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Ex-detentas contam como retomaram a vida após sair da cadeia

Mulheres que saíram da prisão após pagarem suas penas contam as dificuldades para se reintegrar socialmente, conseguir emprego e retomar o laço afetivo com a família - Getty Images/iStockphoto
Mulheres que saíram da prisão após pagarem suas penas contam as dificuldades para se reintegrar socialmente, conseguir emprego e retomar o laço afetivo com a família Imagem: Getty Images/iStockphoto

Julia Tavares e Priscila Ribeiro

Colaboração para Universa

23/04/2019 04h00

Presas por tráfico, organização criminosa, assalto à mão armada, entre outros delitos, elas passam inúmeras adversidades na cadeia e também fora dela, para se reintegrar, tanto à vida profissional quanto à própria família. Mas o preconceito é, sem dúvida, o principal desafio a ser superado.

"Difícil pensarmos em ressocialização em uma sociedade que já dá pouco espaço às mulheres. Quando se trata de ex-detentas, a situação é muito pior", afirma Fábio Manoel, advogado criminalista. Para retomarem suas vidas, elas precisam ter muito mais do que força de vontade, mas contar com apoio da família e até de ONGs voltadas a essa população, como contam a seguir.

"Estive no crime dos 13 aos 29 anos"

Karine Vieira, em foto com amigas: "Queria ser um exemplo para minha família" - Arquivo pessoal
Karine Vieira, em foto com amigas: "Queria ser um exemplo para minha família"
Imagem: Arquivo pessoal

"Tenho três filhos e sou casada há 13 anos com uma pessoa que está no sistema prisional. Fiz parte do crime dos 13 aos 29 anos. Tive uma longa trajetória nesse universo, atuando, inclusive, como liderança. Fui para o cárcere em 2005, depois, em 2008 e em 2009. Passei por várias coisas e sofri muitas perdas. Após a terceira prisão, passei por um grande processo de reflexão e decidi que precisava dar algo melhor aos meus filhos, deixar um legado, ser exemplo para a minha família. Então, eu resolvi estudar, fiz o supletivo e, no bairro onde morava, consegui um bico que durou um ano e três meses. Ganhava pouco, mas passei por um processo de resgate de valores. Continuei estudando e, em 2010, passei no Enem, consegui uma bolsa e fui fazer serviço social.

Na sequência, fui chamada para trabalhar no escritório de um advogado, que nunca consultou o meu histórico. O fato de eu ser loira, branca e de classe média contou pontos. Durante os quatro anos de faculdade, trabalhei com esse advogado e, assim que me formei, tentei entrar na minha área, fui atender meninos que tinham saído da Fundação Casa e estavam usufruindo de liberdade assistida. Depois, assumi o Projeto Segunda Chance, da ONG AfroReggae. Passado um tempo, ele se encerrou, mas eu fiquei com um grande banco de dados e passei a atender voluntariamente as pessoas que já tinham vínculos com o projeto. Nesse meio tempo, eu via a necessidade de continuar esse trabalho, porque sempre quis ajudar as pessoas que tinham passado pelo sistema prisional e que não tiveram a mesma oportunidade que eu tive. No meio de 2017, escrevi o Projeto Responsa e, com o apoio da Patrícia Viela, do Ação Paz, Humanitas 360, fui aprovada. O Responsa nasceu em novembro de 2017 com o apoio dos institutos. Somos uma agência social de empregos, que capacita as pessoas que saíram do sistema prisional. Também acompanhamos e ajudamos a inserir as pessoas nas empresas."

Karine Vieira, 34 anos, assistente social

"Entrei em pânico quando cheguei e vi tantas mulheres na cela"

"Fui presa por tráfico de drogas e o pior momento, para mim, foi quando me vi dentro da cadeia, porque eu estava grávida e tive o meu filho lá. A minha primeira sensação, quando cheguei em Franco da Rocha, foi de pânico. Eu entrei de manhã e o povo estava lavando e limpando as coisas, estava tudo para fora, tudo bagunçado, muita mulher ali. Mais impressionante que isso foi só o dia da blitz, porque quem não tem visita fica o dia inteiro sem comida. E, como eu estava grávida, foi difícil para mim. Depois que eu ganhei o meu filho, as coisas melhoraram um pouco, porque eu pude trabalhar bastante. Eu me inscrevi para trabalhar lá dentro e ficava o dia inteiro no emprego, voltava para a cela, lavava a roupa, tomava banho e dormia. Assim, tive bom comportamento e logo consegui sair. Agora, estou livre e faço faxina. Para mim, qualquer trabalho está ótimo. Moro com a minha tia, que me acolheu, e cuido do meu filho. A minha vida é difícil, mas agradeço a Deus tudo o que tenho. Estou fazendo cursos no projeto Responsa, já terminei três e eles abrem a mente. Os meus planos são arrumar um emprego fixo e sair da casa dos meus tios em breve. Tudo na vida são consequências das nossas escolhas, e estou sendo forte para aguentar as minhas."

