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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O machismo pode prejudicar a saúde de uma mulher; entenda a relação

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

30/10/2021 04h00

As mulheres sempre enfrentaram desafios e resistências ao longo da história. Esta constatação é lamentável, mas é real. Seja para conseguir ter direito ao voto, seja para ser reconhecida no mercado de trabalho, a mulher conviveu e ainda convive com a necessidade de se superar e provar seu valor.

Não existe sociedade produtiva sem a presença ativa e dinâmica das mulheres. No entanto, historicamente houve predomínio de atitudes impositivas que refletiam o que tanto se destaca como postura machista. Os homens, influenciados por valores do ambiente ou por questões familiares, passaram a adotar medidas de contenção do crescimento profissional das mulheres e, ao mesmo tempo, atitudes extremamente abusivas, como assédio e agressões.

Os impactos desta postura impositiva e machista, na vida de uma mulher, não se resumem a questão profissional e comportamental. Existe um impacto relativo à saúde feminina e que merece e deve ser muito debatido.

Quando uma mulher, em seu ambiente de trabalho, sofre assédio moral ou sexual, não é somente sua imagem como ser humano que foi afrontada e violada, mas também sua estabilidade hormonal, seu equilíbrio imunológico e suas funções orgânicas.

Uma mulher que passa por esta situação constrangedora torna-se uma pessoa com maior propensão para arritmias cardíacas, hipertensão arterial, problemas de pele, queda de cabelo, problemas digestivos e transtornos mentais.

Quando uma mulher é desmerecida por uma equipe de trabalho predominantemente masculina, sem o devido reconhecimento em termos de salário e promoções, ela passa a trabalhar convivendo com muitos sintomas indesejáveis. Sabe aquela sensação de saber que irá sofrer alguma humilhação e ter de estar naquele lugar por questões de sobrevivência financeira?

Mulher triste bloqueada - iStock - iStock
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A linha de raciocínio é exatamente esta —uma pessoa com grande potencial, merecedora de respeito e dignidade, mas que é vítima de uma postura soberba e machista, que provoca traumas emocionais e sintomas muito incômodos.

Existe um conceito, que muitas vezes é relativizado, acerca da maior sensibilidade das mulheres frente a diversas ocorrências. Desta ideia deriva outro conceito: mulher chora e é frágil. Vamos colocar os fatos em seus devidos lugares. Chorar é uma manifestação normal de qualquer ser humano, frente a um determinado sentimento. Chorar não é privilégio de homens ou mulheres, independe de gênero, raça e cultura. Lembrem-se de que nascemos chorando (na maioria dos casos).

Chorar também não deve ser categorizado como sinônimo de fragilidade. Entretanto, as atitudes machistas se fundamentam, entre outras coisas, nesta falsa fragilidade das mulheres; na verdade, sabemos que é tudo uma mera desculpa para agir com soberba. Mas a justificativa perante a sociedade é de que foi necessária uma atitude impositiva, pois as mulheres seriam frágeis e incapazes.

As mulheres, por questões hormonais próprias e também por influências culturais, muitas vezes são mais sensíveis e emotivas. Isto não é motivo para a ocorrência de assédio e de abusos. Esta mesma sensibilidade aguçada do sexo feminino faz com que haja, com muita veemência, um profundo desequilíbrio fisiológico e mental, diante de tantas humilhações.

Muitas doenças que acometem uma mulher, que esteja vivenciando situações de humilhação e assédio, podem culminar com sequelas irreversíveis, tanto no corpo como na personalidade.

E como então intervir neste cenário tão trágico e que parece nunca acabar? Primeiramente cada homem deveria reconhecer o papel essencial que a mulher desempenha no núcleo familiar e na sociedade. Ao mesmo tempo, passar a enxergar algo que a cegueira machista costuma impedir —quando uma mulher é assediada e humilhada, ela não está apenas vivenciando um constrangimento, ela está literalmente morrendo mais rápido.

A postura machista impõe a uma mulher muitas sensações e manifestações, que podem comprometer a saúde e o equilíbrio emocional. Situações de assédio são verdadeiros gatilhos para estresse, mudando o comportamento da pessoa, diminuindo sua produtividade e criando traumas para o resto da vida.

Será que a única pandemia que compromete a vida e a saúde seria a pandemia da covid-19? Com certeza, a pandemia do assédio precisaria também de vacina, mas uma vacina para a consciência daqueles homens que, de forma covarde, insistem nesta desmoralização de suas amigas, colegas, esposas e namoradas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL