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Bebê morre no parto, e jovem de PE acusa hospital de violência obstétrica

Larissa acusa o hospital de amarrá-la à maca - Arquivo Pessoal
Larissa acusa o hospital de amarrá-la à maca Imagem: Arquivo Pessoal

Colaboração para o UOL, em Recife

17/11/2020 11h01

Uma jovem de 20 anos acusa o Hospital do Tricentenário, em Olinda (PE), de violência obstétrica. Larissa Ferreira da Silva, de 20 anos, afirma que sua bebê morreu por negligência médica durante o trabalho de parto. Moradora da comunidade da Ilha de Santana, popularmente conhecida como Ilha do Rato, no bairro de Jardim Atlântico, Larissa diz que houve a tentativa forçada de um parto natural em vez da opção por uma cesariana. Em nota, o hospital diz que sua comissão interna de Ética Médica investiga a situação.

O fato aconteceu entre os dias 7 e 8 de novembro, e Larissa disse que chegou a ser amarrada em uma maca. "Eu não queria procurar atendimento nesse hospital por causa da má fama. Cheguei a ir em uma unidade médica do Recife, mas o médico foi muito grosso, não me atendeu lá e tive que procurar ajuda no Tricentenário mesmo", conta ela, ao UOL.

Ela estava grávida de 40 semanas e três dias de Lunna. "Eu estava com muitas dores e tinha um líquido esverdeado saindo de mim. Quando cheguei no hospital, em 7 de novembro, o médico que me atendeu disse que não eram dores de contração do parto. Só que ele fez o exame de toque e constatou que eu tinha 5 centímetros de dilatação, que minha bolsa tinha estourado e que estava perdendo muito líquido", prossegue.

"Fui internada por volta das 23h. Por volta das 3h do dia seguinte (8 de novembro), o mesmo médico apareceu, fez um novo toque e viu que eu estava com 9 centímetros de dilatação. Ele conseguiu escutar o coração do bebê, disse que a frequência cardíaca estava normal, foi embora e não apareceu mais. Eu gritava por socorro a madrugada inteira e só apareciam enfermeiras para fazer toques", acrescenta.

Larissa diz que só pela manhã, quando mudou a equipe de plantão, que apareceu um médico para ela. "E aí não conseguiam mais escutar o coração da minha filha. Ficaram uma meia hora tentando e só depois que fui para a sala de cirurgia fazer uma cesariana de emergência", lamenta.

Amarrada

Atualmente desempregada, Larissa estranhou o fato de ter tido os braços amarrados para a operação. "Disseram que eram um procedimento normal. Aí realizaram a cesariana, mas não ouvi o choro da minha bebê. E nisso todo mundo saiu da sala, sem dar satisfação de nada. Me deixaram sozinha e amarrada por uns 30 minutos. Depois que apareceu uma enfermeira para me desamarrar. Perguntei o que tinha acontecido, mas ela disse que depois uma pediatra iria conversar comigo", discorre.

Ao deixar a sala de cirurgia, a olindense ficou aguardando informações no corredor no hospital. E aí veio o choque: "Trouxeram minha filha morta. As enfermeiras não deram nenhum esclarecimento na hora. Só disseram que o bebê saiu da barriga sem vida".

Em casa, na companhia do marido, o TI Edvaldo de Miranda Calas Junior, 26, Larissa busca superar o período de luto.

"Me preparei por meses para ser a melhor mãe que minha filha podia ter. Eu não consegui, até agora, entrar no quarto dela, que eu tinha preparado todinho. Tive meu sonho frustrado por causa da negligência médica e da violência obstétrica", emociona-se. "Eu só quero justiça por minha filha. E deixo aqui um recado para outras mães que passaram por isso: denunciem. Falem, lutem e façam justiça por seus filhos", conclui.

Apoio

Em busca de justiça, Larissa foi atrás da advogada Flávia Andrade, que em outubro tinha ajudado uma outra mãe - a diarista Ana Paula Silva de Souza, 37, cujo bebê foi ferido durante um parto no Tricentenário -. A história foi contada pelo UOL à época.

parto - Reprodução/Google - Reprodução/Google
Fachada do Hospital do Tricentenário, em Olinda (PE)
Imagem: Reprodução/Google

"A regra lá é ter parto normal. Depois que forçaram a Larissa a ter um normal, e não conseguiram ouvir mais o coração do bebê, correram para fazer a cesárea. Sendo que se tivessem feito a cesárea logo no início, quando ela chegou ao hospital, com certeza a Lunna estaria viva", afirma ela.

Um boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Rio Doce, em Olinda. Flávia aguarda Larissa se sentir mais forte emocionalmente para poder levá-la para prestar depoimento. O caso também deve ser denunciado ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil informa, em nota, que "está investigando uma ocorrência na qual uma mulher de idade não informada supostamente foi vítima de negligência médica. O fato aconteceu dia 08/11/2020 e a Polícia Civil segue investigando o caso". O Cremepe não se posicionou até a publicação deste texto.

Outro lado

Também em nota ao UOL, o Hospital do Tricentenário (HTRI) esclarece que "no decorrer do trabalho de parto da gestante foi evidenciado líquido amniótico meconizado, sendo indicado um parto cesáreo, com RN sem vitalidade. Foram realizadas manobras de ressuscitação, sem sucesso".

"O caso já foi direcionado para a Comissão de Ética Médica, para que sejam apurados os fatos e o HTRI possa tomar as medidas cabíveis", afirma a instituição, que nega não ter enviado o prontuário por email à paciente.

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