Naiara Mota, 30 anos, faxineira

"A pior parte de ser presa foi deixar os meus dois filhos"

Maiara Machado Romão com o filho: "Arrumar trabalho foi o mais desafiador" - Arquivo pessoal
Maiara Machado Romão com o filho: "Arrumar trabalho foi o mais desafiador"
Imagem: Arquivo pessoal

"Fui presa por assalto à mão armada. Fiquei sete meses na prisão. A vida lá era uma rotina: eu estudava, fazia cursos de tudo o que tinha, aprendi até crochê com o pessoal de uma cooperativa que atuava lá dentro. Fora isso, quase não saía da cela. Os momentos mais complicados foram no começo, porque eu tinha um bebê de seis meses e um menino de cinco anos do lado de fora e tive que ficar longe deles. Lá, eu era muito quieta, na minha, e o meu contato com a família era por cartas e visitas. Aprendi a ouvir mais e a falar menos. Antes de eu ser presa, era autônoma, manicure, vendia lingeries, tinha uma vida boa. Quando saí, minha família estava me esperando, minha irmã, meus filhos, foi tudo de bom! Agora, arrumar trabalho foi a parte mais desafiadora, fora o preconceito. Já estou em liberdade há dois anos, fui absolvida, mas consta na minha ficha a prisão. A minha vida é fazer bicos e o meu sonho é entrar em um curso técnico de enfermagem. Aprendi muito com o que vivi, não quero mais passar por aquilo, não tenho vontade de entrar na cadeia nem para fazer visita às pessoas que eu deixei lá."

Maiara Machado Romão, 24 anos, desempregada

"As pessoas te veem como alguém perigoso"

Glaucia estava presa quando o marido morreu após uma parada cardiorrespiratória: "Foi horrível"  - Arquivo pessoal
Glaucia estava presa quando o marido morreu após uma parada cardiorrespiratória: "Foi horrível"
Imagem: Arquivo pessoal

"Comecei a usar drogas com nove anos. A minha infância foi triste, cresci fazendo comércio de drogas e fui presa muitas vezes. A minha última prisão foi a gota d'água. Tive muitas perdas, perdi a minha vida dentro do sistema. Logo depois que fui presa, meu marido teve uma parada cardiorrespiratória e faleceu, e eu estava longe, foi horrível. Apesar dessas prisões e sofrimentos, ele me deixou amparada. Eu fiquei lá seis anos e peguei prisão domiciliar. A minha liberdade foi uma alegria! Mas, depois de sair, fica muito difícil voltar à vida normal. Uma vez que você foi presa, fica manchada, as pessoas te veem como alguém muito perigoso. Sorte que eu tenho a minha pensão, tive bons relacionamentos, tenho as minhas filhas. Então, consigo me manter. Hoje, tenho muitos sonhos para concretizar, quero dar certo, decolar, ser conhecida e poder trazer algo de bom ao mundo. Na prisão, aprendi muito sobre humildade. Agradeço pela experiência e por ter superado tudo."

Gláucia Celsa Lima Tomás, 42 anos, colaboradora da ONG Humanitas 360

"Quando saí pela primeira vez da prisão, eu nem acreditei"

Luana começou a bordar e costurar na cadeia e, quando saiu, continuou trabalhando no mesmo ofício - Arquivo pessoal
Luana começou a bordar e costurar na cadeia e, quando saiu, continuou trabalhando no mesmo ofício
Imagem: Arquivo pessoal

"Fui presa em 2013 por tráfico de drogas e crime organizado. Estava grávida e tive meu filho com oito meses, na prisão. Fui sentenciada em cinco anos, dois meses e 15 dias. Depois, fiquei na domiciliar, o promotor recorreu e eu tive que voltar. Lá dentro, aprendi a dar valor às coisas simples da vida. A minha família me apoiou em tudo, sempre esteve ao meu lado, nunca me deixou sozinha lá. A parte mais difícil foi ter que retornar para a prisão depois de três anos livre. Eu já tinha arrumado a minha vida, estava com uma empresa de comunicação visual.

De repente, os policiais aparecerem no meu bairro e invadiram a casa, eu nem sabia qual era o motivo. Tive que voltar para a prisão e acabei perdendo o marido e o trabalho. Fiquei em depressão, em 2017, porque, do nada, perdi tudo novamente, demorei a me levantar. A minha convivência na prisão sempre foi muito tranquila, mas tem que saber entrar em cada lugar, ter disciplina, seguir as regras. Na cadeia, comecei a bordar e gostei. Já me colocaram no setor de costura e molde, fiquei responsável e, de lá para cá, tenho aprendido muito. Esse trabalho, feito por uma cooperativa, dentro da prisão, me fez mudar. Quando saí, continuei com o emprego, costurando. Quando me disseram que eu estava livre, eu saí do jeito que estava, nem troquei de roupa, fui andando pela avenida e gritando a minha liberdade. Livre, a gente dá valor às coisas simples da vida, como água quente no chuveiro, abrir uma geladeira ou ligar um micro-ondas."

