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Minha história

"Segurei meu filho por poucos minutos após o parto antes de perdê-lo"

"Eu me perguntava como iria embora do hospital de braços vazios" - Getty Images/iStockphoto
"Eu me perguntava como iria embora do hospital de braços vazios" Imagem: Getty Images/iStockphoto

Maria* em depoimento a Camila Brandalise

De Universa

28/01/2021 04h00

A gente não via a hora de conhecer o Arthur. O nome foi escolhido pelo meu marido. O quartinho dele, nós montamos juntos. Somos casados há três anos, tenho dois filhos de outro casamento, de 16 e 13 anos, e era o sonho do meu atual companheiro ser pai.

Como ele ainda está muito abalado, prefiro não revelar meu nome verdadeiro para que não fique pior. Sou Maria*, tenho 33 anos e trabalho em uma fábrica de tecidos. Moro no sul de Minas Gerais e perdi meu filho em fevereiro de 2020, um dia depois do parto, por causa de uma infecção causada por uma bactéria no pulmão. Queria falar sobre essa dor de perder um bebê.

O Arthur foi planejado, era o nosso sonho. Foi uma gravidez tranquila, fazia ultrassom todo mês, e o médico sempre falava que estava tudo bem. Com sete meses, tive uma perda de líquido. Ele falou que era normal. No dia do parto aconteceu de novo, duas vezes, e mais uma vez ele disse que não havia problema.

Ele nasceu de manhã. Fiz cesárea e voltei para o quarto às 7h20, quando peguei ele. Vestiram ele com uma blusinha vermelha. Era a coisa mais linda do mundo. Segurei ele por alguns minutos e vi que estava com a boquinha espumando.

Perguntei o que era aquilo para a enfermeira, ela falou que era normal. Eu disse que não era, que tive dois filhos e que com nenhum dos dois aconteceu aquilo. Depois disso, ela levou ele para o balão de oxigênio e ninguém me falava mais nada.

Às 18h do mesmo dia, vi que passaram com ele para fazer raio-X. Falei para o meu marido ir atrás, porque a gente queria ter alguma informação. A médica disse que ia fazer exame, mas sem motivo específico, um exame comum. Quando deu meia-noite, a pediatra entrou no meu quarto falando que ia transferi-lo para o hospital de uma cidade próxima, pois estava com febre e lá poderia ter os cuidados necessários.

Ele foi de ambulância. No outro dia, pedi para ficar com ele. Sentia que tinha algo errado, começou a bater o desespero. Fui com meu marido até o hospital de carro, uma viagem de uma hora e meia, me recuperando da cesária.

Quando cheguei ao hospital, o médico me disse que fazia dez minutos que ele tinha falecido. Explicou que o bebê tinha pegado uma bactéria no pulmão, perguntou se eu tive bolsa rota [fenômeno que ocorre quando a bolsa se rompe e provoca perda de líquido amniótico] na gestação. Na hora estava tão desesperada que não prestei atenção ao que ele dizia.

'Queria encontrá-lo para ver que era mentira o que me diziam'

Fiquei desesperada pedindo para ver meu Arthur, e a equipe me levou até meu filho. Eu queria encontrá-lo para ver que era mentira o que me diziam. Mas não era. Meu mundo acabou. Eu não sabia o que ia ser da minha vida dali para a frente. Como iria embora, de braços vazios, sem aquele menino que era nosso sonho? Só Deus sabe o quanto a gente o queria e o quanto a gente o amava.

Então fui conversar com o médico que o atendeu novamente. Ele falou que quando tive aquela perda de líquido, a membrana se rompeu e uma bactéria pode ter entrado.

Muita gente me falou para procurar a Justiça e processar o médico que acompanhou minha gestação, até para evitar que acontecesse com outras mulheres. Mas eu não tive forças. É uma dor que não passa, parece que foi ontem.

Tudo faz eu me lembrar do Arthur. Não quis mexer com isso, não adiantaria porque não traria meu filho de volta.

O quartinho dele está do mesmo jeito até hoje. Meu marido colocou a roupinha que ele usou em cima do colchão. Cheguei a procurar ajuda profissional, fui a uma psicóloga. Mas o meu sofrimento era tanto que vi que ninguém poderia me ajudar.

Tive muito pouco tempo com o Arthur. Mas consegui sentir ele em meus braços com vida. Eu só peço muita força para Deus."

O que é bolsa rota?

Bolsa rota é o nome dado à situação em que ocorre uma ruptura da membrana que protege o bebê durante a gestação, como explica a ginecologista e obstetra Roberta Grabert, que pode levar a uma infecção bacteriana. "Nesse caso, a mulher perde um pouco de líquido, e deve ser acompanhada com exames, se possível semanais, como hemograma. Se for detectada a infecção, o médico deve entrar com antibiótico."

A médica explica também que outra possibilidade de infecção pode ocorrer devido a um tipo de bactéria presente na vagina da mulher. "Pedimos o exame durante a gestação para saber se essa bactéria está presente. Se for positivo, não se faz nada. Mas, quando ela entra em trabalho de parto, entra com antibiótico."

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