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Diretoras de cinema: "Como atriz, era mais sujeita a abusos", diz Petra

Petra Costa: a mãe queria que ela virasse diretora para não ter que encarar diretores misóginos - Diego Bresani/Divulgação
Petra Costa: a mãe queria que ela virasse diretora para não ter que encarar diretores misóginos Imagem: Diego Bresani/Divulgação

Breno Damascena

Colaboração para Universa

09/02/2020 04h00Atualizada em 09/02/2020 17h05

O mundo do entretenimento celebra hoje a premiação mais importante do cinema. Curiosamente, desde a primeira edição do Oscar, em 1929, apenas cinco mulheres foram indicadas à categoria de Melhor Diretor — e só uma ganhou.

Apesar da pouca representatividade feminina, justamente uma mulher brasileira é uma das indicadas para a 92ª edição do prêmio.

Desde a estreia de "Democracia em Vertigem", os holofotes do país se viraram para a cineasta Petra Costa. A obra aborda, sob a perspectiva pessoal da diretora, a corrente de acontecimentos que provocaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Petra ocupa, hoje, um espaço de evidência no cinema mundial. A mulher de 36 anos destaca-se em um ambiente majoritariamente ocupado pelo sexo masculino. O estudo Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016, realizado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), mostrou que 75,4% dos longas-metragens lançados comercialmente em 2016 foram dirigidos por homens brancos.

Mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes. Somente 2,1% foram dirigidos por homens negros e não houve filme dirigidos por mulheres negras. Em terras estrangeiras, o cenário é tão ou mais alarmante. Mesmo alcançando um recorde, as mulheres representavam apenas 11% dos diretores dos 100 maiores filmes lançados em 2019, de acordo com estudo da Universidade do Sul da Califórnia.

Trauma de abusos masculinos

Em Hollywood, o ambiente masculino e machista impulsionou o surgimento de movimentos de revolta, como o #MeToo, em que mulheres denunciaram abusos e discriminações que sofreram na indústria. A própria Petra, inclusive, conta que, de certa forma, tornou-se diretora em resposta a abusos deste tipo.

"Quando eu era atriz, ficava mais sujeita aos abusos de um diretor. Fui vítima de abuso verbal, enquanto minha irmã foi vítima de um abuso sexual. Acredito que isso colaborou muito com a depressão que ocasionou em seu suicídio", lamenta. "Elena", documentário que marcou sua estreia nos longa-metragens em 2012, é sobre esse trauma familiar.

"Cresci traumatizada e minha mãe, desde que nasci, tinha esperança de que eu me tornasse diretora para não ter que me sujeitar a diretores misóginos. Acho que isso acabou me inspirando a dirigir", aponta Petra, maior expoente do cinema nacional atualmente, enquanto aguarda o resultado de sua indicação ao Oscar.

Há poucas mulheres decidindo

A cineasta Laís Bodansky, presidente da Spcine, que lançou um plano de políticas afirmativas - Greg Salibian/Folhapress
A cineasta Laís Bodansky, presidente da Spcine, que lançou um plano de políticas afirmativas
Imagem: Greg Salibian/Folhapress

É nesse cenário de adversidades que algumas diretoras brasileiras vêm sobressaindo e constroem, aos poucos, um novo rumo para o cinema nacional. "A pouca inclusão da mulher em cargos importantes não se dá apenas no audiovisual, é uma característica da sociedade. O interessante do cinema é que, por ter muita mídia espontânea, ele pode ajudar a impulsionar debates sobre o tema", comenta Laís Bodanzky, Presidente da Spcine, empresa municipal de fomento ao audiovisual de São Paulo.

Laís é diretora, produtora e roteirista de cinema. Entre as obras que encabeçou estão "Bicho de Sete Cabeças" (2000), "Chega de Saudade" (2007), "As Melhores Coisas do Mundo" (2010) e "Como Nossos Pais" (2017).

"Existem poucas mulheres nos bastidores da produção audiovisual decidindo quais projetos devem ser realizados e quais filmes, distribuídos. Até do lado dos jornalistas, que decidem sobre qual obra escrever uma crítica. Os homens, mesmo que involuntariamente, escolherão projetos que têm conexão com o universo deles. Quando mulheres ocupam estes cargos as coisas começam a mudar", acredita.

Recentemente, o Spcine lançou um plano de políticas afirmativas que estabelece metas para ampliar a participação de mulheres, pessoas negras, indígenas, transexuais/transgêneros, LGBTQ+ e pessoas com deficiência no setor audiovisual.

No mesmo caminho, a rede de streaming Netflix, em e-mail enviado à reportagem, afirma que mais de 20 produtoras, roteiristas e diretoras fazem parte do time de conteúdos originais no Brasil, que é comandado pela editora Maria Angela de Jesus

"Café com leite"

Anna Mauylaert: "Aos poucos, vamos encontrando nossos espaços" - Divulgação
Anna Mauylaert: "Aos poucos, vamos encontrando nossos espaços"
Imagem: Divulgação

"O número ainda é pequeno, mas as mulheres estão ocupando papéis cada vez mais importantes no mundo do trabalho. Aos poucos vamos encontrando o nosso espaço", julga a diretora Anna Muylaert, conhecida por filmes como "Durval

Discos" (2002), "Chamada a Cobrar" (2012), "Mãe Só Há Uma" (2016) e o consagrado "Que Horas Ela Volta?" (2015). "É preciso muita fibra para ser uma diretora de cinema aqui ou em qualquer lugar do mundo."

A pauta feminina costuma estar bem presente nas obras de Muylaert, que recorrentemente explora a maternidade nos filmes que produz. "É um tema central feminino. A mãe é o primeiro sujeito político com o qual o cidadão entra em contato, aprende a língua e os costumes sociais. Se a mãe tem problemas, a sociedade inteira vai ter problemas", declara.

Para a diretora, ter nascido mulher foi um obstáculo duro a ser superado na carreira. "O mercado, de forma geral, vê a mulher como 'café com leite'. Alguém que não deve ser levada a sério. Essa sensação de ser desvalorizada e ter que se provar o tempo todo não ajuda ninguém", justifica.

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