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Blog da Lúcia Helena

Maioria assintomática? Não! Um balanço do que sabemos sobre o Sars-CoV-2

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Imagem: Getty Images
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00

O diz que me diz dura quase sete meses, se a gente considerar a data em foi decretada a pandemia de covid-19 pela Organização Mundial de Saúde. Ou talvez tenha começado até antes, na virada de 2020, quando essa bomba chamada Sars-CoV-2 caiu no colo da humanidade, bem na cidade chinesa de Wuhan. Em todo esse tempo, não faltaram informações desencontradas aumentando a insegurança geral. De lá para cá, tem sido um tal de pode ser isso, depois pode ser aquilo, ora é assim, ora é assado.

Entre as inúmeras causas desse tipo de confusão, duas se destacam. E sejamos justos: a primeira delas é digna de toda a nossa compreensão. Pare para pensar que esse vírus nas ruas não vem grudado no adjetivo "novo" em vão sempre que alguém resolve citá-lo. Ele é novíssimo mesmo, o raio do novo coronavírus. Portanto, diferente de tudo o que a gente já viu.

Mas, quando surgiu de surpresa, só restou aos cientistas na área da saúde usarem o conhecimento que tinham de outras doenças, viroses respiratórias velhas conhecidas, que aparentemente seriam parecidas. Só que caímos do cavalo enquanto o vírus avançou a galope. Esse raciocínio se mostrou furado em diversas ocasiões, como ficou claro na semana passada, durante a Conferência Anual da Sociedade Europeia de Virologia Clínica, que aconteceria em Manchester, na Inglaterra, se a covid-19 não tivesse destruído também esse plano.

Daí que cientistas do mundo inteiro se reuniram à moda atual — isto é, em um evento digital — para discutir a questão que não quer se calar. Afinal, o que já aprendemos de fato sobre esse coronavírus? Aprendemos um bocado. A primeira grande lição é a humildade diante do que é, de fato, totalmente novo.

Pega ou não pega no ar?

Eu comentei que havia duas grandes causas na raiz das informações desencontradas sobre o causador da covid-19. E para a segunda delas não há muito perdão: é quando organismos internacionais que têm uma tremenda influência sobre a população e sobre os agentes de saúde dos quatro cantos do mundo resolvem se contradizer até por razões políticas, deixando as pessoas enlouquecidas.

Um exemplo fresquinho aconteceu por estes dias: o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), nos Estados Unidos, tinha divulgado na sexta-feira passada, dia 18, uma mudança em suas orientações, assumindo que o novo coronavírus podia ser transmitido pelo ar. Mas sabe-se lá o que aconteceu no final de semana, porque logo na segunda-feira a entidade resolveu simplesmente retirar o que disse.

E em 48 horas tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes: por eles, o novo coronavírus só é transmitido por gotículas de saliva lançadas quando alguém contaminado tosse ou espirra ao seu lado ou se você ficar bem perto da pessoa infectada, o que não condiz com tudo o que a ciência já sabe. "Lamentável", suspira a infectologista Nancy Bellei. E ela lembra: "'É a segunda vez que o CDC altera uma orientação e volta atrás. Fez isso na discussão sobre a testagem da população".

A médica, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e da Opas (Organização Panamericana de Saúde) para covid-19, é considerada uma das maiores especialistas do país no novo coronavírus. Não à toa, foi quem procurei para destacar o que aconteceu de mais importante no recente Congresso Europeu de Virologia e no Congresso Europeu de Microbiologia Clínica, outro evento de porte que está acontecendo nesta semana.

Eu não poderia deixar de puxar essa história. Afinal, passa ou não passa pelo ar? "Passa, o vírus pode ficar pairando em partículas ainda menores do que as gotículas de muco e saliva", diz ela, se referindo aos chamados aerossóis.

Enquanto as gotículas expelidas em um espirro, por exemplo, têm cerca de 1,5 micron de diâmetro — ou milionésimo de metro —, os aerossóis são sempre menores do que 1 micron e podem ficar flutuando no ar, sim, carregados de Sars-CoV-2.

"Mas, aí, precisamos evitar outra confusão", alerta Nancy Bellei. "Os artigos científicos que apontam cada vez mais para essa possibilidade sempre se referem a lugares fechados. É difícil a gente imaginar esse risco em locais a céu aberto, sem aglomerações, bem ventilados e com incidência de raios ultravioleta", diz a médica. "Aliás, é muito menos provável que exista contaminação ao ar livre."

De fato, como debateram os virologistas no congresso da semana passada, algumas cidades europeias —por exemplo, no interior da Alemanha — não andam tão rigorosas com o uso de máscaras em ambientes externos, mas sendo, em compensação, bastante duras na exigência de vesti-las em qualquer lugar fechado. E, desse jeito, parece que estão controlando a situação.

Vale ponderar que não há aglomerações nessas localidades e que algum distanciamento entre as pessoas nas ruas já foi incorporado. Sim, porque ninguém duvida que a proximidade física de uma pessoa com a covid-19 na praia ou na calçada de um bar, sem máscara, favoreça demais a transmissão do novo coronavírus.

O debate em questão é se esse vírus também pode ser contraído só de respirar o ar de uma sala de escritório, de uma loja ou de um mercado — locais fechados, bem entendido — por onde essa pessoa infectada passou, sem necessariamente permanecer tão perto dela. Para ter a certeza absoluta disso, segundo a professora Nancy, precisaríamos esperar por dados de estudos em animais. Mas tudo leva a crer que sim.

E, cá entre nós, já era pressuposto. Tanto que, logo na largada da pandemia, a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomendou as famosas máscaras N95 para os profissionais na linha de frente — e o acessório tem esse nome justamente por barrar algo como 95% dos tais aerossóis. "Mas a mesma OMS foi, no princípio, omissa em relação ao uso de máscaras pela população, temendo que faltasse esse equipamento de proteção nos hospitais", recorda a infectologista.

"Tudo errado", ela opina. "Organismos internacionais precisam se pautar no que seria melhor para saúde de todos, fazendo recomendações baseadas em evidências científicas e mais nada. E, depois, os gestores é que têm de se virar para criar as condições para essas diretrizes serem cumpridas. Caso contrário, seria como dizer que não precisamos de isolamento porque existem hospitais que não conseguem ter alas separadas para a covid-19", compara.

Sim, precisamos de organismos internacionais de saúde com maior transparência, que apontem na mesma direção que a ciência e não conforme a maré da política. No caso da transmissão pelo ar, o CDC alegou na cara de pau que publicou sem querer o rascunho de um documento que ainda estava sob avaliação. "Bem, eles estão pra lá de acostumados com epidemias e pandemias. Não teria razão para escreverem algo e voltarem atrás horas depois. Inexplicável", diz Nancy Bellei, encerrando o assunto.

Não são tantos assintomáticos assim

A maioria das infecções respiratórias faz as pessoas ficarem febris, com o nariz escorrendo, tossindo ou espirrando. Aliás, quando aconteceu a epidemia de Sars na China em 2002, quem pegava a doença passava tão mal que costumava correr para o hospital. No entanto, Sars-CoV-2, o coronavírus da vez, é muito mais insidioso e, sim, pode ser transmitido por gente que aparenta vender saúde.

Mas, segundo Nancy Bellei, um aprendizado recente é que o número de assintomáticos é bem menor do que se imaginava. "Antes se falava que eles eram 80% dos infectados e que só uns 20% apresentariam sintomas de covid-19. E hoje se sabe que é praticamente o inverso: isso porque pelo menos metade das pessoas que acreditávamos que eram assintomáticas acabam apresentando algum sintoma dias depois."

Ou seja, uma boa parcela dos infectados pode demorar mais para sentir uma pista de que está com a doença. E, claro, dificulta a vida o fato de os sintomas serem de um sortido variado, dos mais brandos aos mais severos, de febre a diarreia, passando por perda de olfato. A covid-19 parece bater em cada um de um jeito. Aliás, o novo coronavírus é intrigante inclusive por isso.

Crianças não são as grandes transmissoras

Essa é uma ideia que os virologistas nos dois congressos fizeram questão de tentar derrubar. "No início da pandemia, surgiram várias histórias de que as crianças tinham cargas virais mais altas e que espalhariam ainda mais a infecção, mas elas vieram de estudos muito mal feitos e que, infelizmente, tiveram visibilidade", conta Nancy Bellei, que nunca se convenceu disso.

"Na verdade, não seria plausível pensar que os maiores responsáveis pelas transmissões seriam aqueles que raramente ficam doentes. Essa conta nunca fechou", diz a professora. E, aliás, um dos grande mistérios, até o momento, é entender por que o novo coronavírus se comporta de um jeito diferente no organismo dos pequenos, enquanto outros vírus respiratórios, ao contrário, têm no público infantil uma presa fácil.

