MÃES ARREPENDIDAS

Elas amam seus filhos, mas odeiam tudo o que vem com a maternidade -- e, se pudessem, voltariam atrás

Marcelle Souza Colaboração para Universa Colagem com fotos de Mariana Pekin, Pryscilla K e arquivo pessoal

Aos 28 anos, Karla Tenório sentiu que havia chegado a hora de ser mãe e engravidou de Flor Inaê, sua única filha. Dez anos depois, a atriz e dramaturga sentiu que havia chegado a hora de assumir, publicamente, ser uma mãe arrependida.

Em maio, ela deu um depoimento a Universa falando sobre esse arrependimento e expondo o que não gosta na maternidade. Karla viu que não estava sozinha: recebeu centenas de mensagens de mulheres contando que sentiam o mesmo. E também recebeu ataques em suas redes sociais, com mensagens condenando sua fala — como se o sentimento sobre a maternidade anulasse a possibilidade de amar sua filha.

"Ela é muito amada, a gente conversa bastante sobre o assunto. Minha filha entende que não tem a ver com ela", diz Karla, que vive no Rio de Janeiro.

Os ataques que a atriz sofreu são efeito do tabu envolvendo o tema. Ao invés da imagem da mãe que se doa 100%, que não reclama e só se sente completa ao lado do filho, essas mulheres questionam a falta de tempo, o acúmulo das tarefas de cuidado e as exigências da sociedade para a mulher ser uma "mãe perfeita".

É preciso dizer que arrependimento não significa violência ou abandono. Essas mulheres amam seus filhos, cuidam e são responsáveis por eles, mas sofrem —quase sempre em silêncio— por desejarem nunca terem sido mães

"Arrependimento materno é o descobrir e o sentir que você cometeu um erro ao decidir gestar ou adotar uma criança; é se dar conta de que, para você, todas as dificuldades que acompanham a maternidade não valem a pena", diz a Universa a socióloga israelense Orna Donath, autora do livro "Mães Arrependidas" (ed. Civilização Brasileira), publicado em diversos idiomas.

Universa conversou com cinco mulheres de idades, profissões e cidades diferentes que falam sobre esse lado silenciado da maternidade e afirmam que, se pudessem, voltariam atrás. "Às vezes, eu quero pegar as minhas coisas e ir embora", diz a estudante de Manaus (AM) Kamila*, que preferiu não se identificar.

Como qualquer relacionamento humano, a maternidade contém todos os tipos de emoções, como alegria, tédio, ódio, ciúme, amor, raiva e, sim, também arrependimento

Orna Donath, socióloga israelense, autora de "Mães Arrependidas"

"O que pesa são as obrigações de cuidar de uma criança"

Eu sempre tive muita vontade de expor o que eu sinto em relação à maternidade, mas nem todo mundo entende. Sou uma mãe carinhosa, mãezona. Amo os meus filhos, que é muito sacrificante, para mim, todo o processo da gestação, parto, o puerpério... Eu não acho justo porque tudo fica nas costas das mulheres.

Minhas duas gestações foram traumáticas. O primeiro filho eu tive com 17 anos. Venho de uma família que passou por muita dificuldade financeira, então eu almejava estudar, trabalhar. Quando soube da gestação, senti que aquilo ia acabar com a minha vida, não aceitava. Só consegui continuar estudando e trabalhando porque minha mãe me ajudou muito.

Desde então, tinha muito medo de engravidar de novo e me cuidava, mas aconteceu 15 anos depois. Quando estava grávida, eu sabia que não queria estar vivendo aquilo. Senti uma profunda depressão, acordava de madrugada para chorar de desespero. Depois que o bebê nasceu, me separei e tive que lidar com tudo sozinha, financeira e emocionalmente.

Eu me perguntava: por que eu me coloquei nessa 'prisão' de novo?

Fazer terapia me ajudou muito, mas também foi importante ouvir outras mulheres que se arrependem da maternidade. Depois da segunda gestação, fiz questão de fazer uma laqueadura, para não ter chance de engravidar.

Tive que ressignificar a minha vida. Já me adaptei à rotina com os meus filhos e estou contando o tempo para que o segundo cresça e dependa menos de mim, porque é muito cansativo. O que dói é o fato de ter que se doar por outra pessoa, o tempo que passa e não volta mais.

Então me arrependo, mas isso não tem nada a ver com os meus filhos, o que pesa são as obrigações de cuidar de uma criança.

Cuido deles com muito carinho, mesmo que tenha que abdicar de muita coisa. Eu me acho uma boa mãe, uma boa educadora. E sou grata também à minha mãe, porque, se eu consegui ter uma carreira, foi porque outra mulher me ajudou e abriu mão de muita coisa por mim."

*Patricia Toledo, 33, é bancária e cantora e mora em Jacareí (SP)

Não há cura para o arrependimento materno porque não é uma doença. É preciso aprender a conviver com a ideia de que algo não saiu da forma com que a gente projetou e fazer escolhas a partir disso

Vera Iaconelli, psicanalista, autora do livro "Mal-estar na Maternidade"

"A gente tem a falsa ilusão de que filho só vai trazer alegria"

Um dia desses eu estava refletindo sobre como seria a minha vida sem a minha filha. Sou apaixonada por ela, por cada sorriso seu, mas eu me sinto estagnada. Eu me arrependo de ter me tornado mãe.

Eu sempre desejei a maternidade, mas quando soube que estava grávida foi um choque, um período muito difícil. O pai dela me abandonou, e eu comecei a me sentir muito sozinha. Mesmo assim, nunca pensei em interromper a gestação.

Na maior parte do tempo, quem cuida da minha filha é a minha mãe, porque eu trabalho e estudo, é muito cansativo. Quando eu teria um tempo para mim, preciso cuidar dela. Não consigo sair com amigos, estou solteira desde que ela nasceu. Eu me esforço muito para dar atenção e o melhor para ela, mas me sinto muito sobrecarregada. Sou muito criticada pela minha mãe que não me acolhe nem entende que estou fazendo o melhor que posso.

A gente tem a falsa ilusão de que filho vai trazer alegria, mas ninguém fala dos problemas, do emocional, que seus amigos vão sumir, que você não vai ter apoio. Eu não posso sair à noite nem mesmo tomar uma cerveja, porque [vão me chamar de] 'uma mãe bêbada'. Uma vez, atrasei meia hora para dar um remédio e escutei que era uma 'mãe ruim'. Essas pequenas coisas me magoam muito.

Nunca tive acompanhamento psicológico, mas toda vez que eu falo sobre isso é muito difícil, tenho vontade de chorar. Eu sinto falta da minha vida de antes, de morar sozinha, da minha independência financeira. Nas redes sociais, eu encontrei outras mulheres que têm o mesmo sentimento e me sinto acolhida, percebo que não sou a única.

Eu não quero ser uma mãe perfeita, porque isso não existe. Eu me estresso todos os dias, mas quero que a minha filha cresça e seja independente. Ao mesmo tempo que sou uma mãe arrependida, é a minha filha de quatro anos que me dá forças para continuar, porque quando ela me dá um sorriso, ilumina o meu dia.

* Kamilla* (nome fictício), 29, é estudante e vive em Manaus (AM)

"Demorei para entender que eu não tinha um 'defeito'"

Tenho 56 anos e fui mãe aos 24. Naquela época, a maternidade parecia uma 'floresta encantada'. As pessoas esperam que você esteja muito feliz, mas às vezes isso é uma mentira. Eu não gostei nem da gravidez nem do parto.

O que me incomoda é alguém precisar de mim 24 horas por dia, não ter paz para ler um livro, fazer minhas coisas. Aquela coisa de doação absoluta. Descobri que não nasci para isso e demorei um tempo para entender que eu não tinha um defeito, só não sou aquela mulher que faz da maternidade o seu objetivo de vida.

Até a minha filha ter três anos, ela ficava o tempo toda colada em mim e aquilo me sufocava. Quando ela me deu um respiro, eu desabei. O médico me disse que eu tinha segurado aquele sentimento por muito tempo e, naquele momento, veio tudo à tona. Naquela época, não tinha muito tratamento, não se falava no assunto [depressão]. Sozinha, aprendi que isso não era errado, que eu só era diferente de outras mães.

Quando eu coloquei a minha filha na escolinha, aos cinco anos, algumas mães ficaram chorando na porta da escola, e eu fui dar uma volta na cidade, aproveitar o meu tempo. Foi um momento libertador.

Eu sinto que cuidar, dar comida, dar banho, isso são coisas que qualquer um pode fazer. A parte interessante era educar, conversar com ela, transmitir as coisas que eu acredito, o meu sentido da vida. Nesse momento, eu me sentia realmente mãe.

Quando minha filha fala em ter filhos, eu respondo que vou ser avó de foto, vou dizer que é bonitinho, mas ela é quem vai cuidar. Eu não vou ser esse tipo de avó que assume o papel de mãe. Se quisesse mais crianças, eu teria tido mais filhos.

E tinha muita pressão para ter outro, ouvia: 'Você não vai dar um irmãozinho para ela?'. Sou casada há 33 anos e ele também nunca quis ter outro filho.

Se pudesse voltar no tempo, eu escolheria não ter sido mãe. Isso não se muda, eu sei, então tive que me resolver. Eu posso não ser uma mãe padrão, mas amo minha filha, que hoje tem 33 anos, e sou a melhor mãe que pude ser.

*Rita de Cassia Giobom, 56, taróloga, vive em São Paulo (SP)

"Não consigo mais me calar. Não sou a única e quero compreensão"

Sou mãe solo, estou desempregada desde que voltei da licença-maternidade e minha filha tem síndrome de Down. Acho que o arrependimento é um sentimento de muitas mulheres e hoje eu não consigo me calar. Não sou a única, não sou uma 'fruta estragada'.

A única coisa que quero é compreensão, que me respeitem, porque o que eu sinto é meu, não é com a minha filha. Só que a sociedade não está preparada para esse assunto, existe um certo tabu e esse é um longo debate.

A descoberta da gravidez foi uma notícia traumática para mim. Eu já tinha mais de 40 anos e engravidei de uma relação casual, de uma preliminar, de um único encontro. O pai nunca quis conhecer a filha, faltou no dia do teste de DNA e até hoje brigo na Justiça para ela ter o que é de direito. Mas, mesmo que o contexto fosse diferente, penso que, ainda assim, seria uma mãe arrependida.

Já na maternidade, eu pirei e tive que ter acompanhamento psicológico. Desde essa época, eu dizia que não estava feliz, que não me encaixava no papel de mãe e de dona de casa.

Sempre fui muito independente e hoje a minha vida é a vida dela. Só queria sentar no sofá e assistir à televisão, mas não posso ter paz. Queria ter a minha vida de volta.

É doloroso para mim ser mãe. Eu luto contra esse sentimento, quero gostar da maternidade, mas não consigo. As pessoas falam que vou me acostumar, mas já se passaram cinco anos e nada mudou.

O arrependimento não é porque a minha filha tem síndrome de Down, mas é algo que pesa. É uma rotina cansativa, de cuidados, médicos e terapias. E eu tenho que fazer tudo isso sozinha.

Quero deixar claro que o arrependimento não tem nada a ver com o que eu sinto por ela. Tem dias que eu acordo irritada, ela sai da cama e me chama. Nessas horas, eu sinto algo que não tem explicação. É impossível não amar, não desejar o bem para um ser tão inocente.

Minha filha é fofa, maravilhosa, fico feliz em ver o seu desenvolvimento e suas descobertas. Só que a maternidade é um papel péssimo para mim.

*Lucineia Pires, 46, assistente jurídica, mora em Campinas (SP)

Ela tem duas filhas

"Não venha me dizer que arrependimento é falta de Deus"

Nunca quis ter filhos, mas me casei cedo e a sociedade cobra. Maternidade é renúncia, anulação, privação. Você perde a sua identidade. Eu não sou mais a Klebia, sou mãe de duas meninas: Kiria, de 17 anos, e Lívia, de 6.

Apesar disso, eu não sei ser uma mãe pela metade, sou mãe inteira, faço o meu melhor e a carga acaba sendo muito pesada. Sou mãe todas as horas, até no meu subconsciente, sou mãe até no banheiro, porque não tenho mais privacidade.

Eu percebi que tinha cometido um erro quando estava terminando a faculdade. Eu era uma aluna excelente, mas meu trabalho de conclusão de curso ficou muito ruim. O professor então me perguntou: 'O que aconteceu?' Eu disse que tinha virado mãe. No dia da minha formatura, eu chorava, era mistura de felicidade e raiva. Foi naquele dia que me arrependi.

O lado profissional também pesa muito. Se não tivesse filhos, estaria em uma empresa maior, talvez em outra cidade. É difícil que alguém queira te contratar sabendo que você tem duas filhas e é divorciada. Já tive que mentir em entrevista de emprego.


Então, eu sinto que perco mais do que ganho com a maternidade. Minhas filhas morrem de amores por mim e eu, por elas, mas não ligaria se quisessem passar um tempo com os pais.

Muita gente me discrimina porque eu digo que sou uma mãe arrependida, mas eu decidi não me importar e ir em busca da minha felicidade. Eu já sofri, mas hoje não sofro mais por isso. Sou mãe solo e financeiramente estou bem resolvida.

Sou católica e rezo sempre com as minhas filhas. Então não me diga que arrependimento é falta de Deus. O meu Deus não quer ninguém triste, quer que a gente viva em paz, feliz.

*Klebia Lima dos Santos, administradora de empresas, mora em Feira de Santana (BA)

Arrependimento pode acontecer em qualquer relação humana

O reino mítico da maternidade

A psicanalista Vera Iaconelli explica que a gente se arrepende quando reconhece que aquilo que aconteceu é diferente do que havíamos projetado -- daí gostaríamos de voltar atrás e fazer diferente. O arrependimento, diz, é um sentimento comum a diversas áreas da nossa vida, mas, então, por que é um tabu quando se fala de maternidade? Para Orna Donath, o problema é que esses relatos questionam o "reino mítico" da maternidade, como se tratasse de uma relação sagrada, intocável para a nossa sociedade. "Como qualquer relacionamento humano, a maternidade contém todos os tipos de emoções, como alegria, tédio, ódio, ciúme, amor, raiva e, sim, também arrependimento", diz a autora israelense. No caso das mães, é como se elas só pudessem sentir amor e satisfação dentro desse papel, mesmo que não estejam felizes, mesmo que não queiram abrir mão do seu tempo e dos seus planos pelos filhos. "A gente vive um culto da pessoa que vira mãe e perde a dimensão da complexidade dessa experiência, que afeta vidas concretas e está associada a expectativas sociais, hormônios e aspectos psicológicos", diz a antropóloga e advogada Bruna Angotti.

E como ficam os filhos?

Ao assumirem o arrependimento da maternidade, é comum que essas mulheres sejam questionadas sobre a relação com os filhos. Nesta reportagem, as mães disseram que amam suas crianças e que o arrependimento como algo que não está relacionado aos filhos, à personalidade deles ou a seus comportamentos. Em alguns casos, inclusive por culpa, disseram que se dedicam ainda mais aos cuidados diários, causando episódios de estresse, exaustão e depressão. Mas como ficam as crianças de mães arrependidas? A psicanalista Vera Iaconelli diz que não há prejuízo direto associado ao arrependimento materno. "Rejeitar a maternidade não é exatamente rejeitar a criança. A relação entre mãe e filhos inclusive pode ser maravilhosa", explica. Ao contrário, afirma a psicanalista, uma conversa franca e sincera permite que os pequenos sejam poupados e não sejam culpabilizados pelo sentimento da mãe. "Um bom grau de honestidade pode dar o sentido real do que é essa experiência da maternidade, pode ser um ganho na relação, porque a idealização também traz muitos sintomas."

Elas compartilharam sentimento com outras mães por meio do teatro

A atriz Karla Tenório, que, no início desta reportagem, falou sobre o tempo que levou para assimilar e "sair do armário" e usou essa experiência para estrear a peça online "Mãe Arrependida" no fim de 2020 e criar um perfil no Instagram com o mesmo nome.

Escrita pela própria Karla, a produção é inspirada nas vivências da atriz, mas também em trechos do livro da israelense Orna Donath e em narrativas de outras mulheres. "A ideia é que o espetáculo e a página [no Instagram] sejam uma porta de entrada para esse movimento de mães arrependidas, para que a gente se encontre, se conheça e que consiga soltar esse sofrimento, especialmente na pandemia", diz ela.

Outra peça virtual sobre o mesmo tema que estreou no último ano é "Mãe-de-Ninguém", do grupo Yonis Magníficas, que também tem inspiração no livro de Orna Donath. Na peça, a plateia é convidada a refletir sobre quão natural é o desejo da maternidade e as opressões vividas pelas mulheres.

"As mães se sentem acolhidas, porque veem que cada uma tem a liberdade de lidar com a maternidade do jeito que pode. As não mães são convidadas a entrar em contato com o seu desejo genuíno sobre ter filhos ou não. Além disso, todos vamos olhar para as nossas mães como indivíduos em sua complexidade", diz Joana Lerner, atriz e uma das diretoras da peça.

CVV atende em casos de pensamentos suicidas

Quem tem pensamentos suicidas ou está com depressão, entre outras dificuldades relacionadas à saúde mental, e precisa de apoio emocional, pode ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188, 24 horas por dia. O atendimento também pode ser feito por chat no site da entidade e por e-mail. Existem ainda os prontos-socorros psiquiátricos, que podem ser especializados ou funcionar em hospitais gerais.

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