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"Tive depressão por causa de chefe abusivo": como assédio moral abala mente

Vítima costuma se culpabilizar pelas humilhações - iStock
Vítima costuma se culpabilizar pelas humilhações Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

17/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Kelly sofreu assédio moral por anos enquanto trabalhava como jornalista, e isso afetou sua saúde mental
  • Ela foi diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada, depressão grave e, logo depois, foi demitida
  • Assédio moral é qualquer tipo de atitude que venha de alguma maneira agredir o indivíduo, por meio de situações humilhantes e constrangedoras

Foi assistindo a um programa de televisão, aos 14 anos, que Kelly Cristina do Nascimento Silva, hoje com 35 anos, decidiu que queria ser jornalista. "A apresentadora fazia perguntas tão inteligentes e interessantes que eu fiquei encantada. Decidi que queria levar uma mensagem para as pessoas". Com apenas dois meses de faculdade, Kelly entrou para o seu primeiro emprego no jornalismo, mas que também se tornaria o último, após ser assediada moralmente pelo chefe.

Apesar dos problemas enfrentados no início do estágio, com uma equipe de trabalho diferente da qual estava acostumada, ela ia cada vez mais se apaixonando pelo que fazia. Não demorou muito, porém, para que ela começasse a ter alguns dissabores com o chefe e dono da agência. "Esse meu ex-empregador era extremamente abusivo com toda e qualquer pessoa, não era particularmente comigo. Mas como eu trabalhei muito tempo com ele, a intimidade foi fazendo com que ele não sentisse mais receios de agir comigo como ele agia", relata. Durante 11 anos Kelly trabalhou na área, e após anos sofrendo abuso psicológico, começou a ter problemas emocionais que a traumatizaram.

Kelly achava até engraçadas as reações do chefe no início - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Kelly achava até engraçadas as reações do chefe no início
Imagem: Arquivo pessoal

Assédio moral impacta saúde mental

Segundo Ana Paula Todaro Taveira Leite, mestra em administração pública, doutora em psicologia social e professora do curso de psicologia da UFF (Universidade Federal Fluminense - polo Volta Redonda), existe uma relação muito importante entre o trabalho e a saúde mental. Ele estabelece um vínculo do ser humano com o social e que vai refletir na identidade desse sujeito. "É através do trabalho que você se afirma do ponto de vista social, se reconhece como um indivíduo social e é nele que você projeta seus desejos, sua visão de mundo, suas necessidades e aspirações".

Entretanto, o assédio moral nesse ambiente desestabiliza emocional e profissionalmente o indivíduo, a ponto de ocasionar prejuízos à saúde física e mental do trabalhador, como depressão, ansiedade, nervosismo, sociofobia, ataques de pânico, baixa autoestima, melancolia, apatia, falta de concentração, cansaço, distúrbios digestivos e enxaquecas, de acordo com Emanuelle Aguiar, mestre em psicologia e professora da EGPP (Escola de Gestão e Políticas Públicas da Fundação Ceperj).

Parte dessa desestabilização consiste em pressionar o empregado a pedir demissão por se sentir culpado, provocar sua transferência para outro local de trabalho e fazer com que se sujeite passivamente a determinadas condições de humilhação e constrangimento.

Ser desclassificada na frente das pessoas, levar sempre a culpa dos problemas do escritório e trabalhar constantemente sob pressão, sem poder sair no horário por capricho do empregador e ouvindo críticas constantemente era uma rotina que começava a ser comum na vida de Kelly, refletindo em uma ansiedade e angústia cada vez maiores.

"Ele chegou a falar que eu era o lado negro do escritório. Em uma situação em que eu quebrei os dedos do pé e liguei para avisar meu afastamento, ele me disse que eram só dedos do pé e eu usava as mãos para trabalhar. Se eu não fosse, ele colocaria outra pessoa em meu lugar, e como eu precisava do dinheiro daquele emprego, fui trabalhar", diz ela.

Aguiar ressalta que o assédio pode assumir tanto a forma de ações diretas (acusações, insultos, gritos, humilhações públicas) quanto indiretas (propagação de boatos, isolamento, recusa na comunicação, fofocas e exclusão social). "Para que sejam caracterizadas como assédio, entretanto, essas ações devem ser um processo frequente e prolongado. Isso faz com que a maioria das vítimas demorem para perceber que estão sofrendo algum tipo de assédio", complementa.

Você sofre assédio moral no trabalho? - Getty Images - Getty Images
"A intimidade foi fazendo com que ele não sentisse mais receios de agir comigo como ele agia”
Imagem: Getty Images

Violência velada

Assédio moral é uma violência moral: é qualquer tipo de atitude que venha de alguma maneira agredir o indivíduo, com base no ponto de vista daquilo que ele entende como sendo sua dignidade. "Se eu ridicularizo você por causa da sua raça, orientação sexual, tipo de cabelo, tribos que você gosta de participar, estilo pessoal, o que você gosta de vestir, e você se sente agredido, eu estou praticando assédio", diz Leite.

Muitas vezes a pessoa pode estar sendo assediada, mas acredita que ela é que é culpada pela situação, pelo fracasso na realização de tarefas e cumprimento de metas, ou não se acha produtiva o suficiente. É por isso que ela pode, em um primeiro momento, não perceber o assédio. Mas a psicóloga alerta que a pessoa vai manifestar sintomas de que algo não está bem. Esses sintomas podem ser dores de cabeça, dificuldades para dormir (insônia), dores de estômago, arritmia, irritabilidade extrema ou até chegar a um burnout.

"No começo, eu achava até engraçada nossa relação. Meu chefe brigava por tudo. Escrevi um texto uma vez e ele voltou editado com o título 'Noites do terror', porque, nas palavras dele, estava monstruoso. Eu ri, achei graça. Ele tem um jeito abusivo de ser e um humor ácido, por isso demorei para perceber que aquilo era para me degradar mesmo", diz Kelly. Foram anos até que ela se desse conta do que estava acontecendo e buscasse ajuda.

Diagnosticada com depressão e transtorno de ansiedade generalizada, tomando medicação e fazendo psicoterapia, ela foi entendendo o quão nocivo estava sendo seu trabalho. Pouco tempo depois do seu diagnóstico ela foi demitida.

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O assédio pode assumir tanto a forma de ações diretas (acusações, insultos, gritos, humilhações públicas) quanto indiretas (propagação de boatos, isolamento, recusa na comunicação, fofocas e exclusão social)
Imagem: Getty Images

Problema exige ajuda

Leite explica que assim como o assédio é algo subjetivo, as maneiras de lidar com ele também são. Não existe uma receita de bolo, tudo depende da forma como a pessoa leva a vida, como ela está engajada na família e com os amigos, se ela tem uma religião e como ela se relaciona com ela, se faz atividades físicas, se possui hobbies, ou seja, é muito amplo. "Quanto mais fragilizada a pessoa estiver, mais danoso será o processo. Então, qualquer coisa que ela faça que fortaleça a sua saúde mental, uma nova filosofia de vida, a prática e um esporte ou qualquer outra coisa que fortaleça esse indivíduo psicologicamente, será de grande valia", diz.

É importante que o trabalhador tenha autopercepção de que algo não está bem no ambiente de trabalho, para reverter os problemas de forma saudável. As pressões de produtividade estarão sempre presentes, o importante é como saber lidar com elas. Trabalho não deve ser sinônimo de dor e sofrimento. Ele deve nos trazer satisfação, identidade e interação com o mundo.

"Vemos muitas pessoas deixarem para trás ideais de vida para terem paz e saúde, pois muitas vezes passam por situações de assédio moral e violência", analisa Aguiar. Quando o trabalhador perceber que algo não está bem no trabalho e se sentir, de alguma forma, agredido, o mais indicado é que ele busque resolver o problema por meio de diálogo ou notificando o departamento de RH. Se a empresa não resolver o problema, é possível fazer uma denúncia ao sindicato ou ao Ministério Público, que podem entrar em contato com o empregador para apurar. Se nada surtir efeito, é possível entrar na Justiça contra a empresa. Além disso, é importante que o trabalhador procure ajuda de um psicoterapeuta.

Apesar do tempo e do tratamento psiquiátrico e psicoterápico, Kelly ainda busca reparar sua saúde mental. "Todo o drama que aconteceu lá ficou muito marcado em mim, e não posso dizer que eu superei 100%. Me deixou marcas que ainda me afetam profissionalmente, mas trabalho isso a cada dia".

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