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"Estou aqui, não deixo": Anna Muylaert conta bastidores de filme com Dilma

Mariane Morisawa

Colaboração para Universa

12/04/2021 04h00

O impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, já foi tema de três documentários, sendo dois deles dirigidos por mulheres: "Democracia em Vertigem" (2019), de Petra Costa, e "O Processo" (2018), de Maria Augusta Ramos. Ao time de cineastas que se debruçaram sobre o tema se juntam agora Anna Muylaert e Lô Politi, com "Alvorada".

O filme terá exibição on-line no festival É Tudo Verdade, nesta terça-feira (13), com reprise na quarta (14).

Para Anna, não é coincidência que tenham sido diretoras a levarem para as telas a queda da primeira mulher a comandar o Brasil. "Esse golpe tem um alto teor sexista, machista, misógino", diz ela sobre a votação do impeachment.

Diretora do premiado "Que Horas Ela Volta?" (2015) - que mostra a ferida da desigualdade social brasileira a partir da relação de uma empregada doméstica com a família de classe média alta para qual trabalha - Anna segue produzindo filmes de cunho político. No último ano de pandemia, filmou dois curtas.

A Universa, a cineasta fala sobre violência política de gênero, a convivência com Dilma durante as filmagens em Brasília, o machismo que ela mesma já sofreu e revela sua aposta para o Oscar deste ano.

UNIVERSA: "Alvorada" é o terceiro documentário dirigido por mulheres sobre o impeachment de Dilma. Existe uma razão?
Anna Muylaert:
Esse golpe teve um alto teor sexista, machista, misógino. Um dos marcos foi a votação na Câmara dos Deputados, quando um deles se destacou homenageando o torturador da Dilma [Anna se refere ao então deputado Jair Bolsonaro, que reverenciou o coronel Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI CODI,
um dos órgãos de repressão no regime militar]. Ele estava invocando ali a violência contra a mulher e esse homem virou presidente do Brasil. No processo do golpe, nós, mulheres, nos vimos muito na situação. E quisemos registrar porque havia a certeza de que, por mais erros políticos que a Dilma tivesse cometido, aquele golpe era ilegítimo e estava colocando em perigo nossa democracia. As cineastas arregaçaram as mangas e acredito que virão mais filmes.

Da convivência com a Dilma durante as filmagens, o que você destaca?
Acho a Dilma muito interessante. Ela tem autoestima, tem eixo. Tem uma frase dela que até uso de bordão. Ela e o Mercadante [o ex-senador petista Aloizio Mercadante] estavam numa discussão de um termo técnico, quando ela falou assim: "Não, não põe isso. Isso está impreciso. Eu estou aqui, eu não deixo".

Esse 'estou aqui, não deixo' da Dilma é uma inspiração. Porque muitas vezes você está ali, está vendo que o negócio está errado, mas por toda uma circunstância de hipocrisia geral, de patriarcado, de respeito ao chefe, deixa passar. A Dilma não deixa passar.

A cineasta Anna Muylaert - Divulgação - Divulgação
A cineasta Anna Muylaert
Imagem: Divulgação

A presidente Dilma já foi classificada algumas vezes como uma mulher dura. O que pensa dessa crítica?
Se ela fosse homem seria ótimo. Esse cara aí é o mito [Anna se refere ao presidente Jair Bolsonaro]: berra, só fala besteira, é ótimo. Vai demorar muito até o nosso olhar sobre os gêneros ser um pouco mais igualitário. A gente nasceu nessa sopa.

Com movimentos como o #MeToo e por mais representatividade no Oscar, você vê mudanças no cinema?
A internet fortaleceu movimentos identitários. Por exemplo, as pessoas trans se uniram e se tornaram uma identidade mais forte. Aconteceu isso com as mulheres, com os negros. A diversidade está se fortalecendo. A Academia começou a convidar um grande número de mulheres, estrangeiros e negros. Eu fui convidada em 2016. Em quatro anos, você vê o quanto mudaram os resultados do Oscar.

