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Covid-19: o teste rápido de antígeno deve deixar os de anticorpos para trás

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

01/10/2020 04h00

Que o RT-PCR, ao rastrear partículas do material genético do novo coronavírus, é o exame padrão-ouro para revelar quem está e quem não está com a covid-19, isso nem sequer entra em discussão. O problema é que, até há pouco tempo, para investigar os casos da doença, a alternativa a esse teste — relativamente caro, inacessível em muitas regiões do país e demorado — era apelar para uma caçada a anticorpos que surgiriam no organismo em resposta ao Sars-CoV 2. E essa saída sempre teve tremendas desvantagens.

Portanto, estávamos entre o mundo ideal de sair fazendo o RT-PCR diante de qualquer suspeita da infecção — mundo ideal, mas longe do real — e uma miscelânea de testes de qualidade bem diversa entre eles, alguns ditos rápidos e oferecidos praticamente em qualquer esquina, mas com uma taxa altíssima de falsos-positivos e falsos-negativos. Aviso, nem vou entrar nesse mérito.

Ainda que todo teste sorológico dando positivo, quero dizer, revelando a presença de anticorpos para o novo conoravírus, fosse 100% confiável, haveria um entrave inegável: ora, esse resultado só indicaria que a pessoa teve a covid-19 , no mínimo, duas ou três semanas antes. Afinal, é o prazo para essas moléculas passarem a ser produzidas pelo sistema imunológico em quantidade suficiente para o flagrante.

"E, decorrido todo esse tempo, mesmo que o indivíduo tenha os tais anticorpos, ele nem estaria mais transmitindo a infecção", observa o médico e virologista Amílcar Tanuri. Ou seja, dizer que alguém tem anticorpos é o tipo de informação sem utilidade alguma para prevenir novos casos, isolando quem está com o vírus naquele momento e passando o seu mal adiante.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador associado da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e consultor da Organização Mundial de Saúde, Amílcar Tanuri acaba de tirar de forno um estudo que confirma a eficácia de uma solução para preencher a lacuna abissal entre o exame complicado, mas que dá a resposta certeira, e os exames que, no contexto de frear a pandemia, não ajudam em nada.

Essa solução seria o teste de antígeno. E, em determinadas situações, ele pode ser uma pedida até melhor do que o RT-PCR. Por vários motivos, mas adianto um deles: mostra quem está com a covid-19 em apenas 15 minutos, acertando em mais de 90% das vezes.


Como é o teste rápido de antígeno

Já disponível no Brasil, trazido pela Abbott, o teste não pode ser feito por qualquer um de nós por conta própria e, sim, por profissionais de saúde. Faz sentido. Afinal, o procedimento inicial é igualzinho ao do RT-PCR, ou seja, é preciso enfrentar o momento desagradável em que um tipo de cotonete fino e bem comprido — o famoso swab — é introduzido pelo nariz. E, uma vez lá dentro, ele vai fundo pra valer até alcançar a região chamada de nasofaringe, colhendo amostras de muco e células onde o Sars-CoV 2 pode estar abrigado.

Na sequência, o swab com esse material coletado vai parar em uma espécie de tubo que integra o kit do exame. E é só disso que ele precisa, nada mais. Ou seja, sem a necessidade de equipamentos, pode ser realizado em qualquer local. "Mas não se iluda com essa aparente simplicidade, porque ela é de fachada", diz o professor Tanuri. "Dentro desse tubo, há uma tecnologia sofisticada, que lança mão de anticorpos monoclonais", explica o cientista.

Esses anticorpos, fabricados em laboratório por assim dizer, poderiam ser comparados a mísseis teleguiados, com a missão de achar um alvo específico. Que, no caso, são proteínas do chamado núcleo capsídeo do novo coronavírus, uma película que embrulha o seu material genético.

Quando o anticorpo monoclonal dentro do tubo encontra essas proteínas, a mágica não demora a acontecer. Ou melhor, demora os tais 15 minutos. "O que enxergamos em um visor, feito o dos testes de gravidez, são dois tracinhos. Um deles é o controle, indicando que o teste está sendo realizado com sucesso. O segundo, quando aparece, anuncia que o resultado é positivo.

Uma dúvida que tive é se haveria garantia, ao dar positivo, de que o vírus estaria inteirinho da silva e capaz de de infectar outra pessoa. Explico a razão do questionamento: um dos mistérios do Sars-CoV 2 é que o RT-PCR continua acusando sua presença por vários dias e existe a suspeita de que, mesmo depois de não estar mais lá, restariam pedaços do seu material genético no organismo, que possivelmente não teriam mais a capacidade de fazer mal a ninguém. O professor Tanuri, porém, acha que com o teste de antígeno a situação pode ser outra: "Há fortes indícios de que, quando o resultado desse exame é positivo, temos um vírus montado, isto é, realmente capaz de infectar mais gente", diz ele.

O estudo que atestou a eficácia

O teste foi aplicado em 585 indivíduos que procuraram a UFRJ e os centros municipais de triagem de coronoravírus de Macaé e Maricá, no estado do Rio. A condição para participar da pesquisa era apresentar sintomas suspeitos de covid-19 há no máximo sete dias, nunca mais do que isso, ou ter tido contato com alguém comprovadamente infectado pelo Sars-CoV 2. Todos fizeram também o RT-PCR para que os resultados dos dois testes fossem comparados.

"Assim, descobrimos que o novo exame tem uma sensibilidade de 91,4%, que é bastante elevada", diz o professor. Isso significa que o teste rápido de antígeno acusa cerca de 91 em cada 100 casos de covid-19. "Por causa dessa parcela menor que não é identificada é que dizemos o seguinte: se o resultado dá negativo, mas existem sintomas clínicos, o RT-PCR continuará sendo solicitado, ou seja, ele não poderá ser substituído sempre", explica.

Mas é bom dizer que a recíproca não é verdadeira: a especificidade do teste desenvolvido pela Abbott chega a 99,8%, beirando à perfeição nesse aspecto. Isso quer dizer que ele não dá positivo para outros vírus e que é para botar fé quando os dois tracinhos surgem revelando: "você está com a covid-19".

"Queremos, logo mais, aplicar esse novo teste só em infectados assintomáticos, mas não creio que a sensibilidade será inferior", aposta o professor Tanuri, que está ainda mais interessado em investigar uma hipótese: é que o teste rápido de antígeno parece dar ainda mais positivo, como se o ficasse mais forte, quando a quantidade de vírus no paciente é mais alta. "Caso isso se confirme, poderemos usá-lo para saber quem está transmitindo mais a doença por ter uma carga viral nas alturas, expelindo mais cópias do Sars-CoV 2 ao falar ou ao expirar", exemplifica.

Sim, para estudos capazes de ampliar o nosso conhecimento sobre a pandemia, descobrir quem é quem no jogo da transmissão será bem interessante. No entanto, um teste desses possibilita aplicações mais práticas e urgentes para conter o avanço do novo coronavírus entre nós.

As situações em que o novo teste será muito bem-vindo

Por não exigir equipamento, como já contei, esse tipo de teste rápido será uma mão na roda em áreas do país sem acesso a laboratórios sofisticados de análises clínicas, capazes de realizar o RT-PCR. "Mas ele também será importante naquelas situações ou lugares em que as pessoas precisam ser testadas repetidas vezes", diz o professor, que logo enumera alguns exemplos: "Hospitais, escolas, plataformas de petróleo, frigoríficos. Ou até mesmo para testar times de futebol, já que os jogadores deveriam passar pelo teste a cada três dias para terem segurança ao entrar em campo".

Conectividade para controlar a pandemia

Um detalhe também ajuda a fazer diferença: na solução desenvolvida pelo fabricante, o resultado do Panbio é transmitido para um aplicativo de smartphone, um portal de web e uma ferramenta de relatório de painel que informam em tempo real as autoridades de saúde locais. A rigor, isso facilitará para que enxerguem tendências, notem pontos em que os casos estão aumentando e áreas que precisam de mais atenção ou até mesmo de testes adicionais.

Uma amostra retirada do nariz?

Nas próximas semanas, começará uma nova fase do estudo. A ideia é completar, no mínimo, 1 mil testes. Com uma diferença, que o professor Tanuri me conta: "Queremos comparar os resultados colhendo amostras do nariz em vez de retirá-las da nasofaringe". Isso será bem mais confortável e fará uma diferença danada, especialmente para casos em que, pelo excesso de exposição, o sujeito é obrigado a ser testado com frequência.

"Nos Estados Unidos, esses testes e os de RT-PCR já são feitos com o material colhido do nariz", ele me lembra. Verdade, mas a gente escuta que a quantidade de vírus seria menor dentro das narinas. "A sensibilidade dessa tecnologia é alta", rebate o virologista, animado. Tomara.

Não podemos perder de vista o grande objetivo, que é evitar que indivíduos com a covid-19, capazes de transmitir a doença, entrem em contato com outras pessoas. Por isso a rapidez é crucial. No entanto, rápido por rápido, a premissa de um exame capaz de conter o caos criado pelo Sars-CoV 2 seria enxergar o próprio vírus e não a resposta do corpo a ele. E é por isso que o teste de antígeno, prevê o professor Amílcar Tanuri, deverá deixar o de anticorpos no chinelo. Também acho que não tardará.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL