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Filha única, Kathlen sonhava com vida melhor para bebê e planejava o quarto

Tatiana Campbell

Colaboração para Universa, no Rio

09/06/2021 17h24

Desde pequena Kathlen de Oliveira Romeu, 24, gostava de arrumar e organizar a casa, era o início de uma curiosidade que a levaria a estudar design de interiores, curso que ela havia concluído recentemente. Ela já usava os conhecimentos aprendidos em aula para planejar o quarto de seu primeiro bebê.

Os nomes inclusive já estavam escolhidos seria Maya ou Zayon. Os planos foram interrompidos ontem, quando ela foi morta com um tiro durante uma ação policial no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio. Kathlen estava grávida de 14 semanas, pouco mais de 3 meses de gestação.

"Era risada atrás de risada, abraços, beijos, ela era puro carinho com os outros. Tudo começou na faculdade, tivemos uma conexão única. Mesmo morando em comunidade e, às vezes até perdendo aula por causa de tiroteios, ela não desistia do sonho de se formar, ela queria muito isso", disse Carolina Leal, 26, amiga da jovem.

Nascida e criada no Complexo do Lins, Kathlen deixou muitas amizades na comunidade. Uma delas é Camila Ferreira, 25.

"A gente se conheceu ainda pequenas, vivíamos juntas, brincávamos muito. A Kath foi sempre muito querida aqui na comunidade, sempre conquistava a simpatia de todos, ela sempre teve essa alma de boneca, dócil, meiga, mas ao mesmo tempo travessa. Estamos todos sem conseguir acreditar."

A jovem morava em uma casa com a avó, a mãe e um tio. Ela era filha única. Há pouco mais de um mês, ao descobrir a gravidez, decidiu deixar o Complexo do Lins para morar em um apartamento com a mãe e o padrasto, em Engenho Novo, bairro vizinho ao Lins, justamente pelo medo da violência.

"Ela ainda estava se descobrindo na gravidez, ficava ansiosa em dar uma vida melhor pro neném, chorava sempre. Depois sorria, porque ela dizia que estava adorando dizer que era 'mãe'. Ela sempre desabafava, queria conselhos. Ela estava muito feliz", lembra a amiga Bianca Paiva, 27.

Há 4 anos, Isabela Marra, 30, conheceu Kathlen em um trabalho como modelo.

"Era um doce de menina, muito simpática, muito querida. A primeira vez que trabalhamos juntas, já viramos amigas. Ela era sempre muito solícita, todos adoravam ela. Lembro que a gente conversava sobre o marido dela, ela dizia que gostava muito dele."

Desde os 18 anos, Kathlen também trabalhava como vendedora em uma loja de roupas em Ipanema, na Zona Sul do Rio. A jovem também tinha o sonho de se tornar blogueira, segundo a família. Ela usava as redes sociais para publicar fotos produzidas e gostava do que fazia.

"Acho que ninguém nunca vai conseguir entender quem era ela. A Kath chegava na loja e abraçava todo mundo, ela tratava as clientes como se fossem amigas, ela deixava o clima muito leve. Nosso dia a dia vai ser muito ruim sem ela, a felicidade dela transbordava", disse Luiza Carmo, 28.

Em 2019, Kathlen iniciou um relacionamento com o tatuador Marcelo Ramos, pai do bebê que esperava. De acordo com a família e amigos, os dois já pagavam prestações de um apartamento, também na Zona Norte.

"Ela precisou parar de trabalhar por causa da pandemia e por causa da gravidez, não conseguia pagar o imóvel dela, mas a gente disse que ia ajudar. Minha filha era cheia de sonhos, como ser modelo. A gravidez dela foi uma benção de Deus", disse o pai Luciano Gonçalves.

Muito abalado, Marcelo Ramos publicou nas redes sociais um vídeo dizendo que "vai ser muito pior daqui pra frente". Assim como o namorado, a família e amigos acusam a Polícia Militar pela morte da jovem.

"Há um mês foi o Jacarezinho, agora é a Kath, amanhã é outra família que perde alguém próximo, mas a gente tem que dar a nossa voz. O culpado é um só: o Estado", acrescentou o namorado.

A revolta também é compartilhada pela família. "Essa ação da polícia destroçou não só a vida de duas pessoas, mas de toda a família. Infelizmente ela não será a última", disse a mãe Jakelline de Oliveira.

Kathlen Romeu foi baleada no momento em que deixava o Complexo do Lins, após fazer uma visita para a avó, que ainda mora na comunidade. Sayonara de Oliveira estava com a neta no momento do tiroteio.

O corpo de Kathlen foi enterrado hoje a tarde no Cemitério do Catumbi, no Centro do Rio. Durante o velório, a avó paterna da jovem, Ângela Romeu, passou mal e precisou ser amparada.

Investigações

A Polícia Civil assumiu as investigações da morte de Kathlen Romeu. Os agentes apreenderam 21 armas —12 fuzis e 9 pistolas— dos policiais militares envolvidos no caso. Além disso, cinco PMs já prestaram depoimento. De acordo com a polícia, o laudo do Instituto Médico Legal confirmou que ela morreu por causa de um tiro de fuzil que "transfixou o tórax".

A Polícia Militar afirma que houve uma troca de tiros, mas a família contesta a versão.

"A PM tirou o meu sonho", desabafou a mãe.

Em nota, a PM disse que "em paralelo à investigação da Polícia Civil, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora vai instaurar um procedimento apuratório para averiguar as circunstâncias do fato".

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