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O parceiro desvaloriza tudo que é seu? Como contornar a inveja na relação

Como ficar de bem com esse sentimento no meio do casal? - Motortion/iStock
Como ficar de bem com esse sentimento no meio do casal? Imagem: Motortion/iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

19/10/2019 04h00

Embora seja uma emoção universal, a inveja é incômoda. Todo mundo experimenta seu sabor amargo vem em quando, mas nem sempre consegue admitir. E invejar o par, embora pareça algo meio absurdo à primeira vista, é mais comum do que se possa imaginar.

"A inveja vem da admiração, e o amor também envolve a admiração. Por isso, há tanta dificuldade em lidar com esse sentimento numa relação", comenta Rejane Sbrissa, psicóloga clínica de São Paulo (SP).

Minando a relação

Nenhum relacionamento está imune à inveja. "Mas aqueles com paixão, admiração mútua genuína, confiança e diálogo são mais saudáveis, pois dificilmente têm algum tipo de competição para minar a harmonia", fala a psicóloga Livia Marques, do Rio de Janeiro (RJ).

A inveja pode acometer casais em que um é bem diferente do outro. Por exemplo: a mulher é extrovertida e o parceiro, tímido, ou um teve acesso a uma formação cultural maior do que o outro.

"Apesar do afeto, a pessoa invejosa deseja algo que o outro tem e que ela não tem, pode ser um determinado jeito de ser, a ousadia, o carisma", diz Joselene L. Alvim, psicóloga clínica de Presidente Prudente (SP) e especialista em Neuropsicologia pelo setor de Neurologia do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Conforme a experiência de Rejane em consultório, a inveja é, apesar disso, mais recorrente entre os parceiros parecidos, quando "a comparação fica muito óbvia, então as diferenças acabam ressaltando".

Ela foi promovida no trabalho, recebeu elogio...

Autoconhecimento ou o reconhecimento por um talento podem gerar inveja - fizkes/iStock
Autoconhecimento ou o reconhecimento por um talento podem gerar inveja
Imagem: fizkes/iStock

Seja qual for o tipo de personalidade e temperamento dos envolvidos, fato é que determinados acontecimentos na vida do par podem gerar inveja até em quem nunca a sentiu antes.

Exemplos: um aumento ou uma promoção no trabalho, algum elogio recebido, a oportunidade de fazer uma viagem.

"Em um determinado momento na trajetória do casal as coisas podem se modificar, e é preciso sair da zona de conforto que as pessoas criam em todas as relações. Uma mudança de comportamento e/ou de visão perante a vida também pode gerar inveja. Não raro acontecem separações em casais em que um dos dois começa a fazer um trabalho de psicoterapia, de autoconhecimento", observa Rejane.

"Se algo que o outro deseja muito e ainda não conseguiu é conquistado pelo par, pode surgir a inveja. E ela, num grau extremo, leva a diminuir o valor do merecimento do parceiro", completa Ellen Moraes Senra, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, do Rio de Janeiro (RJ).

É importante frisar que a inveja costuma dar as caras em períodos de baixa autoestima e, consequentemente, de desvalorização pessoal. "Só que dificilmente quem sente a inveja a percebe como tal. Seu discurso tende a ser convincente e ele passa a ser visto, muitas vezes, como vítima. Uma pessoa com baixa autoestima não tem confiança em si. Portanto, tem dificuldades de reconhecer o próprio potencial para atingir seus objetivos. Daí é mais fácil atribuir a 'sorte' ao outro. Ou sabotar, destruir aquilo que o outro conseguiu", pontua Joselene.

Consequências tóxicas

A sabotagem do que o outro está vivendo, mesmo que de maneira inconsciente, é a consequência tóxica da inveja numa relação amorosa. Ela pode aparecer na forma de reclamações e chantagens emocionais e, em longo prazo, conduzir ao rompimento. "Não é à toa, pois impede que o outro realize algo ou caminhe. E isso, infelizmente, pode prejudicar o relacionamento. O não saber lidar com a conquista do outro é algo que precisa ser revisto no comportamento e nas perspectivas", fala Livia.

Admitir sentir inveja é o primeiro passo para não "descontar" a frustração no parceiro, mas não dá para parar por aí. Na opinião de Ellen, depois de reconhecer e elaborar o que está sentindo é essencial abrir o jogo com o par e, juntos, tentarem entender o que gerou a inveja e qual o papel que cada um tem nisso.

"Há parceiros que costumam alimentar a inveja do outro, desvalorizando suas qualidades, ao mesmo tempo em que procuram mostrar que são melhores. É uma forma de se sobressair e um jeito disfuncional de elevar a própria autoestima", reforça Joselene.

Uma das questões mais relevantes a serem debatidas pelo casal é como a inveja vem sendo expressada.

"Ela pode ser um possível resquício de raiva ou tristeza, uma decepção com si mesmo. Por conta disso, a pessoa pode projetar na outra o fato de nunca ter conseguido algo. Nessas circunstâncias, o parceiro precisa ter empatia pelo processo que a outra pessoa vivencia dentro de si e ajudá-la a galgar além", afirma Ellen.

Investir no autoconhecimento é um passo imprescindível para reconhecer limites e potencialidades. O próximo estágio é entender que cada um tem capacidades diferentes e que isso incide nas conquistas. "Aprender com aquilo que admira no par é uma maneira produtiva de melhorar a autoestima e encontrar possibilidades para promover um avanço pessoal", diz Rejane.

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