PUBLICIDADE

Topo

Minha história

"Sou trans e senti muita vergonha de contar que fui expulsa de um banheiro"

Gabriela Loran é atriz, palestrante e influenciadora - Reprodução/Instagram
Gabriela Loran é atriz, palestrante e influenciadora Imagem: Reprodução/Instagram

Gabriela Loran, em depoimento a Mariana Gonzalez

De Universa

18/06/2021 04h00

"Aconteceu em 2017. Eu estava no começo da transição e trabalhava em um restaurante, em um shopping aqui no Rio de Janeiro. Durante o intervalo, eu e minhas amigas tínhamos o costume de passear pelo shopping e um dia elas disseram: 'Gabi, vamos ao banheiro?'.

Eu tinha medo, me sentia desconfortável, porque já tinha ouvido casos de mulheres trans expulsas de banheiros. Mas decidi entrar.

Era um shopping de classe alta e dentro do banheiro tinha um lounge com sofás. Minhas amigas entraram ama usar as cabines e eu fiquei esperando numa dessas poltronas, até que uma senhora, funcionária de serviços gerais, me abordou: 'Preciso que você saia do banheiro'. Eu perguntei por quê e percebi que ela não queria falar. Perguntei se alguém tinha mandado ela me dizer aquilo, ela disse que sim e eu pedi que ela me levasse até essa pessoa, que era um dos seguranças.

Falei: 'Boa tarde. Por que você pediu que eu saísse do banheiro?'. Ele começou a rir e falou: 'Brother, seria a mesma coisa se eu tivesse entrado no banheiro feminino'. Tentei explicar que não, falei da minha identidade de gênero, mas ele continuou debochando e disse que eu ia assustar os clientes. Percebi que não teria diálogo e voltei para o meu trabalho. Senti uma coisa horrível, fiquei com aquele sentimento preso dentro de mim. Passei o restante da jornada de trabalho agoniada, pensando o que fazer.

Quando terminei o expediente e fui para casa, escrevi um e-mail para o shopping contando tudo o que aconteceu. Disse que não estava fazendo aquilo para ganhar dinheiro, mas para que essa situação tão desumana não se repetisse com outras pessoas como eu. No dia seguinte, o shopping me ligou dizendo que repudiava esse tipo de coisa, que houve uma troca de funcionários que ainda não tinham sido treinados e que eu poderia voltar lá, escolher qualquer restaurante e comer de graça. Repeti: 'Não é isso que eu quero'.

Nunca contei para ninguém, nem para a minha família, nem para os meus amigos. Eu sentia muita vergonha de dizer que tinha sido expulsa do banheiro por ser trans. Hoje, faria tudo diferente, mas naquele dia me senti silenciada.

Na semana passada, me deparei com a notícia de que um segurança foi condenado por ter feito exatamente a mesma coisa com outra mulher trans [a Lanna Hellen, em Maceió]. A pena é leve, de um ano e seis meses, mas só o fato do caso ter ido a julgamento é muito importante, porque mostra que existe possibilidade de vencer na Justiça — uma Justiça que ainda é muito cruel em relação a pessoas transexuais.

Quanto mais a gente vê mulheres como a Lanna denunciando, reivindicando seus direitos, fazendo essa manifestação toda, mais a gente se sente segura em denunciar.

Depois do que aconteceu comigo, trabalhei lá por mais dois anos. Por um bom tempo, evitei usar o banheiro do shopping, preferia sempre usar o do restaurante. Nunca mais vi aquele segurança. Recentemente, denunciei um outro caso de transfobia a uma empresa e recebi uma ligação dizendo que o funcionário responsável seria demitido, mas acho que esse não é o caminho.

Ninguém aprende quando apanha. Esse funcionário homofóbico em família, depende desse salário. Se for demitido, ele vai ficar com raiva, trabalhar em outra empresa e fazer tudo de novo. É preciso capacitar esses funcionários, educá-los para que respeitem pessoas LGBTQIA+.

A vitória da Lanna me deixa muito feliz. Em contrapartida, os comentários nas publicações sobre o caso são pavorosos. Tem muitas pessoas dizendo que a gente não deve usar o banheiro feminino. Elas dizem: 'Mas e se um homem se vestir de mulher para entrar no banheiro e me assediar?'. Primeiro que nós, mulheres trans, não somos homens vestidos de mulher, é transfóbico nos associar a essa imagem. Segundo que homens cisgênero não precisam de fantasia para assediar ou estuprar mulheres. Desde que o mundo é mundo, eles fazem isso com a cara exposta mesmo."

*Gabriela Loran é atriz, palestrante e influenciadora

Minha história