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Paula Mattos: 'Terapia me ajudou muito a falar de minha orientação sexual'

A cantora Paula Mattos é natural de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul - Elektra
A cantora Paula Mattos é natural de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul Imagem: Elektra

Júlia Flores

De Universa

28/08/2021 04h00

"Minha bandeira é o amor" é o mantra repetido pela cantora Paula Mattos ao falar sobre a sua orientação sexual. Casada há 9 anos com uma mulher, ela só tornou público o fato de ser lésbica em 2020 —"depois de muita terapia".

Desde que se casou com "o amor de sua vida", Paula mora em São Paulo —ela nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A cidade onde se conheceram e a cor do cabelo, preto, são as únicas informações que a cantora revela sobre a esposa.

Por que? "Ela é tímida, não gosta. A pessoa pública sou eu", explica a sertaneja, que reúne mais de 16 milhões de players em sua faixa mais reproduzida no Spotify, o cover de "Que Sorte a Nossa".

Nos últimos tempos, com isolamento e pandemia, Paula fugiu da cidade grande para passar um tempo "no interior", produzindo músicas novas e também para cuidar de si mesma e de sua saúde mental.

A cantora teve crises de ansiedade, muito por conta de ter que interromper a carreira em um momento de crescimento. Ela procurou inclusive ajuda médica para lidar com o transtorno. As sessões de terapia foram responsáveis por uma nova Paula: ela mudou o jeito de enxergar o mundo, cortou o cabelo e decidiu que era hora de assumir a orientação sexual.

"Quem entendeu, entendeu. Quem não concordar? Paciência."

No domingo (29) é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e Universa conversou com a cantora sobre o seu processo pessoal e planos para o futuro.

Cantora de sertanejo, Paula Mattos afirma nunca ter sofrido preconceito no meio - Elektra - Elektra
Cantora de sertanejo, Paula Mattos afirma nunca ter sofrido preconceito no meio
Imagem: Elektra

UNIVERSA - Você levou bastante tempo para falar sobre a sua orientação sexual. Por que?

PAULA - Eu queria ter a liberdade de ser quem eu sou. É muito chato ter que ficar escondendo das pessoas. Sempre que me perguntavam se eu estava solteira ou namorando, eu precisava mudar de assunto. Dizia que não falava sobre a minha vida pessoal. No ano passado, quando eu decidi lançar uma música para a minha mulher (a canção "Não Esfriou"), com uma letra que abordava a diversidade, achei que tinha chegado a hora de tornar o assunto público.

Não fazia sentido eu lançar mais um trabalho sobre o tema e não tocar no assunto, eu não tinha nada mais para esconder. Eu já vinha me preparando para falar sobre o assunto. A terapia me ajudou bastante

E por falar em terapia, você usa bastante as redes sociais para falar sobre saúde mental. Como anda a sua?

No começo da pandemia, foi muito difícil para mim entender o que "estava acontecendo". A ansiedade e a expectativa aumentaram, foi quando eu decidi procurar ajuda profissional e comecei a fazer terapia. Às vezes, tenho crise de ansiedade. Tem dia que acordo muito bem, outros nem tanto. Todo mundo está nessa montanha russa de sentimento, né? O fato de eu ter falado sobre a minha orientação sexual tirou um peso de mim.

Quando você decidiu falar sobre o assunto, achou que o momento era o mais adequado para fazer isso?

Acho que sim. Com essa pausa que o mundo deu, as pessoas começaram a olhar mais para si. Não faz mais sentido ficar se prendendo, se rotulando, escondendo quem você é. Acho que as pessoas estão tomando coragem de se assumir.

De que modo o fato de você nunca ter tocado no assunto te afetava?

Vivia com um segredo. Sempre lidei com isso de uma forma muito natural, nunca tive preconceito em relação a mim. Minha maior bandeira é o amor. Acho que, mesmo que você não "concorde" com a opção sexual alheia, você precisa respeitar. Estava preparada para receber muito ataque de ódio e, pelo contrário, fui recebida com amor. Claro que recebi algumas ofensas preconceituosas, mas nada demais.

