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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sangue pode mostrar piora ou melhora da covid: entenda os principais exames

Vasily Maximov/Getty Images
Imagem: Vasily Maximov/Getty Images
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

24/04/2021 04h00

Quantas vezes colhemos amostras de sangue para saber como está nossa saúde? Talvez uma a duas vezes ao ano, em tempos normais. Pode ser também que, por comodismo e pouca preocupação, muitos anos se passem sem que façamos algum exame de sangue.

Em tempos de pandemia pela covid-19, quando muitas pessoas estão sendo contaminadas, algumas apresentando sintomas brandos e outras pessoas com necessidade de intubação e até de equipamentos mais sofisticados para funcionar como um pulmão artificial, quantas vezes precisamos repetir os exames de sangue?

Uma pessoa internada no setor de terapia intensiva é submetida a coleta de sangue para análises laboratoriais todos os dias, sendo que, dependendo da gravidade do caso, estes exames são feitos duas a três vezes ao dia.

Da mesma forma, uma pessoa contaminada pela covid-19, principalmente aquela com sintomas mais acentuados, irá necessitar de uma vigilância de alguns exames de sangue, visando acompanhar a evolução do quadro e entender o que está acontecendo e quais os órgãos que estão sendo e aqueles que não estão sendo atingidos pelo processo inflamatório causado pelo coronavírus.

Dessa forma, seria muito interessante que todas as pessoas conhecessem quais os principais exames de sangue, qual o significado clínico dos mesmos e qual seria a correlação destes exames com a evolução do quadro inflamatório causado pela covid-19. Como existem exames mais comuns e alguns mais específicos, começarei esta apresentação pelos exames mais conhecidos.

Exame 1 - hemograma completo

Neste exame, temos de estar atentos aos valores da hemoglobina que, quando muito baixa, indica um quadro de anemia, e aos valores dos glóbulos brancos, principalmente os linfócitos, os quais, quando muito elevados, denotam um processo infeccioso viral, como no caso da covid-19. A recuperação de uma infecção pela covid-19 implica em queda dos linfócitos e reversão do quadro de anemia.

Exame 2 - transaminases

Nos exames de sangue, as transaminases são expressas por meio de duas siglas: TGO e TGP. As transaminases são proteínas sintetizadas pelas células do fígado e, quando estão muito elevadas, indicam um quadro de hepatite.

Considerando que a infecção pela Covid-19 é uma doença eminentemente inflamatória, pode ocorrer comprometimento do fígado e isso se expressaria pela elevação das transaminases. Em muitos casos de falência do fígado, as transaminases podem atingir níveis extremamente acentuados, indicando um prognóstico muito complicado.

Exame 3 - creatinina

A dosagem da creatinina no sangue reflete como os nossos rins estão executando a função primordial de filtrar o sangue e eliminar as toxinas pela urina. Um dos parâmetros para se identificar insuficiência renal em várias condições patológicas, dentre elas a infecção pela covid-19, seria avaliar se os níveis de creatinina estão elevados e progressivamente subindo.

Quando uma pessoa não apresenta uma boa taxa de filtração do sangue, ela tende a ficar muito inchada, com acúmulo de líquidos nos pulmões e com risco significativo de complicações cardiovasculares. Numa evolução muito desfavorável de uma infecção pela covid-19, com falência renal intensa, os níveis de creatinina no sangue corroboram a necessidade de recorrer às sessões de hemodiálise.

Exame 4 - gasometria

Este exame implica em muitos parâmetros essenciais para o entendimento de como estão as trocas gasosas dentro dos pulmões e como está o nível de acidose (acúmulo de ácidos) no sangue. As trocas gasosas refletem a qualidade da oxigenação em nosso sangue e denotam um valor percentual que pode indicar, de forma flagrante, a necessidade de intubar uma pessoa.

Este valor percentual, em uma pessoa sadia, deveria estar acima de 90%. Em pessoas com amplo comprometimento dos pulmões pela covid-19, as taxas de oxigenação podem atingir valores muito baixos, como 70-80%. A gasometria é um exame que fornece os níveis de bicarbonato em nosso sangue e pode indicar acidose importante quando os níveis de bicarbonato estão muito reduzidos. O grau de acidose no sangue reflete que o fluxo sanguíneo que chega a cada órgão de nosso corpo está muito baixo e isto é muito grave.

Exame 5 - troponinas

Quando ocorre um processo inflamatório no músculo cardíaco (miocardite) ou mesmo quando ocorre um infarto do coração, as troponinas ficam bem elevadas. A infecção pela covid-19 pode desencadear tanto a miocardite como um infarto do coração e a queda progressiva dos níveis de troponinas indica a cicatrização destes processos.

Exame 6 - PCR (proteína C reativa)

Este exame é fundamental tanto para acompanhar a evolução da resposta inflamatória causada pela covid-19, como também para avaliação do prognóstico.

Quando os níveis de PCR no sangue ficam persistentemente elevados, podemos entender que nosso organismo não está conseguindo responder favoravelmente a infecção, mesmo com o emprego de medicamentos potentes. Por outro, a queda progressiva dos níveis de PCR pode ser um grande alento nesta batalha contra o coronavírus.

Exame 7 - dímero-d

A compreensão deste exame é mais complexa, pois níveis muito elevados podem representar o processo inflamatório da covid-19 e também reforçar a possibilidade de alterações na coagulação sanguínea, ou seja, maior risco para trombose.

Como a trombose é uma das complicações mais graves da covid-19 e, para isto, deve ser considerado o emprego imediato de medicamentos anticoagulantes, a vigilância dos níveis sanguíneos do dímero-d é fundamental.

A importância do conhecimento

Compreender um pouco mais acerca deste emaranhado de siglas e nomes difíceis, referentes a alguns exames laboratoriais, poderá orientar melhor as pessoas em geral quanto a evolução de uma infecção causada pela covid-19.

Além disto, considerando que muitas pessoas estão demasiadamente ansiosas, algumas apresentando crises de pânico, em meio a tantas mortes e catástrofes, poder ter uma noção geral sobre o significado e as correlações referentes aos exames de sangue que estão sendo feitos em seus entes queridos, lutando nas unidades de terapia intensiva contra as mazelas do coronavírus, poderá ter impacto emocional de alívio e maior serenidade.

Mesmo diante de uma evolução desfavorável, o fato de se conseguir minimamente ter uma razoável ideia sobre como está a evolução da infecção pelo coronavírus, certamente é mais consolador do que viver em meio a uma escuridão de fatos, siglas e números.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL