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'Zé IML': por que elas evitam homem que usa redes só para elogiar corpo

A relações-públicas Gabriela Bacelar prefere não interagir com "Zé IML" - Arquivo pessoal
A relações-públicas Gabriela Bacelar prefere não interagir com "Zé IML" Imagem: Arquivo pessoal

Nathália Geraldo

De Universa

17/08/2021 04h00

Depois que termina as aulas de atividade física que faz em casa, por causa da pandemia, a gerente de relações-públicas Gabriela Bacelar gosta de compartilhar uma foto sua no Instagram para incentivar seus amigos e seguidores a cumprirem uma rotina fitness.

O hábito, no entanto, foi sendo minado pelo fato de ela receber comentários de homens que a exaltam apenas quando ela exibe o corpo — e, para esse comportamento tipicamente masculino, agora tem até um nome: Zé IML.

O Zé IML, explica a estudante de Direito Helen Pandolfo, é aquele homem que só aparece para interagir nas publicações quando a mulher coloca "foto de corpo". Foi Helen quem jogou o termo na rede social e viu sua publicação repercutir até chegar aos assuntos mais comentados do Twitter, ontem.

"Publico fotos de biquíni, do meu corpo, não para engajamento de ninguém e, sim, como um momento de aprovação de mim mesma, porque também já tive questões com o meu corpo, a vida inteira passei por dietas malucas e não me amava como eu era. Só que, na internet, as pessoas confundem os limites", avalia.

"Os homens pensam que, ao mostrar nosso corpo, estamos dando liberdade para comentários ou somos desvalorizadas por isso".

Universa conversou com mulheres que usam as redes sociais — principalmente, o Twitter e o Instagram — para publicar fotos dos próprios corpos e já passaram por situações em que foram alvo de Zé IML ou se sentiram assediadas pelos seguidores. Para elas, os comentários incomodam e estão ligados ao machismo que ultrapassa o mundo real e chega diretamente às redes sociais.

"Insistem mesmo quando eu não dou like de volta e é invasivo"

ivy - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ivy Pires trabalha vendendo nudes pelas redes sociais; ela fala sobre insistência de homens que não querem comprar seu material e se tornam "invasivos"
Imagem: Arquivo pessoal

"Trabalho vendendo pack de nudes, além de ser estilista e produtora de eventos. As fotos são apenas um dos meus trabalhos; mas parece que é pior, porque os homens pensam que 'dei intimidade' só porque mostro meu corpo. Aí, recebo comentários deles nas que estou mais exposta, falando de partes do meu corpo, com teor explícito sobre sexo. A maioria das vezes tento ignorar, mas muitos insistem, mesmo quando eu não curto nenhuma publicação de volta ou dou resposta. Ficam tentando chamar atenção e isso é bem invasivo.

Como vivemos sob o machismo e o patriarcado, parece que quando você exibe o corpo, você é só um corpo e os homens têm liberdade para comentar sobre ele. E aí, não importa o quão inteligente você é, sobre quais assuntos sabe falar... Geralmente, prefiro ignorar essas falas, no Instagram, só restrinjo o conteúdo. Mas, ainda assim, é uma situação muito chata."

Ivy Pires, modelo fotográfica, estilista e produtora de eventos, São Paulo (SP)

"Minha foto pós-treino não é convite a assédio"

Gabriela Bacelar fala sobre assédio nas redes sociais após publicar foto pós-treino - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriela Bacelar fala sobre assédio nas redes sociais após publicar foto pós-treino e termo "Zé IML" sobre homens que dão like em foto de corpo
Imagem: Arquivo pessoal

"Gostava de publicar minhas fotos pós-treino porque tenho feito atividade em casa, de graça, e queria incentivar meus amigos e seguidores no Instagram. Mas, sempre que postava, aparecendo suada, com a pele vermelha, recebia comentários inconvenientes de homens: "Você está muito gostosa", coisas do tipo. Para mim, esse é um engajamento negativo, porque é para me 'objetificar'.

Não estou inclinada a receber esse tipo de comentário, só porque publiquei uma foto em que estou suada ou com pose mais sensual. Me sinto violada quando isso acontece.

Há homens que respondem na mensagem privada: 'Ô, lá em casa', ou 'Se te encontro, faço isso...', com cunho sexual. Só que nem sempre a pessoa tem intimidade para falar isso. Internet não é terra de ninguém, é preciso manter o respeito que a gente tem como se estivesse na rua.

Isso vem de um comportamento enraizado na sociedade de nós, mulheres, sermos vistas sempre como objeto de desejo. Só que a foto do meu treino não é um convite para o assédio. Por mais que esteja permitindo que as pessoas estejam me vendo ali, não é uma coisa pública. E esse tipo de comentário dos homens vem de um machismo profundo, que não nos vê como seres humanos. Machuca muito."

Gabriela Bacelar, gerente de relações públicas, São Paulo (SP)

"Homens se sentem livres para interagir só em foto de corpo"

helen - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Helen Pandolfo cunhou o termo "Zé IML" no Twitter; comentário repercutiu entre mulheres que se sentem incomodadas com respostas de homens a suas fotos
Imagem: Reprodução/Instagram

"Defino o Zé IML aquele homem que entende as fotos do corpo de uma mulher como uma confirmação do 'estado civil' da mulher. Por isso, ele tem a liberdade de interagir e aparecer somente nestas ocasiões.

Até deixei meu Instagram no modo privado, para ter só as pessoas que conheço ou que tenho interesse em conhecer. Porque, antes, tinha medo de postar foto de biquíni; tanto por vergonha quanto por não querer ser alvo de comentários maldosos. Como mulheres, somos desrespeitadas frequentemente, não só na rede social.

Depois que o meu comentário sobre esses homens repercutiu, um deles falou: 'Vocês postam foto do corpo e quer que a gente comente sobre o que? Sobre o cabelo?'. Na verdade, a gente não quer que comente sobre nada. É uma inconveniência falar do corpo das pessoas. E, por outro lado, acho que a gente não tem que fazer as coisas ou não fazer pensando no que o outro vai pensar."

Helen Pandolfo, estudante de Direito, Jaguariúna (SP)

"Sou obrigada a ler que provoquei"

bruna braga - Divulgação - Divulgação
A Bruna Braga comenta sobre likes e mensagens de homens que a colocam como 'objeto sexual' nas redes
Imagem: Divulgação

"Já não acho justo e adequado quando posto foto de biquíni e alguém se sente no direito de tratar aquilo como se fosse para o prazer dele... Só que já aconteceu com foto em que eu estava escovando dente, no palco, fazendo show, acendendo uma vela... Me 'sexualizaram' acendendo uma vela!

E ainda sou obrigada a ler que provoquei, como se a forma que enxergo meu corpo e me posiciono sobre ele, fosse para provocar alguém. Brinco que tem que ter uma autoestima grande para achar que a gente posta alguma coisa para o 'Zé da Goiaba' que me segue achar que foi para ele aquela foto.

E, além de eu ser uma mulher, passo pela questão do corpo preto ser 'objetificado' por si só. A ponto de, com 12 anos, não poder usar short curto porque mexiam comigo na rua.

Hoje, nas redes, publico as fotos por estar me achando belíssima, uma 'grande gostosa', e porque não sou um corpo padrão. Ou seja, quando reafirmo minha existência, me sentindo linda, maravilhosa, outras mulheres veem que podem se sentir assim. E isso não dá o direito de alguém com quem não tenho intimidade vir falar comigo."

Bruna Braga, comediante, São Paulo (SP)

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