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Mulheres inspiradoras

1ª mulher trans a passar por cirurgia no SUS: "Briguei, lutei, corri atrás"

Bianca Vitória Magro - Henrique Grandi/UOL
Bianca Vitória Magro Imagem: Henrique Grandi/UOL

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

29/01/2021 04h00

Bianca Magro se aposentou como funcionária pública no ano passado, aos 50 anos, mas se sente com 23. O motivo? Em 1998, ela foi a primeira brasileira a passar por uma cirurgia de redesignação sexual pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e só depois de acordar da anestesia, "se reconheceu como um ser humano".

Bianca conquistou o direito de passar pela cirurgia após uma jornada de quase três anos, dezenas de laudos médicos e a autorização de um juiz. Com isso, abriu portas: em 2018, o SUS realizava em média 57 procedimentos do tipo por ano.

Para Universa, no dia da Visibilidade Trans, Bianca Vitória Magro fala sobre o medo de "ficar ali" na sala de cirurgia, o sonho realizado ao acordar da anestesia e o que mudou em duas décadas na forma como o Brasil lida com pessoas trans.

Dias de luta

Bianca Vitória Magro - Henrique Grandi/UOL - Henrique Grandi/UOL
Aos 50 anos, Bianca se sente com 23, tempo que viveu depois da cirurgia
Imagem: Henrique Grandi/UOL
Bianca Vitória Magro - Henrique Grandi/UOL - Henrique Grandi/UOL
O procedimento foi muito noticiado; ela era reconhecida como "a moça do transplante"
Imagem: Henrique Grandi/UOL

Aos 13 anos, por distúrbios hormonais, viu os seios crescerem e as cólicas despontarem. Foi quando o médico disse à sua mãe: "Seu filho não é filho, é filha. É uma mulher", Bianca lembra. "Mas ela só tomou consciência disso depois da cirurgia, quando me viu completa, depois da cirurgia, com uma vagina. Ali ela entendeu que tinha uma filha".

"Eu briguei mesmo, lutei, corri atrás. Diziam: 'Precisa de laudo tal', eu arrumava. Até que a Justiça autorizou". A cirurgia durou três horas e foi realizada em 8 de abril de 1998, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

"Tive medo, claro. Não do resultado, mas de nunca mais acordar. Tomar uma anestesia e ali ficar, não realizar meu sonho. Aquela era minha maior esperança de vida, me encontrar comigo, poder assinar meu nome, fazer meus concursos, ter o respeito de um ser humano"

Pois Bianca acordou, realizou seu sonho, e teve que se adaptar ao novo corpo: "Foi uma libertação estar equilibrada com o meu corpo, mas, como um bebê, você tem que reaprender a caminhar, fazer xixi, tomar banho, se tocar. Tudo isso aos 27 anos".

No final dos anos 1990, a cirurgia foi noticiada em todos os veículos possíveis: seu nome e seu rosto apareceram nas capas de jornais, revistas e até no Fantástico.

Dias de glória

"Eu era do PT e saí em carreata com ela. Fomos à maior favela de Campinas e as pessoas me reconheceram. Disseram: 'Olha lá a moça do transplante que apareceu no Fantástico'. Ninguém falou 'olha lá o veado que cortou o pau'. Era 'a moça'", lembra.

Bianca Vitória Magro - Henrique Grandi/UOL - Henrique Grandi/UOL
"Sinto que perdi 27 anos da minha vida, e vivi uma segunda adolescência depois da cirurgia", conta a aposentada
Imagem: Henrique Grandi/UOL

Bianca conta que, por só ter sido reconhecida como uma mulher na idade adulta, não teve uma adolescência como tiveram suas irmãs, por exemplo — por isso, viveu as descobertas desse período mais tarde.

"Sinto que perdi 27 anos da minha vida, e vivi uma segunda adolescência depois da cirurgia. Hoje eu estou aqui, namorando um rapaz de 25, tendo que colocar na minha cabeça que a idade não é um problema."

Bianca afirma que o preconceito existe, e muito, e chama de "hipocrisia" a forma como o Brasil lia com pessoas trans — ela lembra que, enquanto país é o que mais mata por transfobia no mundo, é também o que mais consome pornografia com pessoas trans.

Por outro lado, celebra o longo caminho que foi percorrido em direção aos direitos LGBTQ+ nas últimas duas décadas: "Hoje vejo trans trabalhando, e não mais só na prostituição. Eu tive que levar laudo médico na escola para poder estudar usando meu nome, tive abrir um processo para fazer minha cirurgia. Hoje, você vai até o cartório e consegue mudar nome e gênero", diz.

"Que coisa mais gostosa estar inserida na sociedade, pertencer a ela e ser respeitada como igual. Quando você está adequada física e juridicamente, portas se abrem".

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