Topo

Dieta cetogênica

iStock/Arte UOL
Imagem: iStock/Arte UOL

14/01/2019 04h00

Reduzir drasticamente os carboidratos ingeridos é uma das estratégias mais clássicas para emagrecer. E um exemplo desse método é a dieta cetogênica, que surgiu nos anos 1920 como tratamento para a epilepsia, ganhou fama pelos seus poderes na perda de peso na década de 1960 e foi evoluindo ao longo do tempo.

E realmente, a eficácia da dieta é alta (nota 4,3 de 5), mas a custos altos: "fisiologicamente, faz sentido diminuir o apetite através da produção dos corpos cetônicos, mas a dieta traz muitos efeitos colaterais importantes", explica a nutricionista Mariana del Bosco.

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
A manutenção também é ruim, ainda mais quando feita por conta própria. "É uma dieta para ser usada a curto prazo e não pode ser feita por todo mundo", ressalta Andrea Pereira, médica nutróloga nos Ambulatórios de Obesidade, Síndrome Metabólica e Cirurgia Bariátrica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Por isso ela ficou em 13º lugar no Ranking das Dietas do UOL VivaBem, a 4ª pior das 16 dietas avaliadas. Entenda mais sobre ela a seguir:

O que é dieta cetogênica

iStock
Imagem: iStock
O nome vem da cetose, espécie de queima da gordura induzida pelo corte radical nos carboidratos. Funciona assim: ao reduzir esse nutriente, que é o principal fornecedor da glicose que dá energia para as células, o organismo busca outras fontes de combustível, principalmente a gordura, que é o nutriente mais ingerido na dieta cetogênica.

O processo, além de usar a gordura corporal, dá origem aos corpos cetônicos, moléculas que interferem nos hormônios envolvidos no apetite, como a grelina. A cetose é o principal trunfo da dieta cetogênica, que pode variar em formato e limite de calorias ingeridas. No geral, o consumo de carboidratos fica abaixo de 50 g ao dia. Para se ter ideia, normalmente nós ingerimos cerca de 200 g ou mais do nutriente diariamente.

Como fazer a dieta cetogênica

Primeiro, é preciso conversar com um profissional para entender a necessidade energética, uma medida individual que leva em conta fatores como idade, sexo, peso atual, altura e nível de atividade física. A partir daí, ele pode ou não estabelecer um limite de calorias diário. O cardápio não é pré-definido, mas sim adaptado aos gostos de cada um, e é composto de carnes e alguns derivados --com exceção do leite --, vegetais à vontade e gorduras de qualquer tipo.

Não há um número exato de refeições por dia, pois cada pessoa sente fome em momentos diferentes. Para induzir a cetose, é preciso que o corpo passe um tempo em escassez de carboidratos. Por isso, a dieta tem duração mínima de 2 a 3 semanas, podendo chegar a 6 meses. No geral, por conta da restrição severa, o programa dura por volta de 40 dias.

Durante a primeira semana, que é uma fase de adaptação, a falta de glicose para o cérebro pode provocar efeitos colaterais como mau-humor, cansaço e fraqueza. Mas depois a tendência é que o humor se estabilize e o corpo se "acostume" com a nova maneira de fabricar energia.

Tipos

iStock
Imagem: iStock
Na dieta cetogênica clássica, o consumo de carboidratos é baixo (entre 4% e 10% das calorias diárias) o de gorduras chega a 90% e não pode ser menor do que 60%, e o restante das calorias vêm das proteínas. A quantidade de calorias varia individualmente, mas costuma ficar entre 1000 e 1400 ao dia.

Há ainda uma versão que diminui radicalmente o número de calorias, para menos de 800, a VLCKD (very low calories ketogenic diet) onde o número de refeições e o cardápio é mais controlado. Geralmente são seis refeições diárias já prontas, em pó, e só adicionamos algumas verduras e legumes.

Ah, vale dizer que a dieta cetogênica é diferente da low carb, que também ganhou fama por reduzir os carboidratos do menu diário. Na low carb a ingestão de carboidratos pode chegar a 150 g por dia, enquanto na cetogênica o limite varia entre 20 e 50 g.

Alimentos permitidos na dieta cetogênica

iStock
Imagem: iStock
As verduras estão todas liberadas e a maioria dos legumes, mas vários vegetais tem que sair do prato, entre eles batatas, mandioca e a família das leguminosas: feijão, soja, lentilha, ervilha etc. As frutas 100% permitidas são abacate e coco, pois são fonte de gordura.

No campo das gorduras, manteiga, castanhas, azeite, castanhas e banha de porco também entram no cardápio. Além destes, carnes, peixes, frango, ovo, queijos, iogurte e açaí completam a lista dos liberados. As únicas bebidas que podem ser ingeridas são água, café e chá sem açúcar.