Todo clima é clima para o novo coronavírus

No passado até houve essa esperança: a de que, no calor do verão e da primavera, o vírus se espalharia menos. Mas ele se adapta bem a todos os climas e isso não se confirmou. Diferentemente de outros vírus respiratórios que são sazonais, isto é, que têm uma estação preferida do ano — o influenza da gripe, por exemplo, se dá bem no auge do inverno —, o Sars-CoV-2 não perde o ânimo de janeiro a janeiro.

Segundo os virologistas, o que pode fazer diferença não é se é primavera no Brasil ou outono na Europa, mas o comportamento das pessoas — se é mais de risco ou não.

"Existem temperaturas mais favoráveis ao novo coronavírus, mas aí estamos falando em temperatura corporal", esclarece Nancy Bellei. Sim, ele tem mais facilidade em atacar o organismo quando encontra umidade e temperaturas abaixo dos 35 a 33ºC. Ok, você pode dizer que o nosso corpo costuma apontar normalmente uns entre 36 e 37ºC no termômetro. "Mas imagine a ponta do nariz de um finlandês", exemplifica a professora. Sim, seria uma bela porta de entrada para o vírus.

Um vírus que deixa rastros genéticos

Outra questão que dá um nó nos neurônios dos cientistas é o fato de o material genético desse vírus ser detectado no organismo de quem teve a covid-19 até oito semanas depois de a doença ter passado — "isso não costuma acontecer com outros vírus respiratórios", revela Nancy Bellei. Qual o significado desse fenômeno? Ninguém sabe.

O que se busca descobrir é se esses pedaços de material genético, como se fossem destroços do coronavírus, teriam algum efeito na resposta imunológica do paciente. Vai saber? Aparentemente não são infectantes. Quer dizer, não são capazes de provocar a covid-19. Mas ficam lá no corpo. Por um tempão.

Em animais domésticos

Não bastasse provocar reações muito diferentes nas pessoas, o versátil Sars-CoV-2 é capaz de infectar, ele próprio, outras espécies. Já foi encontrado em gatos e cães domésticos, embora não tenha lhes causado maiores danos. "No caso, foi o homem que passou para os bichos de estimação. Não parece haver possibilidade do inverso", esclarece a infectologista.

No entanto, em animais selvagens a coisa pode mudar de figura. Ontem mesmo, a professora viu, no congresso de microbiologia, um trabalho que documentou muito bem, sem deixar margem à dúvida, a transmissão do novo coronavírus de visons criados em uma fazenda na Holanda para os funcionários do local. E se mais estudos confirmarem o fenômeno e outras espécies de animais selvagens ou nativos puderem fazer o mesmo, a coisa poderá se complicar de vez.

Estável, mas difícil uma vacina resolver para todo mundo

A conclusão dos cientistas é de que, apesar de altamente transmissível, ao menos o novo coronavírus é estável. Isso significa que não sofre grandes mutações genéticas ao longo do tempo — era só o que faltava, ele ser um mutante como o influenza da gripe, você já pensou?

"Ele deverá se tornar endêmico", aposta Nancy Bellei. "Ou seja, sempre estará entre nós, causando mini epidemias aqui e acolá de vez em quando, que teremos de aprender a controlar". Em quanto tempo isso vai acontecer e essa pandemia vai nos dar trégua? "Impossível predizer", responde a médica, em coro com os virologistas do evento europeu.

Justamente por ter múltiplas faces — fazendo bastante mal para uns e poupando outros, provocando sintomas variados, com estratégias diferentes em cada organismo —, fique claro que uma vacina, por melhor que seja, dificilmente funcionará para todo mundo e o que se espera é um imunizante, quando ele existir, que ofereça, mais ou menos, 50% de proteção apenas. E também é improvável, baseando-se nas características do vírus, que uma vacina tenha um efeito duradouro, apesar de ele ser estável.

Para Nancy Bellei, os aprendizados de agora, porém, servem de um bom treino, um preparativo — o que funciona mais e o que funciona menos para conter um vírus respiratório cruel? São lições preciosas, porque o que ela e outros cientistas de peso esperam é uma pandemia de gripe com uma espécie de versão bombada, por assim, do influenza.

Seria a tal supergripe já anunciada há uns bons anos. Fizemos, de certa maneira, vista grossa para essa ameaça até agora. E o vírus influenza é um mutante. Se acontecer, ou melhor, quando acontecer, vai dar um trabalho que fará o novo coronavírus parecer um coroinha de missa.