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Minha história

'Paguei a faculdade com o salário de gari e hoje tenho meu próprio negócio'

Cleide Campos é formada em letras, já trabalhou como gari e atualmente tem o próprio ateliê de unhas - Arquivo pessoal
Cleide Campos é formada em letras, já trabalhou como gari e atualmente tem o próprio ateliê de unhas Imagem: Arquivo pessoal

Cleide Campos, em depoimento a Ed Rodrigues

Colaboração para Universa

19/10/2021 04h00

"Desde cedo percebi que precisaria me superar se quisesse ter uma vida com menos dificuldades. Isso me motivou em todas as minhas decisões. Sou formada em letras, mas também já trabalhei como gari e atualmente tenho meu próprio ateliê de unhas. E cada face dessa multiprofissional que sou me lembra que precisamos nos reinventar sempre que a vida nos exigir.

Minha infância foi na simplicidade, mas cheia de amor e de afeto. Sou natural de Arcoverde, cidade do sertão pernambucano. Nunca tive presentes caros. Meu avô já falecido sempre improvisava brinquedos para mim. Tive desejos normais de criança que nossa condição financeira familiar não pôde me proporcionar, como comer biscoitos caros quando ia ao mercado.

Algumas vezes fui para a roça com meus pais adotivos. Eles são agricultores e eu brincava bastante na roça de feijão e milho. Estudava em uma escola próxima à minha casa e muitas vezes o melhor horário para mim era a merenda. As necessidades financeiras eram grandes e, na época, eu nada entendia. Minha maior recordação é da minha mãe sempre forte mesmo diante das maiores tempestades.

Eu tinha dois anos de idade quando minha mãe biológica me deixou com meus pais. E desde então fui tratada com muito carinho e sem distinção. Tenho quatro irmãos. Por ser a caçula, algo que nunca me faltou foi amor.

Cleide Campos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A pernambucana Cleide Campos
Imagem: Arquivo pessoal

Algumas pessoas conhecidas da minha família falavam que eu não sobreviveria por causa de problemas de saúde. Sofri minha infância quase toda com crises de asma. Minha mãe passou muitos dias comigo internada no hospital Regional de Arcoverde.

Falar que sou adotada não é algo que me incomoda. Pelo contrário, tenho muito orgulho dos meus pais. No entanto, me rendeu aborrecimentos na escola. Algumas vezes, as meninas que estudavam comigo e minhas vizinhas me excluíam das brincadeiras e quando estavam aborrecidas diziam que eu não tinha mãe e que fui achada no lixo. Isso dói até hoje, mas procuro me lembrar das coisas boas.

Aos 12 anos, comecei a vender picolé. Juntava as moedas para comprar caderno, lápis e as coisas da escola. Meu pai conseguiu um emprego e fiquei muito feliz porque foi a primeira vez que comprei uma sandália na feira. Ele recebeu e me levou junto com minha irmã para comprar.

Trabalhei em casa de família também, mas meu irmão pediu que eu saísse e que me concentrasse nos estudos.

Fiz isso e passei a ajudar mais minha mãe com as coisas da casa. Aos 16 anos, arrumei emprego em uma escolinha aqui perto. Eu ajudava a professora com crianças de três anos e isso para mim foi maravilhoso. Cursei o magistério e fiquei apaixonada pela educação.

Logo em seguida iniciei meu primeiro relacionamento acreditando que era a possibilidade de uma vida melhor. Saí da escolinha e fiquei só em casa cuidando do ex-marido. Não foi como eu pensei. Muitas vezes ia fazer feira e nada podia comprar. Resolvi então fazer unhas para arrumar dinheiro e comprar itens de primeira necessidade.

Depois fui chamada para substituir professores e fiquei muito feliz, pois tudo iria melhorar; eu ajudaria meus pais e teria um dinheiro para mim.

Busca por independência

Também trabalhei como sacoleira. Fiz de tudo um pouco na busca pela minha independência financeira. Quando meu casamento acabou, voltei para a casa de meus pais sem nada, só com minhas roupas. E as dificuldades financeiras continuaram.

Só que agora eu já não era mas uma menina e já entendia. Então comecei a procurar trabalho até um dia ouvir que uma empresa estava contratando. Fui à prefeitura e quando cheguei lá era a empresa de limpeza urbana.

Cleide Campos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária Cleide Campos na época em que trabalhava como gari
Imagem: Arquivo pessoal

Essa história ocorreu na mesma época em que passei no vestibular de uma faculdade particular para o curso de letras. Eu havia passado o ano anterior juntando dinheiro e consegui os R$ 90 para pagar a taxa do vestibular.

