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'Annalise Keating brasileira' conta sua história: 'Estudo mudou minha vida'

Fayda Belo acumula seguidores no TikTok falando sobre crimes - Reprodução / Internet
Fayda Belo acumula seguidores no TikTok falando sobre crimes Imagem: Reprodução / Internet

Fayda Belo em depoimento a Ana Bardella

De Universa

07/01/2022 04h00

Por trás do perfil da advogada Fayda Belo, que acumula 783 mil seguidores no TikTok, existe uma história de superação. Especialista em crimes de gênero, direito antidiscriminatório e feminicídios, ela ganhou notoriedade nas redes sociais ao postar vídeos comentando, com uma linguagem simples, mas de forma enérgica, sobre casos que estão em alta no Brasil.

Graças ao conteúdo que produz, a advogada passou a ser comparada com a personagem Annalise Keating, interpretada pela atriz Viola Davis na série norte-americana "How To Get Away With Murder", que é professora de direito criminalista. Antes de chegar a esse patamar, no entanto, Fayda, de 40 anos, passou por muitas dificuldades.

Nascida na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no interior do Espírito Santo, ela teve a família abandonada pelo pai, quando tinha apenas 2 anos. A partir do evento traumático, sua mãe passou a manifestar sintomas de uma doença psiquiátrica. Com ajuda de parentes, vizinhos e, principalmente, professores, Fayda conseguiu encontrar seu caminho através dos estudos.

A seguir, ela conta sua história:

"Minha mãe estendia uma caneta e dizia: 'é isso o que vai mudar a sua história'

"Uma das memórias mais marcantes da minha infância é ouvir minha mãe gritando. Ela passou anos internada em uma clínica psiquiátrica e, pelas manhãs, aparecia na janela chamando por mim e pelo meu irmão. Nós, que morávamos perto, íamos correndo pela rua até o portão da clínica. Então, lá de cima, ela jogava o pão que recebia para que pudéssemos comer de café da manhã.

Minha mãe era uma mulher lúcida, que chegou a trabalhar ajudando nas atividades de um escritório. Era religiosa: casou virgem e só tinha olhos para o meu pai. Abdicou dos estudos e do trabalho em nome da família. Ele, no entanto, foi o motivo pelo qual ela perdeu completamente a razão.

Quando meu irmão e eu estávamos com 4 e 2 anos, respectivamente, meu pai vendeu a casa onde morávamos sem comunicar ninguém. Simplesmente pegou o dinheiro e foi embora, deixando a família desabrigada.

O desespero da minha mãe ao ver nossa situação foi tanto que entrou em surto. Logo em seguida, ela foi diagnosticada com esquizofrenia e precisou ser internada. Ao todo, passou mais de cinco anos na instituição.

Enquanto isso, eu e meu irmão vivíamos pulando de casa em casa. Como nossa família tinha as residências próximas uma da outra, ora estávamos com minha vó, ora com a minha tia — e às vezes com alguma vizinha. Nossa rotina foi assim até que eu completasse 7 anos, época em que ela teve alta da clínica. A partir de então, fomos viver em um cômodo nos fundos da casa da minha avó.

Durante o período em que ela esteve internada, mantivemos contato e fazíamos visitas frequentes. Mesmo com os delírios, nunca deixou de se preocupar conosco. Foi a melhor mãe que conseguiu ser, sempre incentivando que nos dedicássemos aos estudos e não nos envolvêssemos com drogas. Ela costumava estender uma caneta para mim e dizer: 'É isso o que vai mudar a sua história'.

Após voltar para casa, conseguiu se aposentar por invalidez, mas o dinheiro que recebia era pouco. Normalmente, só conseguíamos comprar um tipo de carne, que era frango, uma vez por mês. Logo eu e meu irmão começamos a trabalhar, para ajudar na casa.

Aos 11 anos, comecei a fazer faxina em troca de roupas ou de mantimentos — sem jamais parar de me dedicar aos estudos.

"Engravidei aos 15 e precisei deixar os estudos"

Aos 15 anos, minha vida mudou novamente. Minha mãe estava em casa e, por engano, tomou seus remédios em dose duplicada, em um intervalo curto de tempo. Por causa disso, começou a passar mal e nós a levamos para o hospital. Com todos os leitos de UTI ocupados, ela foi colocada em uma maca simples. Ali, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu.

Foi como se meu mundo acabasse, porque, aos meus olhos, ela era uma heroína. Em meio a essas emoções, me envolvi com um rapaz, achando que iria viver um grande amor. Pouquíssimo tempo se passou e engravidei. O choque foi tremendo, porque sabia que, se ele não cumprisse com as suas responsabilidades, eu precisaria deixar os estudos e buscar um trabalho. Era o meu sonho de estudar indo embora.

Foi exatamente isso o que aconteceu. Vivemos juntos por um período — o suficiente para que eu tivesse mais um filho, aos 18 anos — mas a relação era conturbada. Ele não permitia que eu frequentasse a escola, nem trabalhasse. Fui agredida e traída. Diante disso, decidi ficar com as crianças e me separar.

Trabalhei como agente funerária, vendedora de rua e diversos outros empregos, até que finalmente consegui me estabilizar quando ingressei para uma empresa de grande porte, aos 21 anos.

Assim que me deparei com a oportunidade, contratei uma pessoa para olhar meus filhos e completei o ensino médio. Naquela época, nem pensei em continuar, pois não tinha dinheiro suficiente para ingressar em uma faculdade. Conquistar um diploma superior parecia algo impossível para mim.

"Negra e pobre, ingressei na faculdade sabendo que precisaria me esforçar o dobro"

Depois de engravidar, Fayda pensou em desistir dos estudos - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Depois de engravidar, Fayda pensou em desistir dos estudos
Imagem: Reprodução / Instagram

Aos 24 anos, conheci meu atual marido. Nossa relação se desenvolveu de forma rápida: com oito meses, já estávamos vivendo juntos. Ele, então, sugeriu que eu realizasse o sonho de me tornar uma advogada. Minha primeira reação foi perguntar se ele estava louco. Como não existem universidades públicas na minha cidade, eu precisaria me mudar. Ou então, pagar pelos meus estudos.

Entrei em contato com uma antiga professora, que me ajudou muito no passado. Ela adorou a novidade e me incentivou a prestar o Enem, pois assim eu poderia ingressar em uma faculdade particular como bolsista, através do Prouni.

Não satisfeita em me informar sobre os caminhos, ela me ofereceu aulas gratuitas, para que eu tivesse mais chances de conseguir.

Foi graças ao treinamento que ela me ofereceu que eu consegui uma boa nota e passei. Quando recebi a notícia, choramos muito. E foi no momento em que sentei pela primeira vez na carteira da sala de aula que eu soube: dali para frente, nada mais poderia me parar.

Fayda contou com ajuda de familiares e professores - Reprodução / internet - Reprodução / internet
Fayda contou com ajuda de familiares e professores
Imagem: Reprodução / internet

Bastaram algumas semanas de aula para que eu me destacasse como aluna. Ciente de que sou negra e pobre, já ingressei na turma sabendo que eu precisaria me esforçar o dobro ou mais para que não me tornasse só mais uma no mercado de trabalho. Por isso, além das atividades básicas, comecei a assumir outras responsabilidades como estudante.

Enquanto a maior parte dos meus colegas se divertia nos bares, organizei um evento jurídico chamado Encontro Capixaba de Direito (ECAD), que logo se tornou o maior do estado. Consegui reunir alguns dos maiores nomes da área para discutir temas de relevância nacional.

Deixei meu emprego CLT para assumir o cargo de estagiária com um dos meus professores — apesar de ouvir de muitos conhecidos que estava ficando louca, já que o salário era muito menor. Não me arrependi nem por um segundo: lá, procurava absorver o máximo de informações que conseguia e, assim, passei no exame da OAB um ano antes de receber meu diploma.

Assim que me formei, abri meu próprio escritório, já com fila de clientes para serem atendidos. Hoje, só faço o que eu gosto: atendo vítimas de racismo, homofobia e mulheres que sofreram algum tipo de agressão ou estupro.

"Vi uma menina falando besteiras sobre um assunto jurídico no TikTok e resolvi gravar um vídeo explicando"

Um dia, estava brava com o meu marido, que iria se atrasar para um compromisso, e resolvi abrir o TikTok. Vi uma menina se pronunciando sobre um assunto jurídico, dizendo um monte de besteiras. Fiquei tão revoltada que apertei o botão e comecei a explicar o por que aquilo era absurdo. Depois de postar, vi que a coisa explodiu. O povo estava ansioso por aprender sobre direito de uma forma simples, clara e alegre.

Percebi que poderia usar a minha voz para falar sobre temas importantes.

Sou uma mulher preta, filha de mãe solo, que cresceu em um bairro muito pobre e que viu na educação um instrumento para virar a chave da vida.

Hoje eu quero ser um instrumento para ajudar os outros. E tem dado certo: recebo uma chuva de directs, e-mails e outras mensagens de seguidores dizendo que conseguiram aprender mais sobre seus direitos graças aos meus conteúdos. Se tenho certeza de uma coisa, é de que a minha mãe estava certa: a caneta muda a vida e a história das pessoas.

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