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'Sou faxineira de túmulos e compartilho minha realidade nas redes sociais'

Jaqueline Alves Rodrigues, 25 anos, tem 11 mil seguidores no Instagram - Arquivo pessoal
Jaqueline Alves Rodrigues, 25 anos, tem 11 mil seguidores no Instagram Imagem: Arquivo pessoal

Jaqueline Alves Rodrigues, em depoimento a Ed Rodrigues

Colaboração para Universa

14/01/2022 04h00

"Eu tinha 12 anos quando comecei a trabalhar como faxineira de túmulos. Precisei ir morar na casa dos meus avós com meu irmão mais novo porque minha mãe ficou doente e quase morreu, devido a uma tuberculose intestinal. Meus avós sempre trabalharam com reciclagem, esse foi o sustento da família deles por toda vida. Comecei a ir com minha avó para vivenciar a coleta de resíduos nas ruas de Marília (SP). Foi quando percebi que ela também trabalhava no cemitério.

Ela já era idosa na época. Então passei a ajudar. Empurrava o carinho, carregava o balde pesado, limpava os cantinhos de descanso. Tinha dias em que ela não estava bem, não aguentava o pesar da idade, o calor, o sol... Então eu fazia tudo. Ela ficava sentadinha num canto na sombra enquanto fazia os acabamentos até a gente ir para o próximo túmulo.

Cuidávamos dos túmulos três vezes por semana. Folgava na quarta-feira e, nos demais dias, o trabalho era na reciclagem. Uns diriam ser exploração de criança. Eu digo que é por necessidade para não faltar o pão em casa. E era bem mais legal do que ficar em casa sem fazer nada.

Jaqueline Alves Rodrigues - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jaqueline Alves Rodrigues tinha 12 anos quando começou a trabalhar como faxineira de túmulos
Imagem: Arquivo pessoal

'De geração em geração'

Esse trabalho no cemitério é um negócio de família. Começou com minha tia Aparecida, que contratou minha avó para trabalhar com ela no cemitério. Minha tia trabalhou por anos no cemitério também e criou os três filhos com o ofício de faxineira de túmulos. Ela tinha uns 300 túmulos para cuidar e precisava de ajuda.

E esse trabalho foi passando de geração em geração. Mais duas tias (Andreia e a finada Marta) e os filhos da minha tia Andreia, meu irmão mais novo e minha prima já trabalharam no cemitério.

O tempo foi passando e fui conciliando os estudos com a ajuda que dava no cemitério. Estudei firme até a quarta série. Ia todos os dias, era uma ótima aluna e com boas notas.

Eu era bem solitária na escola, não tinha amigos e sofria bullying por ser magra demais. Era taxada 'a menina que come lavagem de porco'. No recreio ficava num canto, isolada, comendo a comida batida que minha mãe levava para mim na escola, e escutava os burburinhos, falatórios...

Mesmo assim fui levando. E depois, na quinta série, foi ficando pior. Não aguentei e parei de estudar. Ia na metade do ano e parava. Tentei fazer a quinta série duas vezes. Desde 2015, estou tentando terminar meu supletivo, tinha altos e baixos da minha saúde e isso complicou o término dos meus estudos.

Túmulo por túmulo

A rotina não é como um dia normal num escritório com ar-condicionado. A diferença em relação ao escritório é que pegamos no pesado, conduzindo o carrinho de mão (nosso transporte dos produtos para dentro do cemitério) cheio de água até cada cantinho de descanso, após sermos contratadas pelas famílias que se preocupam com o ente querido que faleceu.

Ficamos no sol o dia todo, tento me proteger ao máximo. No escritório, pode ser bem estressante trabalhar com os vivos; no cemitério é só paz. Limpamos cada detalhe do cantinho de descanso: os azulejos, piso, mármore... Removemos a sujeira ao redor, matos, sujeiras que o tempo traz ou até mesmo pessoas. E limpamos as fezes dos passarinhos, que misericórdia... Ô, trem duro para remover.

Tiramos a parafina das velas derretidas que os familiares acendem. As plaquinhas de bronze (alguns não têm) limpamos com o sumo do limão para deixar brilhando novamente. Com o tempo, o sol, chuva, etc., as placas de bronze vão ficando velhas, pretas e voltamos a cada semana para renovar o brilho.

Fama nas redes sociais

Em um certo momento, há uns dois anos, notei que nossa ocupação era desconhecida para muita gente. Juntando isso à minha vontade de trabalhar com conteúdo na internet, resolvi mostrar um pouco da minha realidade no cemitério.

No começo, me perguntavam o que eu estava fazendo no cemitério. Diziam: 'Que medo. Como tem coragem?'. E quando respondia que estava trabalhando pela minha metade do pão (não ganhamos muito, então falo que é a metade do pão), aí achavam diferente, estranho... O pouquinho que me acompanhava ficava curioso e pedia para eu mostrar mais.

Jaqueline - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jaqueline: 'Há uns dois anos, notei que nossa ocupação era desconhecida para muita gente'
Imagem: Arquivo pessoal

Por eu ser tímida, levou um tempo para me adaptar e aparecer nos stories. Nunca tive vergonha do meu trabalho, e pensava 'não tenho como esconder essa minha realidade, né?' Então, avante mostrar o diferente e ir atrás dos meus sonhos.

O pessoal foi curtindo, cobrando conteúdo e eu fui cada dia mais gostando de mostrar o que eu faço. Hoje tenho mais de 11 mil seguidores no Instagram. E vou trabalhando para conseguir ganhar cada vez mais espaço.

Apesar de agora amar minha profissão de faxineira de túmulos, pretendo me especializar na internet. Quero terminar meus estudos, me profissionalizar na área de mídias digitais. Uns dizem que é melhor eu ser médica, mas o meu talento não está na medicina. Quero ir por esse caminho que estou indo, e poder dar uma vida melhor para minha mãe. Poder juntar recurso para ela fazer a cirurgia que precisa. Faz 13 anos que ela usa uma bolsinha por causa do problema no intestino.

Jaqueline - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'Apesar de amar minha profissão de faxineira de túmulos, pretendo me especializar na internet', diz Jaqueline
Imagem: Arquivo pessoal

'Liberte-se do julgamento alheio'

Antes de eu ir atrás dos meus objetivos, era muito infeliz, com medo do julgamento alheio. Com o tempo, no meu processo, fui mudando minha perspectiva e vendo que se eu não mudasse esse medo nunca iria sair do lugar.

É preciso dar a cara à tapa no que você quiser fazer. Doa em quem doer. E quebrar o tabu de que nós mulheres não podemos fazer/ser o que sonhamos. Temos muita força para quebrar a barreira do preconceito. Quer ser livre? Liberte-se da vontade de agradar o julgamento alheio. Nunca é tarde para dar início à sua própria felicidade e viver as melhores coisa da vida."

Jaqueline Alves Rodrigues, 25 anos, trabalha como faxineira de cemitérios em Marília (SP)

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