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Mães e filhos

Enfermeiros escrevem carta para consolar mãe que perdeu bebê e ato viraliza

Família se comoveu com o gesto feito pela maternidade para amenizar dor após perda do bebê - Arquivo Pessoal
Família se comoveu com o gesto feito pela maternidade para amenizar dor após perda do bebê Imagem: Arquivo Pessoal

Rosiene Carvalho

Colaboração para Universa, em Manaus

03/10/2019 15h35

O gesto singelo, feito por funcionários de uma maternidade em Manaus, de escrever uma carta para consolar uma mãe que tinha acabado de perder um filho prematuro comoveu pessoas e viralizou nas redes sociais. O ato foi feito por funcionários do Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu, zona Centro-Sul de Manaus, a Marivete Fonseca Rodrigues, 30, que se recupera desde sábado, dia 28, do nascimento prematuro do filho que não resistiu após o parto.

Marivete recebeu uma carta feita por profissionais de enfermagens e residentes com o carimbo do pé do bebê e uma mensagem escrita por esses profissionais expressando palavras amorosas como se a criança agradecesse a dedicação da mãe durante a gestação.

"Foi muito lindo o gesto dele. Diminuiu a nossa dor pela perda do nosso filho. Nos deram amor e carinho num momento tão difícil e nos emocionaram. Não esperava esse tipo de atendimento num hospital público. Eles mostraram que são muito mais que profissionais, são humanos".

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

O bilhete após ser postado na rede social de uma das residentes de medicina do hospital viralizou na internet e surpreendeu a todos os envolvidos neste episódio. Marivete estava com cinco meses de gestação e percebeu que havia perdido líquido, na semana passada. Ela conta que procurou a maternidade e, na quinta-feira, dia 26, foi internada ciente da dificuldade que teria para manter a gestação.

"Estava com infecção urinária. Foi uma gestação difícil. Estava trabalhando o dia todo em condução escolar para ajudar meu marido com as despesas da nossa casa e das nossas duas filhas. O médico disse que seria difícil, mas que íamos tentar, pois o coração do nosso terceiro filho estava batendo", contou Marivete.

No sábado, porém, a família teve que encarar a notícia de que não poderia levar o bebê para casa. "Já havíamos começado o enxoval dele. Ficamos muito tristes, choramos", contou.

Marivete teve o bebê que, pesando cerca de 370 gramas em 20 semanas, o que equivale a cinco meses de gravidez, não resistiu. A equipe de enfermeiros e residentes de enfermagem da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Universidade do Estado do Amazonas (UEA) de plantão percebeu a dor da mãe e da família e entregou a eles uma carta com a marquinha dos pés do bebê.

Ato conforta a família e os funcionários

A enfermeira residente da Ufam na maternidade Larissa de Almeida, 28, disse que já é uma ação adotada na unidade em caso de bebês que não sobrevivem. Eles entregam a pulseirinha que seria usada por eles e um papel com o carimbo do pezinho.

"Mas conversamos com o psicólogo da maternidade e resolvemos incrementar com uma mensagem mais pessoal. Entregamos a carta, eles choraram e nós também", disse.

O psicólogo da maternidade Jonatás Tavares da Costa, 47, afirmou que a ideia tem dois objetivos confortar a família e também a equipe no episódio de dor e morte num ambiente quer é alegre e de vida.

"Na maternidade, o propósito é lidar com vidas. No nascimento, toda equipe se volta quando ocorre a questão de nascer morto. É uma situação difícil de lidar. A carta gera um conforto para a família mas também para a equipe de plantão. É como se eles dissessem não posso entregar seu filho no colo, infelizmente, mas quero oferecer um pouco de conforto neste momento. A família tem a chance de simbolizar a perda que até aquele momento só havia gerado expectativa de alegria e vida", afirmou.

A enfermeira obstetra Liseane Bello Façanha, 35, afirmou que deixa o plantão com alívio quando consegue ir além das funções automáticas do exercício profissional. "Apesar do caos que está a saúde é importante nos sentirmos realizados quando oferecemos um atendimento humanizado às pessoas", declarou.

A secretária executiva da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), Dayane Mejia de Souza, disse que há programas de atendimentos humanizados em todas as maternidades do Estado. Ela explicou que há doulas, salas de parto humanizados, profissionais que falam espanhol para atender demandas de imigrantes em Manaus e também uma sala que atende a mulheres indígenas com itens relacionados à cultura destes povos.

"Tentamos adotar critérios de saúde e humanização no atendimento para tornar especial este momento da mulher e da família, incluindo uma atenção ao marido para que entenda que algumas funções após o parto não são exclusivas de mulheres", disse.

Dayane afirma que os abortos e mortes no parto muitas vezes tem relação com o pré-natal que não é realizado da maneira correta pela mãe. De acordo com dados da Susam, de 37.056 nascimentos registrados nas maternidades do Estado esse ano, 7,9% são prematuros e com baixo peso que não conseguem sobreviver. Só em Manaus, o índice é de 9,1%.

Entre as principais causas das complicações pós-parto envolvendo bebês prematuros estão a infecção urinária. Segundo a Susam, o problema é "reflexo da falta ou da baixa qualidade do pré-natal ofertado na rede municipal. Em Manaus, a cobertura Atenção Básica, onde é feito o pré-natal, é de 47,43%", informa a secretaria.

Marinete, que se recupera psicologicamente e fisicamente do parto prematuro, afirmou que não esquecerá o gesto dos profissionais da maternidade. "A saúde no Amazonas está uma calamidade. Eu não esperava ser tratada com tanto carinho como a equipe me tratou. Achei muito lindo e ficamos agradecidos. Eles mostraram que honram a profissão deles", declarou.

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