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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Melatonina não regula só o sono. Entenda como ela ajuda a saúde cardíaca

Hormônio naturalmente produzido pelo corpo, a melatonina é encontrada em forma de comprimidos (que no Brasil só podem ser vendidos com receita médica, em farmácias de manipulação) - iStock
Hormônio naturalmente produzido pelo corpo, a melatonina é encontrada em forma de comprimidos (que no Brasil só podem ser vendidos com receita médica, em farmácias de manipulação) Imagem: iStock
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do VivaBem

06/03/2021 04h00

Quem já utilizou comprimidos de melatonina para melhorar o sono noturno? Acredito que muitos leitores irão responder que usam ou conhecem alguém que usa os comprimidos da substância para dormir melhor (benefício que ainda necessita de comprovação científica mais robusta). Mas as propriedades benéficas da melatonina não se restringem ao controle da qualidade do sono.

Nas últimas décadas, após muitas pesquisas, foi descoberto que esse hormônio que participa ativamente da regulação do ritmo orgânico entre o sono e a vigília também desempenha ou auxilia em outras importantes funções, como o fortalecimento do sistema imunológico, tratamento de doenças dos olhos e tratamento de desordens neuropsiquiátricas (depressão, transtorno afetivo e concentração).

No âmbito cardiovascular, como uma possível droga cardioprotetora, a melatonina tem tido destaque especial após o endosso de alguns estudos recentes e de significativa relevância. Um estudo brasileiro, capitaneado pelo Dr Bruno Halpern em 2018, demonstrou que a suplementação da melatonina pode ser muito útil na regulação da gordura marrom, um tipo de gordura mais benéfica ao organismo e que auxilia na redução do peso corpóreo. Halpern também enfatizou que esta suplementação poderia favorecer a redução dos níveis de colesterol total e triglicérides.

Avançando mais nesse possível papel cardioprotetor da melatonina, outros estudos revelaram algumas vertentes muito favoráveis do hormônio produzido por uma pequena glândula localizada dentro de nossa cabeça:

1) Aumento dos vasos sanguíneos

Quando uma pessoa apresenta um infarto, um dos fatores agravantes e que favorece o caráter fulminante do evento seria a escassez de circulação colateral no coração —vasos sanguíneos muito pequenos ajudariam a compensar alguns entupimentos arteriais existentes. A circulação cardíaca melhora significativamente quando existe quantidade robusta de circulação colateral, e a melatonina ajuda a aumentar a quantidade desses vasos.

2) Controle da pressão arterial sistêmica

A hipertensão arterial é a principal causa de infarto do coração e da insuficiência cardíaca. Em pessoas com níveis adequados de melatonina, ocorre maior equilíbrio da atividade bioquímica das células e maior potencial antioxidante, favorecendo a estabilidade dos níveis de pressão arterial.

3) Controle da pressão dentro dos pulmões

Os processos inflamatórios que acometem os pulmões acarretam redução da oxigenação e aumento da pressão nos vasos sanguíneos localizados dentro dos pulmões. Observem que as pessoas que apresentam sintomas da covid-19 descompensam clinicamente devido à tempestade inflamatória que se instala nos pulmões. Essas pessoas gradativamente passam a respirar com dificuldade e sua taxa de oxigenação fica evidentemente menor. Ainda não se pode categorizar que a melatonina deve ser usada preventivamente para a covid-19, mas podemos especular que seus efeitos anti-inflamatórios e vasodilatadores deveriam ser alvo de mais investigações clínicas.

4) Estabilidade do ritmo cardíaco

Ainda não há a compreensão exata deste mecanismo protetor da melatonina. Muitas pesquisas já avançam e demonstram que a melatonina poderia ajudar na preservação da estrutura celular do coração e, dessa forma, favorecer a transmissão do impulso elétrico natural, o qual é responsável por cada batimento cardíaco. Alguns autores especulam, inclusive, um possível papel da melatonina na prevenção da morte súbita.

5) Remodelamento do músculo cardíaco

Quando uma pessoa infarta, as fibras musculares do coração podem apresentar uma espécie de desorganização estrutural. Aquele arranjo original das fibras, que permite a propulsão efetiva e bombeamento do sangue para todas as partes do corpo, pode ficar comprometido e distorcido. Já existem evidências mostrando benefícios da suplementação da melatonina para melhorar este processo de cicatrização e remodelamento das fibras musculares do coração.

Suplementação de melatonina

Temos de considerar fortemente que a população está envelhecendo e vivendo mais. Temos de considerar também que os estímulos luminosos durante à noite, que atrapalham a produção de melatonina, são cada vez mais comuns na nossa vida. Assim, de forma progressiva, teremos de conviver com uma tendência não saudável de ter níveis baixos e insuficientes de melatonina em nossa circulação sanguínea. Daí resulta a necessidade premente de refletir, em conjunto com seu médico de confiança, acerca dos efeitos positivos da suplementação da substância para a saúde em geral, especialmente a saúde cardiovascular. A melatonina é mais um aliado para nossa saúde e vem despontando nos últimos anos por meio de inúmeras potencialidades.

Vou refazer a pergunta do início do texto: quem já usou ou usa a melatonina para melhorar seu sono e também prevenir agravos cardiovasculares? Espero que, a partir desta discussão que tivemos, a resposta afirmativa seja de maior magnitude. Espero, também, que as pesquisas em andamento continuem nos amparando nesta linha de ação e nos fornecendo mais dados concretos acerca deste conceito inovador : a melatonina como medicamento cardioprotetor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL