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Blog da Lúcia Helena

Viajar em tempos de covid-19: como dar uma escapada com mais segurança

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

15/10/2020 04h00

Cá entre nós, uma pandemia decididamente não é o melhor período para aquela viagem dos sonhos. E, mesmo que a sua ideia de fazer as malas não chegue a tanto, que você queira apenas dar uma inocente escapadinha da realidade, considere aderir a boas práticas para não desembarcar contaminado no passeio, nem trazer o Sars-CoV-2 de souvenir na volta.

"Não quero ser a médica chata, aquela que chega para acabar com os planos para o final de ano", me diz a infectologista Tania Chaves, mas sem conseguir esconder o desconforto por estar prestes a trazer algumas verdades àqueles que desejam retomar a boa vida de turista. "E eu entendo perfeitamente a vontade das pessoas de uma espairecida", diz ela. "Mas o fato é que todos, especialmente os do grupo de risco, precisam questionar se esse programa, neste momento, é mesmo essencial."

Professora da Universidade Federal do Pará e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, ela entende do assunto como poucos entre nós: é uma das raras especialistas brasileiras em medicina de viagem, área que até mesmo seus colegas de profissão muitas vezes desconhecem. E tem plena noção de que existem pessoas que realmente precisam voar ou pegar a estrada por motivo de trabalho ou por razões familiares.

Claro, também tem gente querendo mudar de paisagem para não enlouquecer ou que sente a necessidade de tirar a criançada do confinamento. Só que infelizmente ainda há risco. Portanto, se é para embarcar nessa, que ao menos tome atitudes corretas para diminuir —ninguém fala em eliminar— a ameaça da covid-19.

E o coronavírus deu a volta ao mundo

Vírus e outros agentes causadores de doenças não são aves migratórias. O Sars-CoV-2 não aterrissou em tudo o quanto é canto do planeta voando por conta própria. Entrou em aviões feito clandestino, pegou carona em carros, navegou por mares e não perdeu o trem —sempre carregado por viajantes.

A especialidade de Tania Chaves —que, por sinal, é a atual vice-presidente da Sociedad Latinoamericana de Medicina del Viajero— se ocupa de tentar prevenir ou ao menos tratar precocemente aqueles problemas de saúde que acontecem quando as pessoas se deslocam de uma cidade para outra, de um país para outro. Surgiu ainda nos anos 1960 nos Estados Unidos e na Europa, justamente quando o acesso aos meios de transporte foi facilitado e as pessoas começaram a transitar mais pelo mundo.

"As viagens têm um elo estreito com o surgimento de novas doenças em determinadas regiões e com a re-emergência de outras tantas moléstias que pareciam desaparecidas ou controladas", diz a infectologista. Não à toa, desde 1991 a Sociedade Internacional de Medicina de Viagem tem um banco alimentado com dados do que acontece com viajantes pelos sete continentes, fazendo uma vigilância constante.

Afinal, todo turista se encaixa no conceito de sentinela, isto é, tende a contrair na frente dos outros, que ficaram em seu canto, essas doenças que ou são novas ou ameaçam a voltar. "Quando um viajante adoece assim, ficamos espertos", diz Tania, lembrando como exemplo que, em 2011, ela própria diagnosticou um caso de chikungunya em um turista. Avisou seus pares do perigo iminente. E, de fato, os surtos da doença aconteceram —só que entre 2013 e 2014.

No caso do novo coronavírus, porém, não demorou esse tempo todo. A médica garante que, apesar de o primeiro caso oficial ser registrado em Wuhan só em dezembro de 2019, seus colegas já observavam algo estranho acontecendo com quem tinha visitado essa região em outubro, dois meses antes. Mas, desta vez, não deu tempo para entenderem o que estava se passando. O causador da covid-19 partiu para a Europa antes. E foi apenas a sua primeira escala antes dar a volta ao mundo.

Vá no contrafluxo

Para Tania Chaves, quem pretende viajar com maior segurança deve seguir o seguinte conselho: ir no sentido oposto ao da maioria das pessoas. "Escolha um lugar para onde quase ninguém esteja pensando em ir, planeje ficar em um período em que menos gente ainda irá estar por lá e, chegando nesse destino, faça programas em horários diferentes de boa parte dos turistas ", orienta.

Na prática, isso significa, por exemplo, evitar os finais de semana, quando muitos brasileiros estão escapando de suas cidades. "Viajar em feriado? Nem pensar!", diz, com firmeza . E, se for a uma praia, mesmo que ela seja relativamente vazia, observe quando costuma ter mais banhistas e tente curtir o mar em horários alternativos.

