de casos em Belo Horizonte ainda estava baixo", relembra o infectologista. No entanto, neste 2020 duas pessoas vindas de São Paulo participaram. Elas, descobriu-se depois, tinham o vírus, embora não manifestassem sintomas. Resultado: dos 15 familiares no almoço, 14 pegaram a covid-19. E a matriarca, que idealizou o encontro, foi parar na UTI.

"Reuniões assim têm todos os fatores de que o vírus precisa para se disseminar e eles agem em sinergia", resume o professor Estêvão Urbano. No entanto, o médico reconhece que nem todos vão aguentar seguir tão isolados. "E ninguém é pior do que ninguém por ser menos resiliente. Desde que tome cuidado para não arriscar a vida alheia", pensa. Então, melhor saber como fazer para celebrar seja lá o que for com a família.

Alternativas para diminuir o risco

O primeiro conselho é reduzir a lista de convidados. Se a família é muito numerosa, vale dividi-la em turmas —e festas— diferentes, por exemplo. "Não há um número limite", avisa o professor. Ou seja, a matemática é a do bom senso.

"Acho que não custa reforçar: quem apresenta qualquer sintoma suspeito de covid-19 não deve comparecer ao encontro, nem qualquer um que tenha convivido com essa pessoa, talvez morando na mesma casa,", diz o infectologista.

Fazer exame em todo mundo não é exatamente uma medida viável para liberar o almoço ou o jantar em família — afinal, teria de ser o RT-PCR para flagrar o vírus e não qualquer teste rápido ou sorológico, que é feito para checar a presença de anticorpos. Só que, além de mais caro, o RT-PCR não sai na hora.

Diante disso, uma sugestão de Estêvão Urbano seria preservar as pessoas idosas e os parentes de outros grupos de risco, sem chamá-los para festividades maiores — leia, maiores tanto em número de convidados presentes quanto em duração. "O complicado é que geralmente são justamente os idosos que ficaram mais isolados durante todo esse tempo que estão emocionalmente mais necessitados de encontros familiares." Verdade.

Daí que vale combinar ponderação e criatividade. Quer ver? Talvez não seja o caso de juntar de uma só vez meia dúzia de adultos e outra meia dúzia de netos ao redor dos avós — para agravar, com horas e mais horas para colocar a conversa em dia pessoalmente. Em vez disso, pode ser mais interessante que metade da família se reúna para um lanche com os mais velhos e a outra metade faça a visita no dia seguinte.

Enfim, substituir a ceia sem horário para terminar por vários encontros mais breves ao longo da semana do Natal pode ser uma boa. Ninguém tem uma receita certa. "Sempre vai existir algum risco e tentar errar menos, consciente da sua escolha, já é grande coisa", afirma o infectologista. Ele lembra que trocar a sala por um local aberto, que será naturalmente bem mais ventilado, também ajuda.

Siga a nova etiqueta nos encontros da família

A norma de evitar a proximidade física é inegociável, garante Estêvão Urbano. "Portanto, precisamos criar jeitos diferentes de saudação, talvez inclinando o corpo como os orientais", imagina.

Também não dá para abrir mão da máscara —"só realmente na hora de comer e beber", ensina o médico. "A tendência equivocada é a pessoa tirá-la quando mal entrou na casa de alguém. Errado: é para permanecer de máscara e bater papo com ela, lembrando de levar consigo mais de uma, conforme o tempo que pretende ficar no lugar."

Até porque — vale refrescar a memória —, máscaras ficam úmidas enquanto a gente conversa. E, daí, já não servem para nos proteger. Limpas e secas, porém, podem filtrar boa parte dos vírus. "E o pouco que acabamos aspirando, se houver alguém infectado, provavelmente não será em quantidade o bastante para causar a doença", explica o professor Urbano.

Outra medida importante: abaixe o som

Falar alto faz com que a máscara fique úmida mais depressa. "As conversas, agora, devem acontecer em um tom mais ameno", orienta o médico. O pedido para diminuir o volume também vale para a música. Fácil entender: "Os estudiosos observam que, em festas com música ao vivo por exemplo, as pessoas costumam gritar para serem ouvidas. Sem contar que, entusiasmadas, começam a cantar junto", diz ele. A cantoria pode fazer uma pessoa infectada liberar mais aerossóis carregados do novo coronavírus por causa da emissão mais potente do que o habitual da voz.

"Os movimentos de dança também comprometem aquela segurança que seria proporcionada pelo distanciamento de mais de 1,5 metro entre um indivíduo e outro", observa o infectologista. Portanto, não caia na pista.

Problema: depois de um tempo, ninguém mais presta atenção

Segundo o infectologista, os mesmos princípios valeriam para outras situações, como rever os amigos em bares, marcar jantares em restaurantes... "Nessas oportunidades de reencontro, as pessoas também deveriam permanecer de máscara, mais distantes, sem abraços e falando baixo", justifica o professor.

No entanto, trabalhando em comitês para o enfrentamento dessa crise, ele sabe bem que, depois de uns 40 minutos, todos infelizmente parecem se esquecer das normas. "Brinco que ignoram as regras depois primeira taça de bebida", diz ele. Não dá para perder o foco na segurança. E, aproveitando, é bom mesmo maneirar no álcool até para não sair abraçando todo mundo. Em plena pandemia, isso seria um péssimo clima de fim de festa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL