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Minha história

"É mil vezes pior do que a morte", diz mãe que procura a filha há 26 anos

Após ter filha desaparecida, Ivanise Santos fundou a Associação Mães da Sé  - Arquivo pessoal
Após ter filha desaparecida, Ivanise Santos fundou a Associação Mães da Sé Imagem: Arquivo pessoal

Cléo Francisco

Colaboração para Universa, de São Paulo

01/05/2022 04h00

Na antevéspera do Natal de 1995, a vida de Ivanise Espiridião da Silva Santos, de 60 anos, mudou para sempre. Fabiana Esperidião da Silva, sua filha mais velha então com 13 anos, desapareceu sem deixar pistas a cerca de 120 metros de sua casa na cidade de São Paulo.

Desesperada, a mãe fez o que podia para encontrar a menina e, no meio da dor, descobriu outras pessoas sofrendo como ela e sem ter a quem pedir ajuda.

No depoimento a seguir, Ivanise relembra as décadas à procura da filha desaparecida enquanto ajuda outros familiares a encontrarem seus entes queridos com a Associação Mães da Sé, fundada e presidida por ela.

"Na noite de 23 de dezembro de 1995, fui arrumar meu cabelo em um salão em Perus, bairro paulistano próximo de Pirituba, onde eu morava. Quando cheguei em casa, soube pela Fagna, minha caçula, que a Fabiana havia saído com uma coleguinha para parabenizar outra amiguinha que fazia aniversário na vizinhança. Em seguida, começou a cair uma chuva forte e deduzi que ela esperava o temporal passar para voltar. Isso levou cerca de uma hora e meia.

Quando a chuva passou, fui atrás da Fabiana na casa da amiga com quem ela havia saído. A menina disse que elas haviam se despedido havia muito tempo. Após cumprimentarem a aniversariante rapidamente, porque ia começar a chover, voltaram caminhando juntas até que se separaram e cada uma seguiu para sua casa.

Criei um mutirão de seis pessoas e fui na casa da aniversariante. A mãe dela confirmou a história. Procurei minha filha nas ruas próximas até 2h30 da madrugada, quando acordei o pai dela para irmos à delegacia. Ouvi que a culpa era minha porque tinha inventado de voltar a trabalhar e estudar. Eu tinha acabado de ingressar numa universidade. Na hora, me senti culpada.

Para minha surpresa, o delegado me mandou voltar para casa e disse que ela deveria estar com um namoradinho. Por mais que eu argumentasse que a minha filha não tinha o hábito de ficar na rua até tarde, não consegui convencê-lo a procurá-la. Ele me falou para voltar em 24 horas.

Fabiana com 13 anos e como estaria hoje - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Fabiana com 13 anos e como estaria hoje
Imagem: Arquivo pessoal

Deixei a delegacia, continuei procurando Fabiana nos hospitais e o dia foi amanhecendo. Voltei à delegacia no dia 24 de dezembro e a delegada de plantão foi ríspida e disse que não haviam se passado as 24 horas. Respondi: 'Só saio daqui quando a senhora me atender.'

O escrivão fez a ocorrência, a delegada assinou, entregou minha via e disse que, a partir daquela hora, quem investigaria o desaparecimento era a delegacia de pessoas desaparecidas. Só que o local estava fechado nos dias 24 e 25. Chegou o dia 26 e eu já tinha percorrido todos os hospitais da capital e o Instituto Médico Legal. Nesse último, passei a ir a cada dois dias.

Foram três meses vivendo assim. Nenhuma mãe está preparada para perder um filho dessa forma. É mil vezes pior que a morte. Fui me degradando física e psicologicamente. Cheguei à beira da loucura.

Quando você enterra um filho, vive o luto real, faz velório, sabe que ele não vai voltar. Quando desaparece, a gente vive a dor da incerteza, que não tem remédio. É uma ferida que não cicatriza, um luto inacabado.

Fiquei 53 dias em estado de choque. Não sentia fome nem sono. De dia, ia para hospitais e o IML e, à noite, eu a procurava no centro de São Paulo. Amanhecia o dia em busca dela pelas ruas da cidade.

Emagreci nesses três meses mais de 20 quilos. Só fumava. Eram dois maços de cigarros por dia, acompanhados de café. O psiquiatra triplicou a dosagem do remédio que havia me passado e, mesmo assim, eu não tinha sono e nem fome. Com 1,50 metro de altura, eu pesava 36 quilos três meses após o sumiço da Fabiana.

Até hoje, se vejo uma mulher parecida com a minha filha na rua, peço ao motorista do ônibus para parar imediatamente e salto correndo atrás da pessoa. Perdi a conta de quanta gente já abordei porque achava que havia alguma semelhança com a Fabiana.

Novela da Globo

Em março do ano seguinte conheci uma ONG no Rio de Janeiro chamada Centro Brasileiro em Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente, onde cadastrei o nome da minha filha. Passadas algumas semanas, me chamaram para participar da novela "Explode Coração", da Globo. O enredo abordaria o tema dos desaparecidos e colocaria depoimentos de mães à procura de seus filhos.

Fui para o Rio e voltei com a perspectiva de que encontraria minha filha. Meu apelo seria transmitido pela maior emissora de TV do país e com uma audiência muito grande. No dia seguinte, fui procurada por duas jornalistas que perguntaram sobre minha história. Falei da busca solitária, da sensação de abandono. Lembrei de todo o processo doloroso pelo qual passava. Disse que, se alguém estivesse na mesma situação e quisesse compartilhar comigo, meu telefone estava à disposição.

Para minha surpresa, no dia seguinte acordei com o telefone tocando. Eram mães, pais, irmãos, produção de rádios, jornais, revistas e TVs me perguntando quando e onde me encontrariam. Marquei com eles de nos encontrarmos no domingo seguinte, na frente da catedral da Sé.

Mães da Sé

Encontro da Associação Mães da Sé - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Encontro da Associação Mães da Sé
Imagem: Arquivo pessoal

Era 31 de março de 1996 quando aconteceu nosso primeiro encontro. Cheguei lá por volta das 9h e havia mais de 100 pessoas. Mães e pais com fotos e cartazes de seus filhos desaparecidos. Foi um choque de realidade. Não sabia a quantidade de pessoas desaparecidas na cidade. Ali nasceu esse trabalho.

O grupo se encontra dois domingos por mês. Transformei minha dor em luta por todos que estavam naquela situação e não parei mais. Já se passaram 26 anos, com um total de 5.330 pessoas encontradas pela Mães da Sé.

Depois que foi criado esse trabalho, comecei a aparecer na TV e recebia muitos trotes. Em um deles, em 2004, um homem me ligou dizendo que minha filha era babá na casa dele havia cinco anos. Pedi que lhe perguntasse o nome do pai, profissão, sobre os irmãos e me retornasse à noite.

Durante 10 dias ele me fez acreditar que minha filha se negava a falar sobre a família dela. Vi que o telefone era em Salvador, na Bahia, e decidi viajar para lá. Antes, entrei em contato com uma das mães cadastradas na ONG que morava na cidade. Ela foi à polícia e descobriram o endereço. Era um taxista que morava na periferia.

Quando estava saindo para o aeroporto, o telefone tocou e soube que aquele homem tinha me passado um trote. Fizeram ele me pedir desculpas. Eu disse: 'Moço, como o senhor tem coragem de fazer isso com uma mãe? Que Deus não permita que o senhor passe pelo que eu passo há nove anos'. Ele começou a chorar. Aquele dia a minha vontade era de morrer. Mas passei por isso diversas vezes.

Sete anos após o desaparecimento de Fabiana, me separei. Depois que fundei a associação, cansei de ouvir do meu marido que só tive uma filha desaparecida. Também escutei muito da minha caçula: 'Ah, se fosse eu, você não estaria desse jeito'. E eu dizia: 'O dia em que você for mãe, vai me entender'.

Chegada da neta

Ivanise, Fagna e Eva  - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Ivanise, Fagna e Eva
Imagem: Arquivo pessoal

Eva, minha netinha, veio ao mundo em 2019 e, no primeiro Dia das Mães dela, minha filha me pediu perdão chorando e disse: 'Me coloquei em seu lugar e hoje entendo o tamanho do seu sofrimento'.

A Eva é uma benção. Ser avó é ser mãe duas vezes, um amor duplicado. Ela é muito parecida com minha Fabiana, fisicamente e na forma de se comportar. Foi a melhor coisa que Deus me deu.

Tenho certeza de que encontrarei minha filha, sinto que ela está viva em algum lugar desse planeta. Quando eu menos esperar, ela vai chegar. Já se passaram 26 anos e fico imaginando como ela está hoje, com 40. É essa certeza do reencontro que me mantém viva."

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