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MC Carol: 'Fiquei com um homem comprometido por anos. Hoje, não faria isso'

MC Carol relembra relacionamentos conturbados do passado - Acervo pessoal
MC Carol relembra relacionamentos conturbados do passado Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

15/01/2022 04h00

Com rimas fortes e feministas, MC Carol, 28 anos, está acostumada a ser o centro das atenções. Mas, desde o final do ano passado, o que ganhou destaque nas redes sociais foi a sua vida privada. No dia 31 de dezembro, ela revelou, por meio do Twitter, que teve um relacionamento longo com um homem comprometido, mas que ele faleceu há quatro anos.

Carol contou ter se aproximado do filho do rapaz — que nasceu pouco tempo antes de ele morrer. "Ontem ele chegou aqui em casa, me chamando de madrasta. A mãe até deixou ele dormir aqui. Esse foi o melhor presente: estar perto do filho do homem que eu amo até hoje", escreveu.

As reações foram diversas. Muitos julgaram a MC pelos atos do passado e opinaram que ela não deveria insistir para conhecer a criança. Outros se identificaram por terem, em suas famílias, histórias semelhantes.

A Universa, Carol deu sua versão dos fatos: explicou como o envolvimento abalou sua autoestima e garantiu que, hoje em dia, evitaria passar por uma situação semelhante. Ela conta, ainda, que chegou a ser agredida e a família soube pela televisão, e comenta o impacto nos relacionamentos de ser uma mulher fora dos padrões: "Os homens estão disponíveis para ficar com você o tempo todo, mas não para te assumir". A seguir, leia a entrevista completa.

UNIVERSA: Como foi esse romance com um homem comprometido?

MC Carol relembra relacionamentos conturbados da sua juventude  - Acervo pessoal - Acervo pessoal
MC Carol relembra relacionamentos conturbados da sua juventude
Imagem: Acervo pessoal

MC CAROL: Foi há muito tempo. Nós tínhamos quase 17 anos e éramos amigos. Ele tinha acabado de começar a namorar. Mesmo assim, me procurou de madrugada depois de um show, começou a conversar, sentou do meu lado. Ali rolou um beijo. Eu tentei fugir disso durante meses, mas ele ia na minha casa, era insistente.

Sinceramente, não entendia por que aquela fissura em cima de mim. Eu morava em um barraco, com um cômodo e um banheiro. Além disso, todos achavam que ele era bonito demais para mim, inclusive eu. Com o tempo, foi inevitável ceder. Hoje, aos 28 anos, eu não me envolveria em uma história dessas. Não sou a mesma pessoa que eu era há um ano, quem dirá tanto tempo atrás. Mas naquela época aconteceu.

Ele dava sinais de gostar de você?
Eu gostava dele, ele de mim. Nossa relação era primeiro de amizade: não tinha briga. Ele ia aos shows comigo, me ajudava a escolher as roupas que iria usar no palco. Insistia que eu usasse brincos e cordões, coisas nas quais não sou muito chegada. Nós íamos juntos para o samba, o baile, o pagode.

Rodávamos em todo lugar, tínhamos fotos juntos no Orkut e todo mundo sabia que ficávamos, incluindo as nossas famílias, o rapaz com quem eu saía e a namorada dele.

O ponto é que na época ele namorava uma mulher muito bonita, magra, com o cabelo até a cintura e a pele mais clara, e não tinha peito para terminar a relação. Depois de três anos nessa dinâmica, quando eu percebi tudo isso, doeu e me afastei.

A maior parte das mulheres que se tornam amantes tem a esperança de ser assumida um dia. Com você aconteceu isso?

Essa é uma questão complexa. Eu venho de uma família em que as mulheres não podem trabalhar, são agredidas.

Tinha uma visão bem negativa sobre casamento e namoro. Achava que eu ia apanhar, ia ter que servir o homem. Não era o que eu queria. Por isso nunca quis nada sério.

Mas a gente vivia uma parada muito forte, já não cabia mais isso. Ele chegava a passar semanas comigo, então um dia sentei e perguntei o que estava rolando. Falei: "Você só sai aqui de casa pra pegar um tênis e voltar, já quase vive aqui. Do que você precisa?".

A resposta foi algo do tipo: "Se eu largar minha namorada hoje, amanhã ela vai estar com outro. Os moleques vão me zoar". A conversa terminou assim, no ar. Não teve briga, eu não ia ficar insistindo nisso. Um tempo depois terminei e fui morar com outro rapaz, com quem eu já me envolvia. Mas foi um inferno, porque, sabendo que eu amava outro, tinha muito ciúmes.

Era um relacionamento abusivo?

MC Carol chegou a ser agredida - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
MC Carol chegou a ser agredida
Imagem: Reprodução / Instagram

Sim, a história continuou complicada por anos. Uma vez eu o traí, contei a verdade e pedi perdão. Ele disse que perdoou, mas me acusava de traição por qualquer coisa. Se eu ia na casa de um parente, dizia que eu estava no motel. Se passava uma semana trabalhando, achava que estava com um amante. Nós sempre brigávamos e rompíamos. Eu saía para zoar, curtir e acabava tendo recaídas, todas elas com esse amigo do passado. Então voltávamos e o ciclo recomeçava.

Quando foi o final definitivo?
Quando meu amor do passado morreu. Na época, um comentário de deboche por parte dele foi inaceitável e eu terminei. Só que meses se passaram sem que eu demonstrasse nenhum interesse em voltar. Ali ele viu que a parada era séria. Primeiro ligava, chorava, pedia desculpas. Depois começou a ir na porta da minha casa, me vigiar. Um dia, conseguiu entrar e me agrediu.

