Gustavo Cabral

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Inundações e dengue: o que deveria ser feito para evitar e combater surtos

O Brasil enfrenta uma crise de proporções alarmantes devido ao surto de dengue, com aumento significativo no número de infectados e mortes. Infelizmente, não vislumbramos soluções imediatas para conter essas epidemias virais, que incluem também zika e chikungunya. Esses surtos estão intrinsecamente ligados a uma série de problemas ambientais, como as recentes inundações no Rio Grande do Sul, desencadeando uma tragédia devastadora.

É crucial reconhecer que a natureza é interconectada, e os eventos extremos, como inundações, têm consequências diretas na saúde pública. As inundações estão se tornando cada vez mais frequentes e intensas devido aos efeitos das mudanças climáticas e ao crescimento populacional desordenado.

Como resultado, observamos um agravamento das questões de saúde pública, incluindo o aumento de casos de leptospirose, gastroenterites e infecções zoonóticas. É importante ressaltar que o Brasil é um país endêmico para doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, chikungunya e zika, e as inundações exacerbam os surtos dessas doenças.

A disseminação do vírus da dengue está estreitamente ligada à quantidade de chuva e às variações de temperatura. Históricos revelam uma correlação direta entre a incidência de casos de dengue e os índices pluviométricos. Após períodos de enchentes, numerosas pesquisas científicas apontam para um aumento significativo no número de doenças transmitidas tanto pela água quanto por vetores.

O Aedes aegypti permanece como o principal vetor responsável pela propagação da dengue, reforçando a importância desses eventos climáticos na ecologia e na dinâmica de transmissão da doença. As enchentes desempenham um papel crucial no aumento da população do Aedes, acentuando ainda mais a complexidade da dinâmica de transmissão da doença.

Esses eventos climáticos proporcionam condições ideais para a reprodução e proliferação dos mosquitos, pois as águas paradas provenientes das inundações criam locais propícios para a eclosão dos ovos. Consequentemente, o aumento da densidade populacional desses vetores contribui significativamente para a disseminação da dengue, o que ressalta a importância de estratégias eficazes de controle e prevenção em face desses desafios.

É crucial reconhecer que a dengue pode causar sérios problemas de saúde, com uma ampla gama de sintomas, incluindo febre alta, dores de cabeça intensas, erupções cutâneas, náuseas, dores nos olhos, musculares e articulares, além de trombocitopenia, ou seja, a redução do número de plaquetas no sangue, e consequentemente o possível acometimento da dengue hemorrágica.

Diante da rápida deterioração da situação, é imperativo agir imediatamente e implementar medidas preventivas adequadas.

A educação em saúde é fundamental em qualquer programa de controle de vetores, fornecendo informações críticas ao público sobre doenças transmissíveis e seus vetores. Compreender o ciclo de vida, a ecologia e a biologia do vetor permitem às pessoas adotar medidas preventivas mais eficientes.

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Em períodos de inundações, tudo isso precisa ser pensado de forma diferente, com ações mais intensas. Além de intensificar os esforços para reduzir as populações de mosquitos por meio de abordagens convencionais de controle químico e gestão ambiental, a vacinação é crucial para controlar a propagação da doença.

Com isso, vale a pena pensar e discutir o direcionamento de parte das vacinas da dengue disponíveis no Brasil para toda a população do Rio Grande do Sul, prevendo o aumento dos surtos e a maior vulnerabilidade dessa população ao aumento das infecções pelo vírus da dengue e a fragilidade fisiológica que a população estará durante e após a passagem dessa catástrofe das inundações.

É essencial uma resposta imediata da saúde pública às catástrofes causadas pelas inundações, garantindo abrigo, água, nutrição, saneamento e higiene adequados, além da vacinação

No entanto, é necessário também adotar estratégias de longo prazo para mitigar os danos causados à natureza, envolvendo diversos setores, desde o político até o empresarial. Esse é um imperativo inegável, pois, caso contrário, todo o planejamento estará fadado ao fracasso.

Além disso, existem diversos estudos científicos que delineiam ações preventivas antes da ocorrência de tragédias, como o planejamento urbano eficaz, o mapeamento de populações em risco de doenças transmissíveis, o estabelecimento de mecanismos para compartilhamento de informações entre agências e uma forte liderança cívica e política.

Tudo isso parece utópico e repetitivo, mas é cada vez mais necessário encarar como estratégias e planos factíveis, para evitarmos o escalonamento de tantas tragédias.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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