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Neto de Chico Buarque, Chico Brown é cantor e diz ser guiado pelo feminino

Chico Brown tem 24 anos e lança em breve seu primeiro disco - Marcus Leoni - 1º.mai.18/Folhapress
Chico Brown tem 24 anos e lança em breve seu primeiro disco Imagem: Marcus Leoni - 1º.mai.18/Folhapress

Mariana Gonzalez

De Universa

04/03/2021 04h00

Francisco Buarque de Freitas faz referência ao avô, Chico Buarque, e ao pai, Carlinhos Brown, em seu nome artístico: Chico Brown. A avó materna, Marieta Severo, ficou de fora da alcunha, mas não da história do rapaz de 24 anos — ele cita a atriz como sua grande referência pessoal e artística.

Apesar de ter crescido entre tantas figuras públicas, tanto em Salvador, quanto no Rio de Janeiro (para onde se mudou aos 11 anos), Chico Brown jura que teve uma infância normal — jogava videogame, soltava pipa e quebrava colher de pau batucando pela casa — e só entendeu que a música poderia virar carreira perto de chegar à idade adulta.

Se preparando para lançar seu primeiro disco, ele conta a Universa o que aprendeu com Carlinhos, Chico e Marieta, mas é firme ao dizer que falta muito para alcançar a trajetória da família: "Ainda tenho que estudar muito — tanto a poesia, quanto o amor — para chegar nesse lugar".

UNIVERSA: Há décadas o país se refere a seu avô, Chico Buarque, como um grande conhecedor da alma feminina. Acredita que herdou isso dele?

Seria pretensiosíssimo me dizer um conhecedor da alma feminina aos 24 anos. A questão sobre meu avô vem do fato de ter uma articulação poética grande o suficiente pra entrar no contexto de seus eu-líricos, sejam eles um homem negro escravizado, como no caso de "Sinhá", ou das mulheres, sendo ele o grande romântico que é. Talvez tenha sido assim que ele conseguiu extrair experiências da alma feminina, mas do ponto de vista masculino: através da empatia, de se colocar no lugar do outro. Mas eu ainda tenho que estudar muito — tanto a poesia, quanto o amor — para chegar nesse lugar.

O que essas duas figuras masculinas tão marcantes — seu avô e seu pai — te ensinaram sobre masculinidade?

Sempre fomos poucos homens na família. O lado da minha mãe é de maioria feminina. Sempre fomos eu e meu avô, os dois Chicos, no meio de tias, irmãs, primas. Sempre fomos "os homens da casa", entre muitas aspas, guiados, orientados pelo coletivo feminino, pelo diálogo com essas mulheres.

As mulheres da minha família são tão independentes, autônomas, que nós, homens, sempre escutamos e procuramos atender muito mais do que qualquer coisa.

Chico brown com o pai, Carlinhos Brown - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Chico é um dos seis filhos de Carlinhos, e nasceu do casamento do cantor com Helena Buarque de Holanda
Imagem: Reprodução/Instagram

E quem são essas mulheres que te guiaram, na vida pessoal ou profissional?

Na esfera pessoal, vou ter que ser clichê e citar minha mãe [Helena Buarque de Holanda] e minha avó [Marieta Severo], que sempre foram grandes professoras, e me ensinaram valores que se fazem cada vez mais necessários. No caso da minha avó, principalmente: ela sempre foi um guia muito importante que liga esses universos pessoal e artístico. No campo da música, impossível não mencionar Marisa Monte, que sempre foi uma escola imensa de composição. É impressionante como ela é capaz de sintetizar em uma única frase tantos sentimentos, e da maneira mais acolhedora possível. Marisa Monte é uma parceira gigante desde que eu me entendo por gente.

Chico Buarque já se referiu a você como "o melhor músico da família". Sempre recebeu incentivos para seguir carreira musical?

Nem sempre. Um divisor de águas foi quando meu avô descobriu que eu tenho ouvido absoluto [capacidade rara de identificar e recriar notas musicais sem ter tom de referência]. Eu nem conhecia esse termo, e para mim era uma coisa normal, até que um dia fui questionar por que os versos "Dorme a cidade/Resta um coração/Misterioso" começam com dó, ré e mi, mas não seguem as notas musicais. Ele ficou impressionado, me levou para o piano e começou a tocar para ver se eu podia identificar as notas.

Mais tarde, depois da nossa primeira parceria [a música "Massarandupió", composta em 2016], ele fez esse comentário, mas eu não tenho como concordar. Não tenho a experiência dele e nem essa pretensão. A carreira musical nunca foi uma pressão, nunca fui um artista mirim, e minha relação com a música foi dissociada de carreira por muito tempo. Quando se tornou mais sólido, meu pai e meu avô se tornaram grandes incentivadores.

Em uma de suas músicas, você canta "de música eu vivo, de música eu vou morrer". Nunca se imaginou fazendo outra coisa?