Perto é sempre melhor

A médica explica que o risco nos deslocamentos é sempre escalonado —ou seja, pode ser maior quanto mais gente você cruzar pelo caminho. Assim sendo, viagens longas são mais arriscadas na medida em que podem exigir mais paradas pela estrada ou uma longa permanência em aviões, aumentando a probabilidade de você encontrar pela frente outro viajante que carregue o maldito Sars-CoV-2.

Nesse raciocínio, por mais cuidado que um hotel tome com os protocolos de segurança, hospedar-se em um resort amplia a chance de topar com um número maior de pessoas em áreas comuns, em comparação com pousadas ou hotéis de charme que, em tese, podem ser mais seguros —desde que esses estabelecimentos menores também zelem pelos tais protocolos.

O seu destino ideal

Se o seu conceito de férias perfeitas seria encontrar um paraíso perdido no meio da natureza, o verão 2021 está para você. "Mas eu insisto que esse lugar deve ser perto de onde você mora. Pensando em saúde, não é hora para grandes viagens", reforça a infectologista. "E, claro, procure escolher um local onde os passeios sejam ao ar livre."

Onde ficar

No caso de hotéis, o pacote básico para receber um turista com segurança é exigir que os hóspedes usem máscaras o tempo inteiro dentro de suas instalações, tirando-as apenas quando estiverem sentados à mesa para comer. E dar todas as condições para que os visitantes mantenham a distância (mais) segura de 1 a 2 metros entre si, com acesso fácil ao álcool gel em todas as áreas. E isso sem contar treinamento para os funcionários e esquema severo de higienização dos ambientes

Sem assegurar isso, um estabelecimento não mereceria nem sequer uma estrelinha cadente nestes novos tempos. "Existem, sim, hotéis que estão fazendo um controle bastante rigoroso", reconhece Tania Chaves. "Mas o ruim será descobrir que não é o caso justo daquele em que você fez reserva apenas ao chegar lá. Por isso, a minha recomendação é que investigue antes. Pesquise no site o que está sendo feito para prevenir a covid-19. E, se sobrar dúvidas, ligue sem medo de fazer muitas perguntas."

O horário do check-in e do check-out

Não custa relembrar a regra de ouro de evitar contato com pessoas. Se, ao fazer a reserva, você descobriu que o quarto só fica disponível a partir das 15h, então que tal chegar um pouco mais tarde, procurando fugir da fila no balcão da recepção? O mesmo vale para a hora da saída: deixe o seu quarto antes do limite previsto, lembrando que a maioria dos hóspedes costuma ir embora na última hora.

De carro, ônibus ou avião?

O meio de transporte ideal seria o seu carro, de preferência dirigindo diretamente ao seu destino, evitando paradas. "Mas, se for necessário parar, então desça do veículo com máscara e use o álcool em gel ao voltar." As entidades internacionais recomendam ainda que você mantenha lenços no porta-luvas para higienizar as maçanetas, o painel e o volante.

O ônibus é a pior escolha, mesmo mantendo a distância entre os passageiros e se eles usarem máscara. De novo, porque você ficará por algum tempo em um ambiente fechado com outras pessoas.

Talvez, então, se pergunte se essa não seria a situação nos aviões. Não, não é. Os potentes filtros das aeronaves captam até 99% de micro-organismos no ar. E, hoje em dia, muitas companhias já estão adotando medidas extraordinárias. A cada 3 minutos, dizem, o ar a bordo está novinho em folha.

Mas, claro, uma pandemia não é exatamente um céu de brigadeiro. Muita coisa pode acontecer nesses três minutos se alguém contaminado passar bem ao seu lado...

Durante o voo

"Sempre há o risco de transmissão de vírus, por mais que as companhias sigam os protocolos", avisa Tania Chaves. "E o maior problema está antes de embarcar, nos aeroportos, com muitas pessoas de lugares diferentes circulando e algumas filas de espera" Sob esse ponto de vista, um aeroporto pode ser a pior escala da sua viagem.

Dentro do avião, imaginando o pesadelo de estar no mesmo voo de alguém infectado, a Organização Mundial de Saúde considera o seguinte, baseando-se na experiência com a gripe e epidemias anteriores: você tem risco de ser contaminado se tiver contato direto, isto é, caso se sente até duas fileiras à frente ou atrás daquela onde está a pessoa com o vírus.

