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Vida após prisão: filme traz relatos de abandono e superação de ex-detentas

Barbara Cunha dirige o documentário "Flores do Cárcere" ao lado de Paulo Caldas - Divulgação
Barbara Cunha dirige o documentário "Flores do Cárcere" ao lado de Paulo Caldas Imagem: Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

07/03/2021 04h00

Doze anos após cumprirem pena na Cadeia Pública Feminina de Santos, Ana Pérola, Charlene, Dani, Mel e Rosa voltaram ao local entre 2017 e 2018 para falar das dores, do descaso e do abandono que viveram lá. Também falam das dificuldades que a liberdade trouxe: o abandono, de novo, mas desta vez da família aqui fora, o preconceito para conseguir emprego por ter passagem pela prisão, a saudade dos filhos dos quais perderam a guarda, o risco de viver na rua.

As histórias são várias e fazem parte do documentário "Flores do Cárcere", que estreia na segunda-feira (8) no Now. Dirigido por Barbara Cunha e Paulo Caldas, é uma atualização do livro homônimo de Flávia Ribeiro de Castro, que esteve na mesma cadeia em 2005.

"Nos relatos sobre o passado, o sentimento predominante é de dor e abandono. Nas conversas que tive com elas, foi de resiliência. É possível enxergar quão forte elas foram para se reerguer", afirma Barbara, que concedeu a entrevista abaixo a Universa.

UNIVERSA - Que tipo de olhar o documentário traz sobre o tema e como se difere do que já estamos acostumados a ver?

BARBARA CUNHA - Esse documentário tem a peculiaridade de tratar do feminino, há muito pouco trabalho sobre o encarceramento de mulheres. Já parte de um lugar diferente por isso. No processo de criação do roteiro, a gente queria mostrar essas mulheres mas sem fazer uma dupla condenação, a da Justiça e a social, trazer um olhar mais amplo, mostrar que cometeram erro, mas isso não as define. Como elas estão reconstruindo essas histórias? A gente mira na liberdade e vai acompanhando isso.

Como elas relatam a volta à liberdade?

Elas enfrentam todo tipo de dificuldade que você puder imaginar. A primeira é o caminho mais fácil: alguém que conhecia do tráfico vai te chamar para fazer de novo. Segundo, o abandono da família, vai ter alguém que vive julgando ou apontando o dedo como se fosse reforçar o seu erro. O mais sofrido é conseguir emprego porque ninguém quer contratar quando veem ficha criminal. A falta de oportunidade é o mais grave pra elas, que correm o risco de ficar na rua.

cena doc flores do cárcere - Divulgação - Divulgação
Cena do documentário "Flores do Cárcere"
Imagem: Divulgação

O que descobriu em sua pesquisa sobre os motivos que levam as mulheres a serem presas?

As mulheres do documentário refletem uma realidade do sistema carcerário do Brasil: a maior parte é presa por causa de parceiro, namorado, pai. Entraram no ambiente de tráfico por eles, ou cometeram algo por estarem frágeis, dependentes, ou sabiam o que estavam fazendo mas achavam que estavam protegidas. No geral, são mulheres negras e muito jovens, entre 18 e 21 anos, que vão presas porque acabam entrando no universo do parceiro. Elas são de classe mais baixa. Se fosse uma garota de classe média levando droga para a casa do namorado, ela não iria presa. A família daria um jeito de resolver.

Em uma das cenas do trailer, uma das entrevistadas diz que a prisão é onde o "filho chora e a mãe não vê o filho chorar". A separação entre mãe e filho é algo recorrente na vida delas?

Sim, a maioria perdeu a guarda. Uma das mulheres comenta no filme: 'Quantas meninas grávidas e a gente viu sair daqui para o hospital e voltar sem barriga e sem filho'. Se elas não tiverem mãe para cuidar, vai para adoção. Um tipo específico de controle feminino que recai sobre o corpo da mulher.

A prisão de uma mulher causa mais impacto social que a de um homem?

Sim. A prisão da mulher impacta mais o seu entorno, a família, os filhos. Uma das primeiras coisas que percebemos é a destruição de núcleo familiar. Se tinha relação saudável com pai e mãe, a relação se fragiliza, se quebra. Em relação aos filhos também.

Qual é o sentimento predominante na fala dessas mulheres que vocês escutaram?

Sobre o passado, são de dor e abandono. Mas, para mim, a conversa com elas foi de resiliência. A gente consegue enxergar quão forte elas foram. São histórias que nós, que estamos do outro lado da parede, não vemos. A sociedade quer jogar para baixo do tapete. Essas histórias são delas, não minhas, mas acho importante, com meu trabalho, trazer esse debate.

Você tem outros trabalhos relacionados a temas femininos?

Sim. Fiz uma série infantil que está no ar na TV Cultura chamada "Borboletas e Sereias", que fala sobre papeis de gênero na linguagem deles. Comecei a escrever quando meu filho me contou que tinha um colega trans na escola. Em pré-produção, tenho "Menina Noiva", em coprodução com Portugal e Chile, que é uma ficção sobre o casamento infantil no Brasil, e o documentário "Deus É Mulher", sobre a vida de Alexya Salvador, a primeira reverenda trans da América Latina.

Voltando ao documentário, outro tema que aparece é a solidão das presas. Enquanto para os homens há filas de visitas nos presídios, elas não têm a mesma atenção. Por quê?

Essa solidão existe em mulheres em diferentes situações, como as idosas, que também são mais sozinhas que os homens. Faz parte dessa teia que é construída sobre os papeis de cada um. O lugar da mulher é sempre o de cuidado. Então nas filas dos homens estão as mães, as mulheres. Nas dos presídios femininos, estavam as mães e irmãs de algumas que têm o suporte familiar muito forte. Outras diziam que estavam na solidão total, desesperadas para saber como iriam recuperar os filhos.

O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias femininas do mundo. Por quê?

Acredito que tem relação com o tamanho da população e com e diferença de classe de quem se vê no lugar de cometer crime ou delito. E acho que mudou o perfil dos crimes também. No filme conversamos com uma carcereira que diz que, antigamente, mulher ia para a delegacia porque furtou uma caixa de leite porque o menino estava com fome, ou soltou um cheque sem fundo. Agora mulheres estão entrando mais ativamente em crimes mais fortes, como tráfico.

Diminuir essa alta taxa de encarceramento deveria ser um projeto público?

Sim. Pessoalmente acredito que temos que pensar em outras formas de punir. Principalmente pensando nas mulheres que têm filhos, grávidas, que têm família. Se for um delito ou crime menor, será que não é punição melhor fazer trabalho social, se reportar a alguém todo mês, e garantir que ela possa continuar provendo a sua criança?

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