Quando criança eu quis ser astronauta, piloto de Fórmula 1, até chegar na escola e descobrir que as áreas de exatas não são para mim. Mas cresci explorando a arte. Tinha uma afeição muito grande pelo cinema, pensava em ser diretor, brincava de editar vídeo — isso me serve até hoje, porque cada vez mais o músico tem que atirar para todos os lados. Só passei a enxergar a música como carreira chegando ao ensino médio, quando tinha que pensar em escolher uma profissão, fazer o Enem. Eu já compunha algumas coisas e essa frase nasceu nesse momento, em que eu estava me questionando: do que eu vou viver se não de música?

A comparação com Chico e Carlinhos incomoda? Como você lida com isso?

Não incomoda não, eu tomo como elogio, fico feliz. Mas às vezes a comparação pode tomar forma de crítica quando a pessoa não parte do princípio óbvio que eles têm muito mais tempo de carreira e de vida que eu. Meu pai tinha 30 anos quando lançou o primeiro disco, eu não tenho isso de vida. Os dois têm experiências de vida distintas entre si e diferentes da minha também.

Provavelmente a carreira deles vai ter muito mais relevância e profundidade do que qualquer coisa que eu possa almejar. Tem gente querendo que eu escreva aos 24 anos tão bem quanto meu avô, só falta questionar por que eu não tenho olho azul.

Chico brown - Divulgação - Divulgação
"Só passei a ver a música como carreira quando tive que escolher uma profissão", conta
Imagem: Divulgação

Como foi a sua infância? Quais memórias carrega com mais carinho?

Minha infância foi leve, inspiradora e criativa. Eu assistia TV Globinho, jogava videogame, soltava pipa. Queria aprender a trilha sonora das coisas que eu gostava de ver na televisão, ficava batucando a melodia até quebrar colher de pau pela casa. Mas não acho que tenha sido uma infância muito diferente de outras crianças da minha geração, talvez com experiências mais transgressoras. Tive a oportunidade de furar bolhas muito cedo, e isso só me acrescentou. Pude ver meu avô por cima do palco, ter dimensão de como o pessoal gostava dele, ver gente chorando enquanto ele cantava. Quando criança, antes de entender a dimensão da figura pública dele, achava aquilo tudo um grande exagero.

Apesar de ter nascido em uma família cheia de figuras públicas, você foi pouco exposto na mídia.

O pouco que eu fui exposto acontecia quando eu estava no Rio de Janeiro, quando ia ao Maracanã com meu avô, por exemplo, e saía no jornal. Eu sou flamenguista doente e ele é tricolor, mas me levava no meio da torcida do Flamengo mesmo. Eu achava meio doideira, mas no máximo me rendia alguma conversa de escola: um amigo dizia "Vi você na TV" ou "Vi você no jornal", eu dava risada. Hoje acho uma exposição desnecessária uma criança sair no jornal porque foi ao futebol com o avô. Em Salvador era mais fácil ser preservado, ter crescido lá me fez bem em relação a não exposição.

"Algumas pessoas não tiveram a chance de romper a bolha na sua criação, e sinto um pouco de pena disso", fala - Marcus Leoni/Folhapress - Marcus Leoni/Folhapress
"Algumas pessoas não tiveram a chance de romper a bolha na sua criação, e sinto um pouco de pena disso", fala
Imagem: Marcus Leoni/Folhapress

Crescer em um ambiente progressista, tomado por música e arte, teve que impacto?

Sempre foi muito presente na minha família o convívio e o respeito à diferença. Cresci rodeado por amigos de diferentes culturas, idiomas, hábitos e experiências. Isso impacta a maneira como eu enxergo o mundo. Algumas pessoas não tiveram a chance de romper essa bolha na sua criação, e sinto um pouco de pena disso, mas acho que sempre dá tempo de aprender a respeitar — eu não gostaria de usar o verbo tolerar, porque me parece o mínimo. Talvez mais velho a gente vá ficando mais teimosinho, mas sempre dá tempo.

E como essa diversidade pode ser vista no seu trabalho?

O Brasil sempre foi plural e diverso: numa mesma cidade a gente vê tantas matrizes religiosas, movimentos culturais, gêneros musicais. São coisas que muito gringo daria tudo para ter em seu país, e a gente não dá valor, fica tentando ser hegemônico. Eu componho usando diversos instrumentos, bebendo de diferentes ritmos, do chorinho ao heavy metal, passando, claro, pelo samba e pela música popular brasileira. São tantas referências que eu não posso ter a ambição de aplicar tudo no meu trabalho, pelo menos não agora, que eu ainda estou focando num disco de estreia.

Espero que um dia, daqui a algumas décadas, eu consiga olhar pra trás e falar "poxa, consegui falar de tudo que eu gostava", mas não vai ser no primeiro disco, nem aos 24 anos de idade, que isso vai acontecer.

Aos 24 anos e cheio de composições na gaveta, Chico Brown trabalha no lançamento de seu primeiro disco - Ricardo Borges - 19.out.2017/Folhapress - Ricardo Borges - 19.out.2017/Folhapress
Aos 24 anos e cheio de composições na gaveta, Chico Brown trabalha no lançamento de seu primeiro disco
Imagem: Ricardo Borges - 19.out.2017/Folhapress

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