A polícia pegou em flagrante, porque minha casa tinha uma cerca elétrica, que disparou quando ele pulou. Para mim, que nunca tinha sido agredida, foi uma vergonha imensurável. O caso se tornou público e minha família soube pela televisão.

Hoje em dia, você acredita em monogamia?
Eu acredito que a gente escolhe a vida que quer viver. Essa minha história não foi algo combinado desde o começo, certinha, bonitinha. Foi algo que machucou. Todos vivíamos um inferno, era briga no meio da rua. Alguns me chamam de louca, dizem que eu destruí a vida da menina, mas eu não me sinto culpada sozinha. Acho que os quatro são culpados e errados. Tento pensar que tudo isso tinha que acontecer para que hoje eu tivesse essa maturidade.

Carol acredita que está mais madura emocionalmente - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Carol acredita que está mais madura emocionalmente
Imagem: Reprodução / Instagram

Por que o desejo de se aproximar do filho do seu ex?
No dia do nascimento dele, eu coloquei os joelhos no chão e orei para que ela tivesse um parto tranquilo, para que o menino nascesse com saúde. Seu pai foi uma pessoa muito importante para mim, que se deixou influenciar pelas pessoas erradas e por isso não está mais entre nós.

Quando soube da sua morte, eu estava nos EUA e mandei uma coroa de flores, aluguei um carro para que a mãe dele chegasse ao enterro mais confortável. A mãe da criança se sentiu desconfortável e nós brigamos. Falamos coisas ruins, mas depois de um tempo conseguimos nos entender. Desde então, eu peço, respeitando o tempo dela, para conhecer o seu filho.

De vez em quando, mandava mensagem perguntando como ele estava. Aos poucos começamos a fazer chamadas de vídeos, até que no final do ano passado pudemos nos ver. Ele chegou na minha casa eufórico, carinhoso, me chamando de madrasta e dormiu aqui junto com outras crianças. Eu fico muito feliz. Acho que elas não devem pagar pelos erros dos adultos. Ele já não tem pai, precisa do máximo de amor possível.

Hoje você está namorando a distância? Como tem sido?

Durante uma viagem para Lisboa, em novembro do ano passado, eu conheci um africano. Só que desde que tudo aconteceu, eu vinha tratando os homens de forma fria. Fico com vários, mas mantenho uma certa distância. Não sou muito carinhosa. Com ele, no entanto, tudo aconteceu de uma forma inexplicável. Desde a primeira vez ficamos grudados.

Agora, ele está tentando vir para o Brasil, a fim de conhecer minha vida, minha família. Queremos uma "primeira temporada" para ver se é isso mesmo, porque mudar de país é uma decisão muito séria. Tentamos lidar com a questão da distância nos falando por mensagens, por vídeo. Mas confesso que é bem difícil. Ontem ele não me deu bom dia, eu já fiquei bolada [risos].

Você continuou sentindo os impactos de ser uma mulher fora do padrão nos seus relacionamentos?

MC Carol diz que não repetiria o envolvimento com alguém comprometido - Acervo pessoal - Acervo pessoal
MC Carol diz que não repetiria o envolvimento com alguém comprometido
Imagem: Acervo pessoal

Posso te mostrar um print agora de 87 caras me chamando no direct do Instagram para flertar. Quando você é como eu, recebe cantadas o tempo todo, os homens estão disponíveis para ficar com você o tempo todo, mas não para te assumir.

O último homem que eu levei para dentro da minha casa dizia que preferia não postar nada comigo porque eu era uma pessoa pública. Três meses depois, abri o telefone dele e tinha nudes tirados no meu banheiro, vídeos gravados na minha piscina, convidando mulheres brancas para vir aqui, enquanto eu trabalhava, além de frases de deboche com o meu corpo.

No Tinder, um deles nem me encontrou e já disse que não queria nada sério. Pouquíssimo tempo depois, apareceu namorando uma mulher padrão. Eu não me surpreendo, mas são coisas desagradáveis. As pessoas querem a aprovação dos outros, quando na verdade relacionamento é química, energia, atenção. Só pela beleza, acaba. Eu sou positiva, mas já me perguntei muitas vezes se nunca iria conhecer alguém legal.

E como lida com essa questão no seu relacionamento atual?
A pressão continua existindo. Nós estávamos em um trem viajando pela Europa quando eu fui tentar usar o banheiro e não consegui, por ser muito estreito. Estava muito apertada, a viagem era longa, fiquei desesperada. Tive vergonha de pedir que ele traduzisse a reclamação para alguém, então eu mesma fiz mímicas e descobri que havia um banheiro de deficientes três vagões à frente.

Eu chorei muito dentro desse banheiro. Não tenho deficiência alguma, mas era como se tivesse causado uma impossibilidade para o meu próprio corpo, como se o mundo me mandasse um sinal de que eu sou anormal.

Demorei tanto lá dentro que ele me mandou uma mensagem, ciente de que algo estava errado. Expliquei a situação e conversamos. Ele me pediu calma, relembrou que eu estava em turnê pela Europa, que tenho mais pique do que muita gente.

Ali eu me acalmei, mas a verdade é que era um choro de anos. Hoje eu posso entrar no shopping e comprar o que quiser, mas ainda preciso comprar minhas roupas por encomenda —como se o mundo dissesse que eu não devo sair na rua, muito menos bem vestida.

Tudo isso impacta, mas com uma pessoa companheira, fica mais fácil de lidar.

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