Qual sua aposta para o Oscar 2021?
Eu acredito que Nomadland vai ganhar. Esse filme produzido e estrelado por uma mulher [a americana Frances
McDormand], dirigido por uma mulher [a chinesa Chloé Zhao] vai ser muito importante.

Como você tem lidado com a pandemia no seu trabalho?
O cinema foi uma das áreas mais afetadas na pandemia. Fiz um curta a convite do Kléber Mendonça Filho para o festival Janela do Cinema. Mas aí eu acabei querendo fazer um outro, que se chama As Três Irmãs. A ideia era filmar um pouco essa agonia em que o brasileiro está. São três mulheres numa pandemia, sofrendo com as consequências de um governo federal desvairado e pensando no que fazer. A equipe eram oito pessoas. E foi uma experiência tão incrível! Ter feito esse filme me tirou desse estado depressivo em que a gente está vendo o Brasil indo para o abismo.

As atrizes Camila Márdila e Regina Casé em cena do filme "Que Horas Ela Volta?" - Divulgação - Divulgação
As atrizes Camila Márdila e Regina Casé em cena do filme "Que Horas Ela Volta?"
Imagem: Divulgação

O sucesso de Que Horas Ela Volta? contribuiu para sua tomada de consciência política?
Sim. E também porque os ataques a mim começaram a ser muito mais fortes. Quanto mais poder uma mulher tem, mais violência vai sofrer. Sofri muito mais violência depois que esse filme fez sucesso.

Que tipo de violência você sofreu?
Desmoralizações, humilhações, bullying. O tempo inteiro diminuição, a pessoa não olhar no seu olho quando fala com você, se direcionar ao homem ao seu lado, e mesmo você sendo diretora e roteirista, ser tratada como secretária. Tudo isso é dolorido. A Anne Thompson, do site Indiewire, foi a primeira que me falou: "Anna, mas isso não acontece só com você! Com as diretoras em Hollywood é igual". Fui estudar.

Fui entendendo que não era só que não tinha diretora, que a diretora era maltratada, que a diretora não era respeitada, mas que também não tem personagem nos filmes. Foi toda uma consciência que eu tomei, de pensar: 'o que eu estou fazendo, por que eu estou fazendo, como é que eu vou representar as mulheres nos meus filmes?'

Que Horas Ela Volta? tem três corpos femininos importantes, que são da empregada [interpretada pela atriz Regina Casé], da patroa [a atriz Karine Teles] e da filha da empregada [a atriz Camila Márdila]. Eu escolhi grandes atrizes. Um dia estou na Inglaterra, e uma jornalista falou: Só uma mulher colocaria aqueles corpos no cinema porque não são corpos dentro do padrão.

E que estratégias você usa para lidar com o machismo no cinema?
Cada vez mais as diretoras mulheres estão querendo trabalhar com equipes e produtoras femininas. Não que garanta muita coisa. Produtoras femininas podem ser muito machistas. Mas, quando você começa a fazer sua escolha de equipe, também pensando em mulheres que respeitam mulher, já passa a imaginar ambientes menos tóxicos. Também passei a fazer muito mais meditação de 2017 para cá. Eu quero aprender a ouvir minha própria voz.

É como se o sucesso não fosse responsabilidade sua?
Exatamente. Eu ouço coisas que me dão até vergonha pelo meu currículo. Aí volto ao patriarcado. O homem tem uma tendência a ser arrogante. Às vezes o cara não tem experiência, mas tem arrogância, e isso é cansativo. É cansativo você ter que explicar toda vez de novo. Uma década, duas décadas, três décadas. Eu estava conversando com uma diretora de série e ela estava dividindo o projeto com um cara. E ela falou para ele: "A gente vai nessa reunião, e você vai ver. Tudo o que você mostrar, eles vão adorar. E tudo o que eu mostrar, eles vão questionar. Preste atenção". E foi o que aconteceu. Então é uma coisa que cansa a gente. Estar sempre sendo testada, sendo avaliada. Por isso que as equipes femininas estão sendo a solução. Eu te respeito, e você me respeita.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado anteriormente, "Alvorada" é o terceiro e não o quarto documentário dirigido por mulheres sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

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