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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Suspensão da vacina de Oxford é para gerar ainda mais segurança, não pânico

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Imagem: Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

16/03/2021 11h39

Por causa da covid-19, vivemos um período de preocupação constante e é muito importante buscarmos informações de qualidade para evitar que algumas notícias relacionadas à pandemia virem motivo de pânico.

E o assunto da vez que está assustando muita gente é o cancelamento do uso da vacina de Oxford/AstraZeneca em países como Áustria, Dinamarca, Noruega, Islândia, Alemanha, Itália, França etc., devido à suspeita de que pacientes imunizados apresentaram coágulos sanguíneos —a OMS (Organização Mundial da Saúde) já se pronunciou afirmando que os eventos não tiveram relação com o imunizante.

Recebi uma enxurrada de mensagens de pessoas aterrorizadas —inclusive de muita gente que já tomou a primeira dose da vacina de Oxford e agora está com medo de tomar a segunda. Antes de explicar como é o processo científico de produção de uma vacina e porque essa suspensão do uso é algo totalmente normal, quero que uma coisa já fique bem clara.

Para garantir total segurança a população, quando uma vacina é licenciada para uso humano, precisamos acompanhá-la constantemente para saber tudo o que acontece com a imunização e quais efeitos ela pode gerar. Por isso, a suspensão da vacinação em alguns países não é motivo para causar terror nem gerar mais preocupação do que a pandemia já vem causando.

Essa suspensão tem como papel manter os rigores científicos que garantem a segurança e eficácia da imunização, para que todos nós possamos continuar recebendo nossas doses tranquilamente e nos protegermos da covid-19

É importante compreender que foi correta a ação de suspender o uso da vacina nos países em que houve suspeita de efeitos adversos, para verificar caso a caso até que seja descartada qualquer associação do imunizante com os problemas ocorridos —como já aconteceu em alguns países. Isso pode e deve acontecer com qualquer vacina para garantir que ela seja segura!

O processo de licenciamento de qualquer vacina para uso humano segue rigorosos critérios pré e pós-uso do imunizante. Quando testamos uma vacina em humanos, fazemos análises progressivas em termo numérico. Por exemplo, inicialmente testamos a vacina com dezenas de pessoas, depois com centenas de pessoas, depois com milhares.

O objetivo é verificarmos se a vacina funciona sem causar efeitos colaterais mais graves do que a própria doença que o imunizante busca prevenir. Confirmado isso, a vacina é licenciada para uso humano e, mesmo assim, seguimos monitorando o que pode acontecer, para termos a certeza de que a vantagem que a vacina oferece é justificável para continuar com seu uso em longo prazo e larga escala.

Em qualquer doença, a vacinação é caracterizada por garantir segurança e eficácia à população. Ao observamos qualquer efeito adverso durante a imunização em massa, devemos comparar se esses efeitos estão acima do número normal de pessoas não vacinadas que apresentam esse problema.

Um exemplo fictício: 10 pessoas que receberam uma vacina X em um país Y tiveram unha encravada no dedão do pé direito após um mês de imunização. Mas nesse mesmo país, em média, todos os meses 50 pessoas não vacinadas têm unha encravada no dedão do pé direito. Logo, não podemos associar que o uso da vacina está provocando unha encravada, já que o número de problemas relatados ficou abaixo do que sempre foi normal e esperado para essa população sem a vacinação —mesmo assim, os cientistas seguirão investigando a situação para garantir segurança às pessoas.

No caso da vacina de Oxford, foi exatamente isso que a OMS afirmou já ter sido constatado na Dinamarca, Áustria e outros países: não havia um número maior de pessoas vacinadas com coágulo sanguíneo, comparado com a população não vacinada. Mesmo assim, repito, isso não é suficiente para nós cientistas e as ocorrências precisam ser investigadas. Dessa forma, fazemos experimentos adicionais com o uso da vacina no efeito de coagulação sanguínea. Utilizamos protocolos padronizados para fazer esses experimentos e, após obtermos os resultados, tiramos as conclusões de qualquer efeito do imunizante no acometimento desse e qualquer outro problema.

Portanto, fique tranquilo, não entre em pânico nem deixe de tomar sua vacina quando chegar o momento de recebê-la. A aplicação das vacinas tem sido monitorada por cientistas do mundo e pelos órgãos responsáveis, para garantir total segurança e saúde à população.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL