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Minha história

'Aos 27 anos, descobri que meu padrasto é meu pai biológico'

Diana sempre morou com o padrasto, mas não desconfiava que ele poderia ser seu pai - Acervo pessoal
Diana sempre morou com o padrasto, mas não desconfiava que ele poderia ser seu pai Imagem: Acervo pessoal

Diana Geniath, em depoimento a Ana Bardella

De Universa

03/12/2021 04h00

"Pouco antes de completar 27 anos, tive um sonho bastante sem sentido. Eu estava no universo. Ali, uma galáxia disse para mim: 'Você não é filha do seu pai. É filha de uma 12ª experiência alienígena que deu certo'. Eu acordei primeiro assustada, depois comecei a dar risada.

É claro que não existia alienígena algum: eu sabia muito bem quem era o meu pai. No entanto, no dia seguinte, contando sobre esse sonho maluco para a minha família, tudo mudou. Estávamos na sala e, na hora, meu padrasto cochichou para a minha mãe: 'O alienígena pode ser eu'.

Quando ouvi aquilo, fiquei incrédula e comecei a pressionar até que eles confessassem. Existia uma chance remota de o meu pai biológico não ser quem eu pensava até então —mas, sim, meu próprio padrasto, com quem eu havia convivido por anos sem desconfiar de nada.

'Fui concebida em um casamento de idas e vindas'

É impossível entender como tudo aconteceu sem levar em conta o contexto e a história de vida das pessoas envolvidas. Aos 23 anos, minha mãe engravidou de mim. Na época, ela já estava casada havia seis anos, mas seu relacionamento era bastante conturbado, marcado por violências. Por causa disso, ela e o marido estavam sempre rompendo e reatando a relação.

Ela era uma jovem bastante simples: morava em uma fazenda que ficava na beira da estrada. Durante uma das fases de término do seu casamento, conheceu outro homem, em uma lanchonete que ficava próxima a sua casa. Ele trabalhava como motorista de ônibus de excursão.

Os dois ficaram juntos uma vez, mas logo em seguida minha mãe retomou o casamento. Um tempo depois, começou a sentir alguns enjoos e descobriu que estava grávida. Sem conhecimento sobre educação sexual, nem sobre o funcionamento do próprio corpo, sequer cogitou a possibilidade de o bebê ser do homem que havia conhecido anteriormente.

Durante a gestação, o relacionamento passou por mais um momento de crise. Ela retomou o contato com o motorista do ônibus e os dois se apaixonaram. Mesmo com o aviso de que estava grávida do ex-marido, ele propôs que os dois ficassem oficialmente juntos. Então, se casaram. Com isso, cresci convivendo com os dois homens desde meu nascimento, mas acreditando que era fruto do primeiro casamento da minha mãe.

'Quando minha irmã nasceu, me senti excluída'

Diana e o padrasto foram próximos durante os seus primeiros anos de vida - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Diana e o padrasto foram próximos durante os seus primeiros anos de vida
Imagem: Acervo pessoal

Fui muito próxima do meu padrasto até os quatro anos. Depois disso, minha irmã nasceu e nossa relação mudou bastante. Eu, aos poucos, ganhei a consciência de que não era filha dele.

Ela foi a primeira neta mulher da família paterna, então sua chegada foi um alvoroço. Como seus parentes tinham condições financeiras melhores do que os meus, ela estudou em escolas diferentes, teve auxílio na época da faculdade e viajou para lugares para os quais eu não pude ir.

Enquanto isso, meus pais, separados, brigaram algumas vezes pela minha guarda, mas sempre deixei claro para os juízes que eu preferia morar com a minha mãe. Visitava a família paterna esporadicamente, era bastante próxima de alguns primos e tinha meios-irmãos com quem convivia. Com o passar dos anos, no entanto, mudei de cidade e nosso contato diminuiu.

Ao chegar na adolescência, passei a bater de frente com meu padrasto. Consciente de que eu não tinha as mesmas condições que a minha irmã, comecei a trabalhar aos 14 anos. Não gostava de dar satisfações sobre aonde ia, nem sobre o que fazia. Almejava a minha independência desde cedo e dizia, em todas as oportunidades, que ele não era o meu pai.

Passada essa fase de rebeldia, consegui concluir minha faculdade e me casei. Com a maturidade da vida adulta, nossa relação foi se tornando mais harmoniosa.

'Ao saber da verdade, entrei em choque'

Após contar sobre o meu sonho e saber da possibilidade de ter crescido acreditando em uma informação falsa, decidi fazer um teste de DNA. Peguei os resultados dois dias antes de completar 27 anos: quis fazer isso antes do meu aniversário porque a ansiedade não me permitiria esperar.

No momento em que abri e vi que havia 99,9% de compatibilidade entre mim e meu padrasto, precisei pedir ajuda a um funcionário do laboratório. Pensei que poderia estar interpretando a informação da maneira errada, mas não havia dúvidas. Ele é meu pai biológico.

Naquele dia, eu estava cheia de compromissos de trabalho, então segui com minha rotina. Mas no momento em que fiquei de frente para o espelho, no provador, antes de começar uma sessão de fotos como modelo, a ficha caiu. Meus antigos parentes não tinham relação sanguínea alguma comigo. Enquanto isso, havia uma família inteira que não sabia da minha existência enquanto parente deles e que eu mal conhecia.

Diana e começou a perceber as semelhanças físicas com seu pai biológico - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Diana e começou a perceber as semelhanças físicas com seu pai biológico
Imagem: Acervo pessoal

Precisei de algumas semanas isolada para processar tudo isso. Até a questão da imagem foi difícil, porque sempre me considerei parecida com o homem que eu passei a chamar de pai afetivo, mas agora via semelhanças inacreditáveis entre mim e meu padrasto, que passei a chamar de pai biológico.

Uma descoberta com consequências

A primeira pessoa para quem contei foi um "meio-irmão", de quem era mais próxima. Foi ele quem levou a informação para meu pai afetivo.

Alguns dias depois, enviei uma mensagem a ele dizendo que nada tinha mudado, que o amava e que ele continuaria sendo meu pai. Recebi uma resposta no mesmo teor. Apesar disso, nossa comunicação, que já era escassa, se tornou quase inexistente.

Em razão do impacto da descoberta, passei a ter crises de pânico e de ansiedade. Precisava de um tempo para mim, por isso me mudei de cidade. Ainda assim, meu pai biológico se esforçou para nos aproximarmos e fez questão de que eu viajasse para Brasília, a fim de ficar alguns dias próxima das pessoas que são minha família de sangue.

Cheguei cheia de receios, mas todos me receberam extremamente bem: dos tios e primos, até a minha avó. A sensação que tive foi de relaxamento, como se agora estivesse em casa.

Ali entendi que muitas das minhas dores não vinham dos recursos materiais aos quais eu não tive acesso e minha irmã teve. Pelo contrário, eu sentia falta da proteção e do suporte.

Enquanto isso, minha mãe se culpou muito. Ela pediu desculpas inúmeras vezes —sem necessidade, porque já está perdoada. Faço pós-graduação em direito feminista e entendo seu contexto de violência e a falta de conhecimento sobre o corpo na época.

É claro que na hora senti muita raiva, mas analisei muito a situação e não gosto de viver com mágoas. Por isso perdoo todos os envolvidos e sou grata pelo meu sonho e por ter descoberto isso agora. Com certeza, teria sido muito pior se eu nunca tivesse conhecimento da verdade." Diana Geniath, 27 anos, modelo, de João Pessoa (PB)

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