PUBLICIDADE

Topo

Minha história

'Perdi trabalhos por ser do Complexo do Alemão e hoje sou modelo na França'

Nathallya Alves, 24, nascida e criada no Complexo do Alemão, no Rio - Arquivo pessoal
Nathallya Alves, 24, nascida e criada no Complexo do Alemão, no Rio Imagem: Arquivo pessoal

Nathallya Alves, em depoimento a André Aram

Colaboração para Universa

02/08/2021 04h00

"Minha infância foi bastante difícil, morava no Complexo do Alemão, no Rio, sendo a segunda de sete filhos. Sou filha de uma manicure e um pedreiro, duas profissões não valorizadas no Brasil. Às vezes precisávamos do apoio das pessoas, que tenho muita consideração, pois elas me ajudaram não apenas no financeiro, mas em relação à cultura também, que além de ajudar com alimentos, eram pessoas que falavam de um mundo diferente daquele que eu vivia, outra realidade.

Meu pai era alcoólatra e minha mãe sofreu violência doméstica em casa, chegando a perder gestações por causa das agressões. Às vezes só tínhamos o básico para comer, dividíamos um ovo e todos dormiam na mesma cama. Eu tinha 15 anos quando minha mãe se separou do meu pai e, a partir daí, ela nos criou sozinha e as dificuldades aumentaram. .

Meus pais costumavam dizer que o mundo lá fora teria muitas coisas boas e que nós tínhamos capacidade para fazer o que quiséssemos.

Aos 17, quando eu trabalhava como auxiliar de professora em uma escola, um olheiro de agência de modelo me descobriu e comecei a trabalhar com moda.

Na infância, às vezes para fazer amizades, eu dizia morar em outro lugar, porque as pessoas são muito preconceituosas. Sofri racismo na escola, mas não entendia muito.

Quando passei a contar nos trabalhos que eu era do Complexo Complexo do Alemão, me diziam: 'Mas você fala tão bem'; De algumas pessoas eu omitia essa informação, pois já havia perdido 'jobs' na moda por ser de lá. Alegavam que eu ia demorar para chegar, que teria que pegar mais de um transporte etc. Já tive que fazer isso em seleção de emprego, casting e em sessão de fotos.

Nathallya Alve - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nathallya vive em Tarbes, no sul da França
Imagem: Arquivo pessoal

Aos 17 anos, eu fazia parte de um grupo de dança em Madureira e fui selecionada para participar da ação de uma marca de moda. Comecei a fazer campanhas e, depois, a trabalhar de maneira independente.

Eu confio muito no que eu faço, era chamada para diversos eventos, mas essa confiança não te coloca em um editorial da 'Vogue', porque você precisa ter uma agência — potencial eu tenho certeza que tenho.

Em 2018, fiz um desfile épico para o Brasil Eco Fashion Week em São Paulo, onde desfilamos segurando placas de manifestação contra o governo e repercutiu muito nas redes. Mas muitas vezes pensei em desistir.

Eu precisava trabalhar, então comecei a vender brigadeiro na rua, mas não deu certo, o calor do Rio não deixava os doces frescos, então conciliei a moda com outro trabalho, como assistente de estilo de uma marca. A carreira de modelo não me fez sair do Alemão, não me deu estabilidade.

Havia diferença de cachê entre as modelos. Uma vez uma modelo branca estava reclamando do cachê dela e mencionou o valor, eu respondi 'Se para você é pouco isso, imagine para mim que estou recebendo menos que você', Ela ficou sem reação. Já aconteceu de não ser selecionada por eu ser negra retinta, pelo meu cabelo ser mais crespo, enfim.

Durante a Olimpíada de 2016 do Rio, conheci meu marido, um francês — na época, não rolou nada porque eu namorava. Mas ele retornou ao Rio um ano depois e nos reencontramos.

Após três anos, decidimos ficar juntos nos mudamos aqui para a França. A adaptação foi fácil, estamos no sul da França, então no inverno faz frio, mas a maior parte do tempo faz calor.

Minha mãe ainda vive no Complexo do Alemão, com 5 dos meus irmãos. A casa hoje é maior, ainda tem dificuldades, mas não é como antes. Não penso em viver no Brasil pela falta de oportunidades e aqui elas existem.

Quero aperfeiçoar o francês, estou estudando inglês e pretendo seguir a carreira de modelo aqui, mas o obstáculo por enquanto é o idioma. Me considero uma mulher vencedora, ultrapassei todas as barreiras que a sociedade disse que haviam, porém eu subi no muro e atravessei."

*Nathallya Alves, 24, é modelo e vive em Tarbes, na França

Minha história