Luana Ferreira Bertholini, 32 anos, costureira

"Eu não volto mais para lá"

"Meu maior ressentimento é que meus filhos não foram criados comigo", diz Geane - Arquivo pessoal
"Meu maior ressentimento é que meus filhos não foram criados comigo", diz Geane
Imagem: Arquivo pessoal

"Fui presa em 2008, fiquei seis anos na cadeia, saí em 2014. Eu tenho quatro filhos de dois casamentos. Fui mãe pela primeira vez com 15 anos e com 26 já tinha três filhos. O meu primeiro marido era viciado em jogo, me abandonou com os filhos e foi morar com outra mulher. Eu fui morar com a minha mãe, conheci uma amiga que fazia uns corres com drogas e falei que estava precisando. Naquela época, eu fazia uns bicos, mas não dava para pagar as contas. Na terceira vez que fiz o corre, fui presa, no interior de São Paulo. Os meus filhos sofreram muito e, para mim, foi muito difícil. Quando fui presa, eles tiveram que ir morar com os pais, as madrastas e eram muito maltratados. Dentro da prisão, a minha disciplina era boa, eu convivia bem com as outras presas. Quando entrei, a minha bebê tinha seis meses e, ao sair, ela já estava grande. Meu maior ressentimento é que meus filhos não foram criados comigo. Hoje, ganhei a minha liberdade, não devo nada a ninguém. Faço bordado, estou no Projeto da Humanitas 360, e muito feliz. Estou reconstruindo a minha vida, tentando reconquistar o meu filho que ficou magoado comigo. Não volto mais para a cadeia, mesmo que, para isso, tenha que trabalhar com qualquer coisa."

Geane Márcia E. Leona, 36 anos, colaboradora da ONG Humanitas 360

"Tinha que me virar para conseguir uma bolacha"

"Tive várias passagens pela Febem e quatro pela cadeia, pois era moradora de rua e vivi muitos anos na Cracolândia. Em 2012, fui presa no tráfico, lá na Cracolândia, fiquei três anos e quatro meses. Minha vida na prisão não foi nada fácil, tinha que me virar para ter coisas como uma bolacha, um cigarro e os itens de higiene pessoal. Tinha que lavar as roupas das pessoas, por exemplo. O dia a dia lá era sempre a mesma coisa, uma rotina sem fim, e eu nunca tive visitas. A saudade batia forte, pois tenho dois filhos que eu sabia que não estariam lá para me ver. O que mais me impressionou foi quando a minha liberdade chegou, pensei que nunca sairia daquele lugar. Mas saí em 2015, estou fora há quatro anos. Minha sensação vendo a rua foi como nascer de novo, aquele momento respirando o ar da liberdade. Vim direto para a casa que minha mãe deixou para mim e para meus irmãos. Levei um tempo para arrumar emprego, porque existe muita discriminação, empresas não aceitam ex-presidiários. Consegui emprego este ano, por meio do projeto Responsa. Hoje, trabalho como orientadora em um albergue que acolhe moradores de rua. Lá, as pessoas me tratam superbem e estou feliz com meu trabalho."

Bianca*, 29 anos, orientadora em um albergue

"O ex-presidiário pode escrever uma nova história"

Andresa com a mãe: "Não tenho vergonha de falar do meu passado" - Arquivo pessoal
Andresa com a mãe: "Não tenho vergonha de falar do meu passado"
Imagem: Arquivo pessoal

"Fui presa em 2006 e em 2017. A parte mais complicada foi deixar meus filhos pequenos com a minha família, que estava passando por uma situação difícil. A minha irmã teve que colocar os meus dois filhos em um abrigo pelo tempo em que fiquei presa. Fui usuária de drogas por 12 anos, na Cracolândia, passei seis anos presa. Durante todo o tempo que passei lá, o meu maior sonho era sair e recuperar a guarda dos meus filhos. Em 2012, fui para o semiaberto, fiz cursos, trabalhei, consegui sair cinco vezes.

Em 2013, tive a minha tão sonhada liberdade, limpa do vício, minha família me recebeu de braços abertos e eu mostrei a diferença. Lutei para conseguir a guarda dos meus filhos e prosseguir caminhando, olhando para a frente, esquecendo o que vivi dentro da prisão. Mas a sociedade não aceita o ex-presidiário. Fiquei quatro anos na rua e me envolvi novamente com o tráfico, em 2017. Fui presa grávida de três meses, deixei os meus cinco filhos e uma mãe doente, todos dependendo de mim. Fui sentenciada a cinco anos e oito meses e levada para a maternidade prisional, cheguei lá com oito meses de gestação e tive minha filha. Saí da prisão em 13 de dezembro de 2017, com a minha filha nos braços. Com a ajuda do projeto Responsa, mudei minha história. Hoje, sou responsável e já trabalho há um ano e dois meses. Tenho o amor da minha família e a confiança das pessoas. Consegui, com o meu serviço, construir, ao lado do meu marido, a minha casa, não moro mais de aluguel. Não tenho vergonha de falar do meu passado, pois sei que, com a minha história, posso mudar a opinião de muitas pessoas. Ex-presidiário muda de vida, sim, escreve uma nova história e pode deixar tudo aquilo de ruim para trás."

Andresa Augusto Ruiz, 42 anos, atendente em uma loja de moda

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