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Síndrome da impostora no amor: suas conquistas valem menos do que as dele?

Algumas mulheres tendem a diminuir suas realizações para não melindrar o ego fragilizado de seus parceiros. - GaudiLab/Getty Images/iStockphoto
Algumas mulheres tendem a diminuir suas realizações para não melindrar o ego fragilizado de seus parceiros. Imagem: GaudiLab/Getty Images/iStockphoto

Heloisa Noronha

Colaboração para Universa

06/03/2021 04h00

Alegar que um prêmio recebido "não tem tanta relevância assim", declarar que o novo cargo de chefia "vai trazer mais dor de cabeça do que alegrias", depreciar o título de doutora recém-conquistado ("é um tema chato, ninguém se importa"), falar que o negócio próprio - que vai às mil maravilhas - está apenas "ok". Essas frases são ditas com uma frequência bastante comum por mulheres inteligentes, batalhadoras e bem-sucedidas, principalmente diante de amigos e familiares. A síndrome da impostora - velha conhecida das mulheres - vem aparecendo também nos relacionamentos amorosos.

Pois é, muitas mulheres passam a vida diminuindo suas realizações não melindrar o ego fragilizado de seus parceiros. E fazem não só por não se sentirem competentes ou merecedoras das posições que ocupam. "Em muitos casos, elas se sentem culpadas em estar em melhores condições educacionais, profissionais, financeiras ou sociais do que namorados e maridos", diz a psicóloga Mara Lúcia Madureira de São José do Rio Preto (SP).

Umas das explicações para esse tipo de atitude é de um velho conhecido: o machismo. Mesmo que o mundo tenha mudado bastante no campo comportamental, muita gente ainda vê o homem como o responsável por prover o sustento da família. Ainda paira no ar um certo preconceito sobre a mulher ganhar um salário maior ou ter mais sucesso profissional do que o parceiro. Você já deve ter até presenciado piadas e brincadeiras sobre esse tema em reuniões familiares ou entre amigos.

O problema é que esse tipo de exposição nem sempre é encarado de forma leve e tranquila. A mulher, para evitar qualquer tipo de constrangimento ao parceiro, omite seus sucessos e conquistas. "É uma forma de proteção emocional, tentando preservar assim a autoestima do outro. Ao mesmo tempo em que evita desencadear no parceiro ansiedade, angústia e até mesmo uma depressão, ela se sente culpada por estar nessa posição financeira frente ao par", observa a psicóloga Raquel Fernandes Marques, da Clínica Anime, em São Paulo (SP).

Além da culpa, insegurança e baixa autoestima são outros fatores que geram o mecanismo por trás dessas atitudes que configuram nessa "síndrome da impostora no amor". Para Mara Lúcia, esses sentimentos são resultantes de crenças fundamentadas na educação familiar e na cultura patriarcal, formatadas para promover nas mulheres, desde crianças, a absurda noção de que estão no mundo para servirem, exclusiva ou prioritariamente, aos interesses masculinos, não podendo jamais estarem em pé de igualdade ou de superioridade em relação a eles.

"Para muitas mulheres, o simples fato de ter um companheiro já é uma conquista. Afinal, foram treinadas, em geral pelas mães, a pensarem sobre si mesmas como um objeto para satisfazer as necessidades dos homens, sob o risco de serem substituídas por outras. E dispostas a abrirem mão de seus sonhos, direitos e suas próprias personalidades para privilegiarem os interesses, a carreira, o descanso e o entretenimento deles", pontua.

É por isso que, nem sempre, se rebaixar para valorizar o outro é resultado apenas do machismo masculino e sua competitividade ou consequência de uma relação tóxica e abusiva. São comportamentos que também se baseiam em problemas internos e pensamentos destrutivos. "A síndrome da impostora é um fenômeno psicológico em que elas sentem que não merecem suas realizações. Internamente, se julgam uma fraude ou temem que um dia alguém descubra que elas não são boas o suficiente", fala a psicóloga Patrícia Atanes, de São Bernardo do Campo (SP).

Se rebaixar piora a situação

Mas o tiro pode sair pela culatra. De acordo com a psicóloga clínica e psicanalista Priscila Gasparini Fernandes, de São Paulo
(SP), quando o parceiro está numa situação ruim, profissional e/ou financeiramente, diminuir-se para fazê-lo se sentir melhor pode provocar justamente o efeito obrigatório.

"Essa atitude tende a piorar as circunstâncias por sobrecarregar ainda mais o parceiro que já está em conflito e precisando de ajuda com seus problemas. Muitos não querem ser enaltecidos, pois diante de dificuldades também precisam de um porto seguro e não ser o suporte",

Patrícia ainda afirma que o ideal é oferecer um acolhimento sincero: "Para que ele perceba que tem com quem contar, sem julgamentos".

Numa relação saudável, qualquer um dos envolvidos pode enfrentar uma crise pessoal, profissional ou financeira, sem que o outro tenha de se diminuir-se como expressão de amor ou solidariedade. "Aliás, a própria consciência de poder contar com alguém capaz, forte e suficientemente, durante as tormentas, deveria ser um alento, uma segurança, não um fator de ameaça ou inveja", opina Mara Lúcia, que avisa que somente homens machistas e infantilizados são incapazes de lidar com a competência e autonomia da parceira e, desse modo, necessitar de alguma forma que ela desqualifique os próprios feitos para fazê-lo parecer um ser superior o tempo todo ou quando, de fato, não o é.

Quem se identificou com a situação pode romper o padrão questionando, em primeiro lugar, se tudo o que vem fazendo para proteger o parceiro está, de fato, produzindo efeito positivo ou prejudicando o crescimento e amadurecimento de cada um e da própria relação. "Se necessário, recomendo buscar ajuda profissional ou de pessoas confiáveis e imparciais, dentro da própria rede de apoio social, para entender os limites aceitáveis e razoáveis das atitudes praticadas em relação a si e aos outros", sugere Mara Lúcia.

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