'Trabalho de homem'

A empresa de limpeza urbana me daria a oportunidade de entrar na faculdade. Mas quando cheguei lá e disse que estava à procura de emprego, me disseram para esperar por algo melhor e que aquele serviço era pesado e para homens.

Mas eu precisava pagar minha faculdade e me posicionei com veemência. Olhei para o recrutador e disse que não tinha medo de trabalho, que nunca tive na verdade, que havia trabalhado na roça com meus e pais e que tinha disposição e determinação para enfrentar qualquer ocupação.

Ganhei a vaga. Voltei para casa dos meus pais feliz e já sabendo que começaria no dia seguinte. E foram dias difíceis, de cansaço e muito serviço pesado. Mas o sonho de fazer minha faculdade foi maior.

Paguei a faculdade com o salário de gari. Com esse salário também ajudei meus pais. As coisas começavam a dar certo.

Trabalhei como gari porque vi ali uma oportunidade e a agarrei. Não pensei duas vezes. Foi a solução dos meus problemas.

'Falei que era gari e perdi amigos'

Muitas pessoas não conseguem enxergar um planejamento de vida de forma clara. Acredito que elas pensem que, se você é humilde, deve aceitar sua condição e pronto. Ouvi muito de pessoas próximas: 'Faz faculdade para quê, se está varrendo rua?'.

Outras, tentam humilhar você por causa do trabalho. Tinha gente que jogava lixo no chão para eu pegar e ria. Me chamaram de burra e me mandaram estudar.

Na faculdade, tinha vários amigos e um dia, em uma roda de conversa, falei que era gari. Perdi os amigos.

Ter as rédeas da sua vida nas mãos incomoda muita gente. Alguns por não terem a coragem para fazer a mesma coisa. Outros, por quererem ter controle sobre você, como em alguns relacionamentos abusivos.

Minha determinação me afastou de relacionamentos. Muitos homens não querem que as mulheres se destaquem. Inclusive meu casamento acabou quando procurei sair da minha zona de conforto e crescer. Tem que haver cumplicidade no relacionamento. Os dois têm que andar alinhados.

'Deixei de ser gari e me tornei professora. Foi um momento mágico'

Me formei e fui trabalhar na área. Foi um momento mágico. Deixei de ser gari e me tornei professora. Até a forma das pessoas me tratarem mudou. Me impressiono com isso até hoje. As pessoas julgam muito.

Ser professora foi uma missão de levar amor e carinho aos pequenos. Mas veio a pandemia e os contratos foram cancelados. Fiquei sem emprego e com as contas para pagar, parcela da casa e tudo mais.

O segmento das unhas para mim era um hobby que me ajudava, mas na necessidade vi a possibilidade de ir além. Conversei com Deus desesperada e disse: Deus, se o Senhor me ajudar, eu vou investir nessa carreira e quero ajudar outras mulheres. E as coisas foram acontecendo.

Cleide Campos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cleide Campos: 'Decidi repassar o conhecimento a outras mulheres para que elas busquem independência'
Imagem: Arquivo pessoal

Surgiu a oportunidade de um financiamento no tempo de pandemia, então resolvi deixar o medo e lutar pelos meus sonhos.

Observei várias mulheres de minha comunidade que muitas vezes queriam somente que alguém escutasse o desabafo delas. Gente com a autoestima baixa devido a relacionamentos abusivos.

Decidi que além de empreender queria transformar vidas. Me transformei em uma Educadora Master (posso dar cursos na área com certificação) para poder repassar o conhecimento a outras mulheres para que elas busquem independência. E abri meu próprio ateliê de unhas.

O reconhecimento já chegou. Atualmente, na cidade de Caruaru, recebi o prêmio de profissional destaque de sucesso 2021 em plena pandemia. O segredo para vencer é deixar o medo de lado, pois o medo nos paralisa.

As críticas devem ser esquecidas, pois você é quem conhece suas dores e seus sonhos. Sempre se questionar. Vale a pena lutar por eles? Essa é a vida que eu quero?

Muitas mulheres não conhecem a força que têm porque levam em consideração medos e se preocupam com o que a sociedade vai pensar. No entanto, nós podemos tudo. Basta vencer os limites, ter fé e sabedoria. Minha história de vida é a prova de que nada é impossível."

Cleide Campos, 32 anos, é formada em letras e já trabalhou como gari. Atualmente tem seu próprio ateliê de unhas e pode dar cursos com certificação para ajudar outras mulheres.

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