Alimentos proibidos na dieta cetogênica

No geral, a dieta privilegia alimentos naturais e limita produtos processados. Veja os itens que não podem ser consumidos:

  • Doces;
  • Pães;
  • Macarrão;
  • Farinhas;
  • Bebidas alcoólicas;
  • Amidos;
  • Sucos;
  • Tubérculos, como cenoura, batata, mandioca, inhame, etc;
  • Vegetais como milho
  • Leguminosas, como feijão, soja, ervilha, grão-de-bico;
  • Outras fontes de açúcar não podem ser consumidos.

Atenção às atividades físicas

iStock
Imagem: iStock
O exercício físico deve ser aliado à dieta para que a perda de peso seja efetiva e saudável. Porém, como o organismo está se virando com pouca energia, alguns cuidados são necessários. A dica aqui é concentrar o consumo de carboidratos antes do treino. Por exemplo: um suco contendo 100 g de melancia e 100 g de beterraba tem, aproximadamente, 30 g de carboidratos.

Agora, se você vai começar a se movimentar junto com o programa de alimentação, a recomendação é pegar leve. E ainda que o indivíduo já pratique atividades, o ideal é diminuir o ritmo, porque algumas pessoas não aguentam o exercício e podem apresentar fraqueza e cãibras.

Dieta cetogênica é segura?

Sim, mas com ressalvas. Primeiro, a dieta não pode ser feita por tempo prolongado, pois é muito restritiva. Ela é eficaz a curto e médio prazo, mas os mecanismos fisiológicos envolvidos nela suscitam preocupações. Por exemplo, pessoas com diabetes ou hipertensão devem ficar atentas pois frequentemente é preciso fazer ajustes nos medicamentos. Caso contrário, há risco de crises de hipertensão e hipoglicemia por conta das alterações no metabolismo.

Já quem tem doenças no fígado ou rim não pode seguir essa dieta, pois o aumento na ingestão de proteínas e gorduras pode sobrecarregar estes órgãos. Sem contar que cortar carboidratos significa deixar de ingerir vários alimentos com vitaminas e minerais importantes para a saúde, como cereais, leguminosas e frutas. A maioria dos estudos clínicos feitos até agora indica o uso de suplementos junto com a dieta cetogênica.

O alto consumo de gorduras é outro ponto a ser considerado antes de optar pelo plano. As sociedades médicas e órgãos internacionais preconizam uma dieta com baixa ingestão de lipídios. Ao fazer com que 90% das calorias venham da gordura, há o risco de aumento do triglicérides e colesterol, o que pode ser um problema para quem já tem níveis altos dessas moléculas.

Por conta de todos esses fatores, apesar de segura na maioria dos casos, a dieta cetogênica não pode ser feita sem acompanhamento médico.

A dieta realmente emagrece?

iStock
Imagem: iStock
Sim. Como os carboidratos compõem a maior parte das refeições, ao cortá-los há uma redução das calorias consumidas diariamente --que naturalmente leva ao emagrecimento. Fora isso, a cetose consome gordura corporal, o que também leva à perda de peso rápida que fez a dieta ficar famosa.

Uma revisão conduzida pela Universidade Federal de Alagoas e publicada em 2013 no British Journal of Nutrition comparou 13 estudos feitos no mundo todo com a dieta VLCKD e dietas com restrição de gordura e concluiu que a dieta cetogênica é mais eficaz para perda de peso. Há ainda outros benefícios indiretos, como uma melhor ação da insulina, o hormônio que bota o açúcar para dentro das células, e diminuição da glicose em circulação, o que é bom para os diabéticos.

Só que os efeitos podem ser temporários, principalmente se a dieta for feita por conta própria. Nesse caso, a restrição abrupta pode desencadear picos de comilança que prejudicam no processo de queima da gordura. Até por conta disso, depois de um tempo os pães, açúcares e companhia voltam ao cardápio.

A restrição total e prolongada pode levar à compulsão alimentar. É comum que ocorra o famoso efeito rebote, quando o peso eliminado volta de uma vez pela falta de manutenção dos bons hábitos.

Vale ou não fazer?

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que sim, a dieta cetogênica tem seu valor, especialmente no combate à obesidade e/ou síndrome metabólica. Desde que, é claro, seja feita com acompanhamento, e tenha duração limitada de no máximo seis meses. Há também uma ponderação sobre o cardápio. Por exemplo, de nada adianta não comer batata mas exagerar no bacon porque ele é uma gordura.

Por fim, o grande problema da cetogênica, e de praticamente todas as dietas, é a manter os ponteiros da balança no lugar depois que elas terminam. É preciso encontrar uma estratégia alimentar que possibilite a manutenção do peso perdido a longo prazo. O cuidado começa quando o período de restrição acaba, com a reintrodução gradual e muito bem controlada dos carboidratos. Sim, eles voltam!

Reportagem: Chloé Pinheiro

Fontes: Marcella Garcez, nutróloga diretora da Associação Brasileira de Nutrologia; Maria Lourdes Teixeira da Silva, nutróloga da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo; Maria Fernanda Barca, endocrinologista doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); Andreia Naves, nutricionista diretora da clínica Nutrexx.

Mais Ranking das Dietas