PUBLICIDADE

Topo

Mães e filhos

'Como em Um Lugar ao Sol, vivi o luto e a alegria de parir um dos gêmeos'

Jessika Nascimento perdeu um dos gêmeos após descolamento de placenta - Arquivo pessoal
Jessika Nascimento perdeu um dos gêmeos após descolamento de placenta Imagem: Arquivo pessoal

Jessika Nascimento, em depoimento a Luiza Souto

De Universa

11/01/2022 16h35

"A cena de 'Um lugar ao Sol' (TV Globo) em que uma das filhas gêmeas de Ilana (Mariana Lima) morre no parto foi de apertar o peito. Só quem perdeu um filho entende o que a personagem quis transmitir.

Tenho 29 anos e perdi um dos meus bebês aos três meses de gestação, após um descolamento da placenta. Eles estavam crescendo em bolsas diferentes, e só descobri pelo ultrassom, quando o médico disse que tinha apenas um coraçãozinho batendo. Foi muito difícil porque sou mãe solo, e estava sozinha naquele dia.

A cicatriz sempre fica. Às vezes, algo me dá um gatilho, como no episódio da novela, e o peito aperta.

O meu outro filho fará dois meses de vida na próxima sexta-feira (14). Ele é forte e saudável, e estou muito feliz por ter o Noah, mas se não fosse minha família e meus amigos acho que não teria superado. Um filho nunca substitui o outro. Quando dei à luz, ao mesmo tempo em que estava feliz, também chorei pela perda de um bebê.

Por isso, hoje penso que o Noah será meu único filho. Quero até fazer laqueadura. Tenho medo de perder outro bebê, e também de ser mãe solo novamente. A maternidade é linda, mas não dá para romantizá-la. O puerpério, por exemplo, é pesado psicologicamente.

"Rede de apoio é fundamental"

Guardei uma calça de menina e uma de menino para os gêmeos. Foi presente da minha mãe, porque a gente tinha quase certeza que seria menina. Até tinha escolhido o nome: Emma. Sempre me pego pensando como ela seria.

Volta e meia me questiono se eu poderia ter feito algo para evitar a perda. Mesmo sabendo que foi a ordem natural das coisas, o cérebro sabota a gente, e me sinto culpada. Tive que aceitar que não foi culpa minha, e aprender a me perdoar. Mas, para isso, busquei ajuda.

Trabalho com soluções de atendimento ao consumidor em uma fintech de pagamentos online, e a empresa prestou todo o apoio psicológico. Minha família sempre foi e é meu suporte para tudo. Tenho uma rede de apoio muito boa.

O pai do meu filho é dependente químico e nunca ajudou em nada. Eu sou a estatística brasileira: mãe preta, solteira, pai ausente. Decidi, depois de muitas coisas que aconteceram na gravidez, que não queria a instabilidade dele próxima ao meu filho.

A dor da perda é insuportável. Mas ainda tem alguém que precisa da sua força e você também precisa de você mesma para seguir em frente. Caso uma mulher que esteja passando por uma situação como essa não tenha suporte familiar, ela deve procurar ajuda psicológica. Apoio é essencial nesse momento. E falar sobre o assunto também ajuda a cicatrizar, mesmo que não cure nunca." Jessika Nascimento, 29 anos, customer experience, de Curitiba (PR)

Mães e filhos