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Edmo Atique Gabriel

Magro e gordo: quem é mais saudável? Não é tão simples quanto parece

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Imagem: iStock
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

23/08/2020 04h00

Vivemos em um mundo extremamente influenciado por questões de estética corporal. Vivemos em um mundo focado na busca do corpo perfeito, nas aparências que denotam saúde e vigor. O corpo humano quase se torna uma divindade, sendo muitas vezes motivo de marginalização quando uma pessoa torna-se obesa ou excessivamente magra.

A imagem corporal é algo tão avassalador, em termos de poder de influência e persuasão, que alguns estereótipos são criados, como sobrepeso ser sinônimo de doenças e morbidade, enquanto ser magro implica em beleza e plenitude.

Mas será que é sempre assim? Será que estes conceitos realmente são regras infalíveis?

Obviamente seria contraditório negar que a obesidade, principalmente a obesidade visceral, esteja diretamente associada a maior incidência de doenças cardiovasculares e câncer. Em tempos de pandemia, não faltam evidências para apontar uma íntima relação entre a obesidade visceral e maior propagação do coronavírus.

Logo, não se discute: a obesidade visceral é um fator de risco que predomina em muitas doenças e, dessa forma, todas as pessoas obesas ou com sobrepeso deveriam buscar alternativas para minimizar este agravo, pensando logicamente em uma longevidade saudável.

No entanto, neste universo de estereótipos, também podem ser apontados alguns falsos estereótipos como por exemplo: todo indivíduo magro é saudável!

A obesidade como também a tendência para ser muito magro pode, dentre tantas questões causais, ser explicada por um traço genético muito forte, que vem das gerações anteriores e que efetivamente molda a constituição física de uma pessoa.

Existem muitas pessoas, e realmente não é exagero afirmar que são muitas mesmo, que são magras, mas convivem com níveis elevadíssimos de colesterol no sangue. Existem muitas pessoas magras que são tabagistas e já foram submetidas a procedimentos cardíacos como "pontes de safena".

Da mesma forma, existem os "gordinhos", cujos níveis sanguíneos de colesterol são absolutamente normais. Existem "gordinhos" que jamais colocaram um cigarro na boca, "gordinhos" que nunca consumiram bebida alcoólica.

Recorrendo a Carlos Drummond de Andrade —" e agora José?" Quem está certo e quem está errado nesta história então?

Na verdade, a mensagem é muito simples: magros e "gordinhos" precisam constantemente se cuidar; indivíduos magros necessariamente não são o protótipo de saúde plena tal como aqueles que estão acima do peso não devem ser motivo de desprezo, preconceito e estigma de doença terminal.

Os cuidados com uma alimentação balanceada, a prática regular de exercícios, o controle adequado dos níveis de estresse e a luta diária para não adquirir vícios como tabagismo e etilismo, devem fazer parte da rotina dos magros e dos "gordinhos ", de forma indistinta.

Realizar exames cardiológicos de forma periódica, buscando compreender quais os limites do corpo e quais as tendências genéticas também deveria ser prática comum e rotineira para todos.

Não existe ninguém isento de risco cardiovascular. A estética corporal não é garantia absoluta de níveis de colesterol perfeitos e de pressão arterial totalmente controlada. As pessoas mais magras podem estar sujeitas a infarto do coração, derrame cerebral e arritmias cardíacas. As pessoas mais "gordinhas" também devem se preocupar com tudo isto, ainda que seus níveis sanguíneos de colesterol possam estar controlados.

Assim, é muito relevante salientar que a concentração de colesterol no sangue nem sempre acompanha as tendências de ganho ou perda de peso. Muitas vezes nascemos com proteínas ou enzimas, em quantidades muito variáveis, que são responsáveis pela maior digestão e metabolização do colesterol.

Além disso, nossa flora bacteriana intestinal —microbiota—, que também é muito variável entre as pessoas, desempenha importante papel auxiliar no controle dos níveis de colesterol. Todas estas possíveis variações podem fazer com que as pessoas, independente da estética corporal, apresentem mais ou menos conteúdo de colesterol dentro dos órgãos ou dos vasos sanguíneos.

Devemos buscar, portanto, ter saúde cardiovascular plena e, para isto, a estética corporal não deveria ser motivo de julgamento ou categorização das pessoas saudáveis. Praticar atividade física, saber se alimentar com moderação, viver com equilíbrio e realizar exames periódicos são certamente medidas mais efetivas e mais contundentes para quem quiser desfrutar por mais tempo da vida em família.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.