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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Qual a relação entre hepatite e saúde cardiovascular?

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Edmo Gabriel

Colunista do UOL

21/05/2022 04h00

Sei que já comecei o texto causando confusão. Afinal, hepatite diz respeito ao fígado, qual seria o motivo de incluir o coração nesta história?

Já tive a oportunidade de destacar em colunas anteriores que a medicina não é e nunca será uma ciência exata e, só por este motivo, a resposta para a questão acima é afirmativa: uma hepatite pode ter correlação ou influência na nossa saúde cardiovascular.

Para apimentar esta discussão, temos lido nos últimos dias que a pandemia da covid-19, a qual aparentemente está cumprindo seus dias finais, trouxe à tona mais uma novidade: uma tal de "hepatite misteriosa".

Em primeiro lugar, uma hepatite é um conceito genérico que indica processo inflamatório no fígado. Consiste em processo multifatorial, ou seja, as causas são múltiplas, como por exemplo uma infecção viral, a toxicidade de algum alimento ou medicamento e o etilismo compulsivo.

O fígado é um dos órgãos mais complexos do nosso corpo, ele faz quase tudo, tem relação com quase tudo e fica até difícil tentar enumerar tantas e tantas funções deste órgão formidável e muito resistente. Quando analisamos este "circuito" constituído pelo fígado e o coração, notamos que uma hepatite pode ser determinante em causar ou potencializar problemas cardiovasculares.

Vamos aos exemplos para que vocês entendam com total clareza.

Exemplo 1

Você tem hipertensão arterial ou arritmia cardíaca ou mesmo já está com insuficiência cardíaca instalada, e precisa utilizar diariamente uma gama considerável de medicamentos. Qualquer deslize no uso destes medicamentos, seus sintomas ficam muito acentuados e você pode apresentar um sério quadro de descompensação cardíaca.

Um medicamento ingerido por via oral precisará encontrar o fígado sadio para que o processamento e metalização dos princípios deste medicamento sejam satisfatórios e obviamente ocorram os efeitos esperados. Quando o fígado está comprometido, como numa hepatite, estes medicamentos podem não resultar no efeito esperado ou mesmo demorar muito mais tempo para apresentar o efeito desejado.

Exemplo 2

Você é uma pessoa que necessita usar determinados medicamentos mas, com certa frequência, tem o hábito de exagerar na bebida alcoólica, o conhecido "porre". Seu fígado vai inflamar como resultado da toxicidade do álcool, os medicamentos não serão adequadamente metabolizados e, consequentemente, sua saúde cardiovascular poderá ficar comprometida.

Exemplo 3

Imagine uma pessoa que tenha uma doença no fígado já estabecida —pode ser um câncer primário de fígado (quando surge diretamente no fígado) ou uma metástase no fígado (quando a origem do câncer é em outro órgão, atingindo o fígado secundariamente).

Na dependência da extensão e profundidade de acometimento do fígado pelo câncer, o órgão não conseguirá mais produzir determinadas proteínas ou hormônios que são importantes para uma boa função cardíaca. O coração poderá entrar em descompensação exatamente por esta deficiência funcional do fígado.

Exemplo 4

Você é uma pessoa que busca a todo custo um corpo perfeito. Radicalmente focado nesta meta, você perde o bom senso e começa a ingerir, sem nenhuma orientação especializada, tudo que supostamente possa te emagrecer e te ofertar maior massa muscular, como suplementos, anabolizantes, produtos veterinários, etc.

Com o tempo você apresenta uma mudança corpórea fenomenal, a beleza tão sonhada, mas seu fígado fica extremamente inflamado, nódulos começam a surgir e gradativamente você evolui para um quadro de falência ou insuficiência hepática.

Seu coração sofrerá não somente as consequências de um fígado insuficiente como também dos efeitos diretos e tóxicos das substâncias utilizadas de forma absolutamente inadvertida. Basta lembrar do caso da cantora Paulinha Abelha, vítima de uma insuficiência hepática por uso descontrolado de substâncias sem a devida comprovação.

Exemplo 5

As festas e eventos sociais estão retomando sua normalidade. Paralelamente, um hábito muito perigoso também volta aos cenários festivos —misturar bebidas alcoólicas com outras substâncias como energéticos ou mesmo associar o etilismo com o uso de drogas ilícitas.

Uma ressalva importante é que o fígado pode ser alvo da toxicidade de qualquer substância ou droga ilícita, mesmo que seja um produto injetável (quando aplicado diretamente num vaso sanguíneo) ou inalatório (quando é aspirado). Isto significa que fumar um cigarro convencional, cigarro eletrônico ou uma droga ilícita compromete decisivamente a função hepática.

Nas festas e baladas, essas associações citadas podem causar uma hepatite de grande magnitude com repercussões cardíacas e risco de morte. Isto tudo sem esquecer de enfatizar que estas associações também agem direta e negativamente no coração.

Acredito que, diante dos exemplos acima, você está mais convicto(a) de que uma hepatite tem relação com nossa saúde cardiovascular, podendo determinar complicações graves e risco de morte. No entanto, o fígado tem uma característica muito positiva que, "em mãos erradas", pode se converter em tragédia.

O fígado possui capacidades extraordinárias: muita resistência ("aguenta as pancadas por um bom tempo") e um impressionante poder de regeneração (inflama, cicatriza e se reconstitui com maior facilidade que outros órgãos).

Estas capacidades podem iludir muitas pessoas, que argumentam serem suficientemente fortes, alegando que mesmo com hábitos de vida não saudáveis, nada acontece. Este tipo de comportamento costuma ser visto com maior frequência nos mais jovens.

Porém, o fígado tem limites para aguentar tantos desaforos e pode, a qualquer momento, sucumbir, levando consigo nosso coração. Na prática, podemos dizer que aquele "circuito" entre fígado e coração explode, com vários estilhaços e sem nenhuma chance de reversão.

Uma hepatite, portanto, pode comprometer a função cardíaca, podendo culminar com a morte de uma pessoa.