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Após ser mãe, ela deixou mercado financeiro para criar padaria para bebês

Gabriela Fugulin, que criou uma padaria para bebês - Arquivo pessoal
Gabriela Fugulin, que criou uma padaria para bebês Imagem: Arquivo pessoal

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

10/01/2021 04h00

A administradora de empresas, Gabriela Fugulin, 32, sempre foi apaixonada pela gastronomia. Na adolescência, passava algumas madrugadas cozinhando com a mãe. Quando saiu de casa e começou a trabalhar em banco, preferia almoçar sozinha e aproveitar seu tempo em alguma livraria que encontrava pelo caminho.

"Eu comprava muitos livros de culinária. Lia várias vezes sem fazer as receitas, porque queria mesmo era entender as técnicas, os ingredientes, a química da gastronomia", conta. A rotina insana no mercado financeiro, no entanto, fazia com que esse fosse apenas um hobby para Gabriela.

Casou-se aos 24 anos e, quando descobriu que estava grávida, aos 27, achou que era o momento de pisar no freio. Após dez anos trabalhando em bancos, pediu demissão para se preparar para a nova fase da sua vida.

"O meu primeiro estágio, durante a faculdade, já foi na área de fundos de investimentos. Sempre gostei de finanças e matemática, e fui evoluindo na carreira. Passei por três empresas, trabalhava com transações internacionais, viajava bastante. Só que estava cansada e queria ficar um pouco em casa. Então a gestação foi um momento de calma, tranquilidade e muita pesquisa", diz.

Com tempo de sobra, entre o planejamento do parto e do enxoval do bebê, ela resolveu fazer um curso de panificação. "Queria me distrair um pouco". Enquanto testava receitas e técnicas, estudou com dedicação cada fase da gestação e do desenvolvimento do bebê. "Eu sabia que os primeiros 1.000 dias de uma criança são decisivos para o resto da vida, e queria estar presente", diz.

Seu filho nasceu, e a preparação prévia foi bem importante, mas apareceu algo que não estava nos planos: o cansaço de Gabriela à dedicação exclusiva. "Um dia, eu estava amamentando o meu filho na cama e senti muita falta de trabalhar. Tinha pensando em ficar em casa até os 2 anos dele, mas eu estava exausta."

Olhou em volta e lembrou das perguntas curiosas de outras mães quando viam o lanche do seu filho: pães de beterraba, bolos de cacau e tâmaras, feitos sem açúcar e sem ingredientes artificiais. "Tive uma ideia, vou dizer que faço também para vender". Começava ali a gestação de um negócio de sucesso: a Padaria dos Bebês.

Da cozinha de casa para a loja própria

Uma das etapas de desenvolvimento mais esperadas por Gabriela era a introdução alimentar. Estudiosa como era, buscou livros, sites e especialistas em nutrição e educação alimentar, porque queria oferecer ao filho uma alimentação saudável, variada e que respeitasse seu tempo e que desenvolvesse sua curiosidade em relação à comida.

"Sempre gostei de cozinhar, era a minha terapia. Então foi muito natural, fazer, por exemplo, um pão com a beterraba ou um bolo com o inhame que eu tinha na geladeira", diz.

Seu objetivo era que ele aprendesse a comer verduras e legumes não só nas refeições principais, mas que eles também pudessem fazer parte do café da manhã ou do lanche da tarde, aumentando as cores e a variedade nutricional da alimentação ao longo do dia. Açúcares estavam proibidos até os 2 anos e produtos industrializados deveriam ser reduzidos ao mínimo possível.

Padaria para bebês - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Padaria para bebês 2 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Com o tempo, a lancheira do filho virou a sua propaganda, e ela publicou em um grupo de mães no Facebook que vendia congelados para bebês. "Recebi 200 pedidos e minha mãe teve que vir me ajudar", conta.

Em três meses, teve que comprar um freezer novo e já não dava conta de fazer almoço e jantar da família. "Foi aí que ouvi do meu marido: 'vamos investir, porque isso já virou um negócio, só você que não está percebendo'."

Investimento de R$ 150 mil para virar um negócio

"Eu acho que por muito tempo eu tive síndrome da impostora, algo que afeta muitas mulheres. Mesmo com o aumento dos pedidos, mesmo sendo procurada por nutricionistas e pediatras, eu ainda não via aquilo como um negócio", diz.

O empreendimento em São Paulo surgiu no fim de 2017 da soma de esforços dela, do marido e da mãe, que viraram sócios. Alugaram um espaço físico, criaram site e páginas em redes sociais e planejaram a expansão para uma padaria. O investimento inicial foi de R$ 150 mil, retirados das economias da família.

"Para mim, que sempre gostei de cozinhar, que estava atenta aos rótulos dos produtos e que tinha um paladar saudável, os meus pães eram algo natural. Só que eu percebi que nem todo mundo tinha isso, e esse era o nosso diferencial", afirma. "Penso que o alimento para bebês deve ser gostoso, mas com sabor do legume; ajudar na nutrição da criança e criar uma memória afetiva; não uma papinha sem gosto e de cor bege."

Mentoria para fazer o negócio crescer

Formada em administração de empresas e acostumada ao mercado financeiro, Gabriela diz que sua experiência prévia a ajudou a lidar com alguns imprevistos do dia a dia. "Já saber trabalhar sob pressão fez diferença, porque a rotina em banco é absurdamente estressante, e conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo, o que é imprescindível para uma mãe empreendedora", conta.

O crescimento fez com que ela tivesse que contratar funcionários (hoje são quatro diretos e sete indiretos), aprendesse a gerenciar uma cozinha industrial e melhorasse a logística de produção, vendas e entregas a domicílio.

Para planejar um crescimento consistente, ela decidiu fazer uma mentoria com a Boomit, startup que oferece aconselhamento online, com reuniões semanais para pensar sobre os problemas e rumos da empresa. "Eu vejo que é muito importante tirar um tempo para refletir sobre os processos e tentar resolver os problemas, o que muitas vezes a gente acaba deixando de lado por conta da rotina", conta.

Faturamento triplicou durante pandemia

Outra coisa que ajudou, segundo Gabriela, foi participar de todas as etapas do negócio, desde as receitas até a montagem dos canais de divulgação e a logomarca da padaria. "Hoje eu sinto muita segurança de tomar decisões, porque eu conheço os processos da empresa inteira, não fico na mão dos outros", diz.

Antes da pandemia, ela aproveitava o espaço da loja para reunir especialistas em eventos gratuitos para discutir desenvolvimento infantil. Nas redes, Gabriela também compartilha dicas de alimentação saudável, tema de uma pós-graduação que ela está cursando para ampliar seus conhecimentos na área.

Como já estavam preparados para o comércio online, o negócio triplicou durante o isolamento social e eles planejam continuar crescendo. "Queremos chegar mais rápido e mais longe, porque recebemos mensagens de vários estados e também de outros países", diz. O faturamento anual do negócio é de R$ 960 mil.

O maior desafio, no entanto, é continuar participando de perto do crescimento do filho de 4 anos. "A parte mais difícil é lidar com a culpa, que acompanha todas as mães. Hoje ele vem alguns dias comigo para a padaria e outros, fica com o pai em home office. Às vezes, vejo que ele está mais irritado, precisando de atenção. Daí faço uma pausa e, não tem jeito, tenho que trabalhar à noite", afirma.

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