Sou casada há 9 anos e minha esposa não gosta de se expor, por isso nunca revelei a identidade dela. Quando 'saí do armário', todo mundo ficou chocado. Ninguém entendia como eu tinha escondido meu relacionamento por tanto tempo

Como você conseguiu esconder tão bem esse segredo?

Ela nunca quis aparecer, nunca publicamos uma foto nas redes sociais, nada. Tomo cuidado com isso. Nunca quis ganhar mídia expondo a minha vida pessoal. Eu canto, meu trabalho é minha música.

Hoje em dia, até pelo fato de a gente usar muito as redes sociais, é difícil manter separado o que é trabalho e o que é vida pessoal. Ela pede para não aparecer?

Sim —e super respeito isso. Eu acabo mostrando um pouco do meu dia a dia nas redes sociais, mas tomo cuidado para não me expor de mais.

Você tinha noção do quanto era importante uma figura como a sua 'sair do armário'?

Sim, e sabia que era importante não só para mim. Recebi muitas mensagens de agradecimento. Pessoas dizendo que tinham se reconhecido com a minha história. É importante lembrar que cada um tem 'o seu próprio tempo'; você tem que estar preparado para falar sobre o assunto, confiante e confortável.

Como cantora de sertanejo, você vive e trabalha em um meio muito machista. Isso te intimidou?

Recebi muitas mensagens de pessoas do meio (contratantes, artistas, colegas) me elogiando. Dizendo que, independente da minha orientação sexual, eu era uma artista incrível. No meio mesmo, nunca sofri preconceito. Durante muito tempo vivia sobre a ditadura do 'se': e se as pessoas não me aceitarem? E se pararem de gostar de mim? Quando me assumi, decidi que era hora de deixar esse medo pra trás —quem entender tudo bem, quem não entendeu, paciência. Alguns amigos se afastaram. Mas teve gente como a Luiza (da dupla com o Maurilio) que me ligou dizendo: 'Pô, bixo, até que enfim!'. Isso é importante.

"Vivia com um segredo", diz Paula Mattos sobre o período em que escondeu a sua orientação sexual - Elektra - Elektra
"Vivia com um segredo", diz Paula Mattos sobre o período em que escondeu a sua orientação sexual
Imagem: Elektra

Sabemos que você não gosta de expor sua mulher, mas pode contar mais detalhes da história de vocês?

Estamos juntas há 9 anos. Nos conhecemos em São Paulo, no bar de um hotel. Não posso contar mais [risos]. Ela não foi o meu único relacionamento, mas parece que só existiu ela na minha vida. Foi amor à primeira vista. Há muito tempo eu sonhava com uma mulher de cabelo preto — olha aí, já contei um detalhe! —, quando eu a vi pela primeira vez, ela estava de costas, no momento que ela virou pra mim, foi um choque. Em dois meses, nos casamos e fomos morar juntas. Somos românticas, mas nossa relação não é perfeita. A gente briga, discute, mas se ajusta. Sempre sonhei ter o relacionamento que tenho atualmente.

Na minha adolescência, me questionava: 'Será que eu estou pirando?'. Sempre tive desejo por mulheres. Sim, cheguei a me relacionar com meninos para tentar ter uma vida padrão, para mostrar pros outros, mas não gostava. Quando encontrei a pessoa certa, minha ficha caiu na hora

Me descobri lésbica aos 8 anos de idade quando dei um selinho em uma garota da escola. Aos 18 anos, quando contei para minha mãe, ela chorou, parecia que tinha morrido alguém. Foi um período de negação. Hoje em dia já está tudo certo.

O apoio familiar é muito importante, tudo começa em casa —inclusive o cancelamento. Se você é acolhido dentro do seu lar, você está preparado para o mundo.

Você se enxerga a longo prazo com a sua mulher? Quais são os planos para o futuro?

Sim, me vejo a longo prazo com ela. Temos sonho de ter filho, mas estamos passando por um momento difícil de pandemia, só que não sabemos o que vem pela frente. Temos vários sonhos, pensamos em, lá na frente, fazer uma festa grande de comemoração de casamento. Ter filho é um sonho pra mim, seja adotado ou através de inseminação.

Não quero colocar um rótulo. Independente da orientação sexual da pessoa, a gente tem que amar o próximo. Minha bandeira é o amor

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