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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guerra aos pobres: Nossos impostos financiam assassinatos

Kathlen de Oliveira Romeo, de 25 anos, estava grávida de 14 semanas do primeiro filho - Reprodução/Arquivo Pessoal
Kathlen de Oliveira Romeo, de 25 anos, estava grávida de 14 semanas do primeiro filho Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

09/06/2021 10h34

Kathlen de Oliveira Romeo, 24 anos, grávida, foi assassinada pelo braço armado do estado genocida brasileiro. Sua morte trágica serviu para que a polícia militar do Rio de Janeiro apreendesse um carregador de fuzil, munições e um punhado de drogas.

Mais do que levar um punhado de maconha para a delegacia, mortes violentas e trágicas como a de Kethlen tem um propósito essencial: oprimir, acuar, desorientar, humilhar, desumanizar e levar o mais completo desespero às pessoas pobres das comunidades.

Uma mulher grávida foi silenciada para sempre por conta desta imensa palhaçada denominada guerra às drogas. Uma guerra que eu chamaria de burra e ineficiente se eu não soubesse que toda essa barbárie é inteligente e eficientemente planejada para servir a um escancarado propósito genocida.

Esta irracionalidade de subir e descer morro feito bode deveria ser chamada pelo nome que tem: guerra aos pobres.

Que fossem 400 quilos de pasta base de cocaína dentro de um helicóptero, mas nem isso era.

Uma jovem grávida morreu atingida por uma bala perdida. Balas que só se perdem na favela. Sempre na favela. Balas treinadas para matar pobres.

A brutalidade imposta cotidianamente nas periferias brasileiras tem muitos objetivos. Acabar com o tráfico não é um deles.

Eu até me sinto na obrigação de trazer uma péssima notícia aos poucos cidadãos de bem que me leem até aqui: nunca vai ter fim a tal guerras às drogas. E outra: todo ano, as drogas vão vencer a guerra. Por inúmeros motivos, mas também por que muitos dos que aparecem na TV dando pinta de que combatem são os mesmos que a alimentam.

O estado brasileiro fecha os olhos para o tráfico internacional nas fronteiras, nos aviões, nos helicópteros, nos navios para poder matar pobres por conta de um pé de maconha.

Quem paga são as pessoas que o estado brasileiro tem como inimigas. A Kethlen, por exemplo. Uma jovem começando a viver, feliz por estar grávida.

Impossível não ouvir o silêncio dos proibicionistas do aborto. Aqueles que se intitulam "pró-vida". Nem ligam para uma tragédia desse tamanho. Nem ligam para a frustração e o monumental sofrimento desta família. A gravidez interrompida pela brutalidade racista do estado pode. O que não pode é uma mulher ter autonomia para decidir sobre o seu corpo.

Enquanto drogas forem escolhidas para serem proibidas, enquanto a brutalidade for importante para manter este estado de coisas, enquanto o estado seguir usando a violência para que pobres favelados sigam calados e de cabeça baixa, sempre haverá uma tragédia a nos esperar.