Só que vamos ser sinceros: ninguém fica sentadinho de boa durante o voo, especialmente se ele é mais longo do que uma ponte-aérea ou, pior, se vai de um continente a outro. Aí é um tal de ir ao banheiro, esticar as pernas, se levantar para pegar ou guardar coisas no bagageiro. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, analisando transmissões de Sars em um voo de Hong Kong para Pequim durante a epidemia de 2002 na China, mostrou que o critério da OMS pode ser furado justamente por causa desse vai-e-vem.

Mas fica a dica: segundo cientistas da Emory University, passageiros na janelinha têm menor probabilidade de entrar em contato com alguém que, por azar, esteja transmitindo uma doença respiratória. Para chegar a essa conclusão, eles analisaram a movimentação dos passageiros em dez voos transcontinentais. Quem senta perto da janela, para começo de conversa, está obviamente mais distante dos corredores por onde todos passam. E também tende a não se levantar tanto.

Recomenda-se ainda que a gente procure reservar lugares mais distantes dos banheiros, onde sempre pode ficar alguém parado esperando a sua vez. E, finalmente, nas diretrizes do CDC americano para viajantes, existe a orientação para usar lenços desinfetantes durante todo o voo —tanto para limpar superfícies quanto as mãos, evitando ter de se deslocar até uma pia. Lembre-se de esfregá-lo na fivela do cinto de segurança. E, depois de apertá-lo, outro lenço deve ser passado com capricho em suas mãos.

O que levar na mala

Se antes você tinha medo de esquecer os seus óculos de sol, modelitos de praia e sapatos confortáveis, o enxoval de férias na temporada do novo coronavírus é outro.

Calcule, conforme a duração de sua estadia fora, a quantidade de lenços de higiene ou frascos de álcool em gel que precisará levar na bagagem. Os tais lencinhos não dão cabo do novo coronavírus, mas são úteis para você espalhar o álcool em gel em superfícies. "Embora tenham encontrado o material genético do vírus por dias em superfícies, parece que essas partículas não são viáveis para transmitirem a doença. Entretanto, o excesso de cuidado nesse momento é fundamental, especialmente porque ainda não temos a vacina", diz Tania Chaves.

06.04.2020 - Produtos para proteção contra o coronavírus, como máscaras e álcool gel e spray - André Rodrigues/Framephoto/Estadão Conteúdo - André Rodrigues/Framephoto/Estadão Conteúdo
Imagem: André Rodrigues/Framephoto/Estadão Conteúdo

Seria bom também levar um termômetro. Finalmente, a peça que não pode faltar em seu look de turista: a máscara. "E aviso: ainda usaremos máscaras por muito tempo", prevê a médica.

Para uma viagem, não adianta colocar duas ou três delas na mala. Você precisa calcular uma boa quantidade, pensando que deverá trocá-las a cada duas ou três horas na melhor das hipóteses. E que, mesmo que consiga lavá-las no quarto onde se hospeda, elas precisão estar bem secas para serem usadas de novo. Máscaras úmidas são ineficientes.

O teste para entrar

Mais e mais destinos estão exigindo o teste do RT-PCR para aceitar a entrada de turistas, que deve ser feito 72 horas antes de você embarcar. "Ainda assim, sabemos que o indivíduo assintomático pode ser positivo com um resultado do teste de RT-PCR negativo" ensina Tania. Por essas e por outras, durante o período fora, caso sinta um mal-estar, não apele para um teste rápido, nem se fie na ausência de febre, afastando precipitadamente a hipótese de ser covid-19. Procure um médico.

Aliás, apesar de ser desagradável, no planejamento de uma viagem você deve esquematizar o que fazer caso tenha a covid-19 no meio do programa —estará acompanhado de alguém capaz de dirigir ou será que o seu plano de saúde oferece resgate? Tudo precisa ser pensado. "Eu sempre repito que a pior coisa é adoecer longe de casa", diz Tania Chaves. Ela aponta para o aumento no pico de números de casos em países europeus, por exemplo. "Por isso, insisto que é melhor adiar as viagens a longa distância para redescobrir os arredores de onde você vive", opina.

E, com tantas recomendações, antes de mais nada pondere sobre como você se sente. Afinal, tem quem encare esses cuidados sem ficar tenso e, daí, tudo bem. No entanto, se notar que o estresse será maior do que diversão, talvez seja melhor cancelar essa escapada e, por enquanto, continuar apenas sonhando com uma viagem que, respire, um dia acontecerá. Afinal, a nossa mente sempre pode embarcar antes do que o corpo.