'Minha irmã foi vítima de feminicídio, mas alguém vê mundo com olhos dela'

A brasiliense Dalila Nunes, 40, designer gráfica, viu sua irmã, Léia Nunes Thomas Gomes, funcionária pública, nove anos mais velha, passar por uma relação afetiva conturbada. Ainda na adolescência, era comum presenciar cenas de agressão e ameaças feitas à sua irmã pelo companheiro na época.

A violência chegou em seu ápice em 2018, quando sua irmã foi vítima de feminicídio e morta a facadas pelo companheiro aos 43 anos, no DF, na casa onde vivia com o homem.

Em entrevista a Universa, Dalila conta como a doação das córneas de sua irmã a ajudou a ressignificar um momento difícil, fala dos sinais de relações abusivas e como tem alertado amigas e familiares sobre o tema.

Universa: Quando você descobriu que algo estava indo mal no relacionamento da sua irmã?

Dalila Nunes: Eu fui saber o que era uma relação abusiva em 2016. Até então, esse termo era pouco usado —mas isso já acontecia há muito tempo com minha irmã. Em 1996, eu tinha 14 anos e passava as férias na casa da Léia, que já tinha um ano de casada com o marido. Na ocasião, meu sobrinho, filho do casal, tinha menos de 1 ano de vida.

Naquele dia, o agressor chegou em casa bêbado de madrugada. Ela pediu para ele não fazer barulho, então ele se irritou, pegou uma faca na cozinha e foi para cima dela.

Como você reagiu no momento?

Estava na casa deles, levantei e fui em defesa dela, pedindo para acabar com todo aquele escândalo, pois poderia acordar meu sobrinho que havia acabado de dormir.

Consegui trancar o agressor na área de serviço. E ali ele ficou até o dia amanhecer. No dia seguinte, pedi para minha irmã voltar a morar na casa dos meus pais, pois isso não era a vida que ela merecia.

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Léia Gomes (dir.) e seus irmãos, Dalila Nunes (esq.) e Samuel  Viana (centro)
Léia Gomes (dir.) e seus irmãos, Dalila Nunes (esq.) e Samuel Viana (centro) Imagem: Arquivo pessoal.

Você pensou em chamar a polícia?

Naquele ano, em 1996, não estava em vigor a Lei Maria da Penha, nem pensei em chamar a polícia. O que eu queria era acabar com aquela discussão e nunca mais ver a minha irmã naquela situação. A única ajuda que pensei eram meus pais, principalmente meu pai, que foi para quem liguei quando o dia amanheceu. Ele apoiou a separação dela.

Você conversou com sua irmã sobre a relação dela?

Eu era uma criança, não entendia por que ela aceitava uma relação como aquela. Minha irmã ficou uns cinco meses separada e voltou a morar conosco. Depois ela voltou a morar com ele e eu fiquei muito revoltada.

As brigas melhoraram?

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Foram inúmeras brigas, agressões e logo depois pedidos de perdão. Ele dizia que iria melhorar, mas piorou com o passar do tempo. Em 2017, um ano antes de ela ser morta, foi um inferno. Neste ano, ela entrou com uma medida protetiva de urgência depois que ele foi até o trabalho dela ameaçá-la.

Ele foi afastado da casa, mas durou apenas 30 dias. Assim que venceu o período, ele retornou para casa e ela o aceitou de volta, a pedido dos filhos que queriam o pai em casa.

É uma característica do agressor, dizer que vai mudar. É uma crescente: agressão e pedido de perdão. Para cada agressão mais violenta, o pedido de perdão é maior, sempre acompanhado por uma recompensa, um presente, uma viagem, uma aceitação do que foi o motivo da briga.

Como foi o convívio da família depois do retorno?

No dia 2 de fevereiro de 2018, uma sexta-feira, ele assumiu para os filhos que o casamento realmente havia acabado, que não fazia sentido ele permanecer morando na mesma casa [da esposa] e dormindo no quarto sozinho. Então, pediu para que os filhos o ajudassem a tirar as coisas dele de dentro da casa, que iria para a fazenda do pai dele e não voltaria mais.

E assim fizeram, passaram o dia arrumando as coisas dele e colocaram tudo no carro. Enquanto isso, minha irmã estava no trabalho.

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Ele aconselhou os filhos a irem dormir fora de casa naquela sexta-feira. Minha irmã me ligou me dizendo que ele iria para fazenda, meu sobrinho iria dormir na casa da namorada, e minha sobrinha iria para casa de uma amiga/vizinha.

Naquela noite, minha irmã ficaria sozinha, então ela resolveu ir para um happy hour com os amigos do trabalho e voltou para casa por volta da 1h da manhã. Às 3h, ele entrou na casa enquanto ela estava dormindo na cama, no quarto de hóspedes, e deu quatro facadas nela. Depois, fugiu para a cidade natal dele, em Goiás, bateu o carro e morreu na rodovia a 400 quilômetros de Brasília.

Como foi esse processo da doação de órgãos? Em vida, vocês conversavam sobre ser doador?

Falei rapidamente com meu irmão pelo telefone, eu estava na casa dela e haviam levado o seu corpo ao IML. Por conta do tempo, os únicos órgãos que puderam ser doados foram as córneas, fiquei triste em saber disso.

Mas no momento de tanta dor e sofrimento, foi o único conforto que tive, saber que com a perda dela poderíamos ajudar outras pessoas e que o mundo continua sendo visto pelos olhos da minha irmã, vítima de feminicídio.

Em vida, já fomos doar sangue juntas, falávamos muito sobre o desejo de ajudar o outro e de ser útil após a morte com a doação de órgãos. Fiquei feliz em saber que alguém iria ver o mundo com os olhos dela.

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As irmãs sempre falaram sobre doação de órgãos em vida e já foram doar sangue juntas
As irmãs sempre falaram sobre doação de órgãos em vida e já foram doar sangue juntas Imagem: Arquivo pessoal.

Você comentou que por um tempo preferiu não falar sobre o assunto e evitou dar declarações à imprensa na época. Por que você acha importante falar sobre atualmente?

Hoje falo todos os dias sobre relações abusivas com amigos, colegas e familiares. Incentivo todos a terem coragem para sair dessa situação. É preciso ter muita coragem para sair e romper a relação, quebrar o ciclo.

A tendência é reproduzir o abuso em outras relações. O abusado precisa reconstruir o conceito da relação saudável para que não se transforme em um abusador.

Falar sobre isso dá forças para que outras pessoas que estejam vivendo esse ciclo de horror não tenham medo de falar. Se calar só gera mais problemas e dá forças ao agressor.

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